Escalada EUA-Israel x Irã leva guerra ao Estreito de Ormuz
A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã chega ao 39º dia com ataques a infraestrutura estratégica e ameaças diretas sobre o Estreito de Ormuz. A escalada militar pressiona o mercado global de energia e aumenta o risco de uma crise regional de grandes proporções.
Bombardeios em série e ameaça ao corredor do petróleo
O conflito entra em uma fase mais perigosa após novos ataques coordenados em território iraniano e declarações agressivas de Washington e Teerã. Donald Trump ameaça a “demolição completa” da infraestrutura estratégica do Irã se o país não reabrir plenamente o Estreito de Ormuz dentro do prazo definido pelos EUA. O Estreito concentra cerca de um quinto do petróleo transportado por mar no mundo, o que transforma cada movimento militar na região em gatilho para alta de preços.
Os bombardeios atingem universidades, aeroportos e instalações de petróleo e gás. Israel afirma ter atacado três aeroportos em Teerã e o maior complexo petroquímico do país, ligado ao campo de gás de South Pars, a maior reserva de gás natural conhecida. Teerã denuncia uma “escalada enorme” e diz que os alvos civis mostram tentativa de sabotar a sobrevivência econômica do país.
A tensão se aproxima também do setor nuclear. A Agência Internacional de Energia Atômica alerta que explosões perto da usina de Bushehr “representam um perigo muito real para a segurança nuclear e devem cessar”. Bombas caem nas imediações da planta em meio à intensificação da campanha aérea, levantando o temor de danos a instalações sensíveis.
Autoridades iranianas confirmam a morte do chefe de inteligência da Guarda Revolucionária, major-general Majid Khademi, em ataque israelense ao amanhecer. A liderança militar descreve as ameaças de Trump como “delirantes” e afirma que elas tentam encobrir o que chama de “vergonha e humilhação” dos Estados Unidos na região. O Comando Central dos EUA, o CENTCOM, diz já ter atingido mais de 13 mil alvos iranianos desde o início da ofensiva, número que ilustra a dimensão da operação.
Impasse diplomático e risco de crimes de guerra
No terreno diplomático, o avanço é mínimo. O Irã rejeita a proposta de cessar-fogo temporário apresentada por intermediários e sustenta que uma trégua curta apenas daria tempo para EUA e Israel reorganizarem novas ofensivas. Em resposta, Teerã entrega um plano de 10 pontos, que inclui o fim permanente da guerra, suspensão de sanções e ajustes em políticas nucleares. A Casa Branca considera a resposta “significativa”, mas “insuficiente”.
Especialistas ouvidos por veículos internacionais alertam que os ataques contra universidades, aeroportos civis e grandes complexos petroquímicos podem configurar crimes de guerra. O alvo dessas operações tem peso direto na vida da população, afeta serviços básicos e emprego e mina a infraestrutura necessária para reconstrução futura. A pressão de organizações internacionais aumenta conforme se multiplicam relatos de civis mortos e deslocados em diferentes frentes.
A escalada não se limita ao território iraniano. No Iraque, um drone atribuído ao Irã mata um casal na região curda depois de atingir a casa onde viviam, nas proximidades do aeroporto de Erbil. No Kuwait, um ataque com drone iraniano fere 15 militares americanos em uma base aérea. A Arábia Saudita anuncia a interceptação de drones e mísseis balísticos, enquanto os Emirados Árabes Unidos relatam a neutralização de novas ameaças aéreas.
No Bahrein, a principal ponte que liga o país à Arábia Saudita é fechada por tempo indeterminado diante do risco de ataques. O Líbano enfrenta bombardeios israelenses contínuos, com mortos, feridos e mais de 1,1 milhão de deslocados internos, segundo a ONU. Em Israel, mísseis disparados pelo Irã atingem um prédio residencial em Haifa e deixam ao menos quatro mortos, aprofundando a sensação de vulnerabilidade entre civis.
Mercado de energia em alerta e efeito dominó regional
O Estreito de Ormuz permanece no centro da crise. Imagens e relatos de navios cruzando a passagem sob intensa vigilância alimentam o clima de incerteza. Um cargueiro turco atravessa a área em meio ao aumento de escoltas militares. A Coreia do Sul anuncia rotas alternativas de abastecimento via Mar Vermelho, movimento que indica planejamento para um cenário de bloqueio prolongado em Ormuz.
As grandes economias calculam o impacto. A China, maior importadora mundial de petróleo, reage com discurso direto. O presidente Xi Jinping pede acelerar a construção de um “novo sistema energético” para reduzir a dependência de rotas vulneráveis, em especial no Golfo Pérsico. O recado também mira investidores e parceiros comerciais, que acompanham a volatilidade das cotações em tempo real.
Os reflexos chegam aos países do Golfo. Governos aumentam gastos com defesa e reforçam sistemas antimísseis. Seguradoras marítimas sobem prêmios para embarcações que cruzam a região. Empresas de logística ajustam rotas e prazos de entrega, o que se traduz em custos adicionais que tendem a ser repassados a consumidores em vários continentes. Analistas avaliam que um bloqueio parcial de Ormuz por poucas semanas já seria suficiente para desencadear forte choque de preços.
Dentro dos Estados Unidos, a própria condução da guerra cria fricções políticas. Autoridades revelam detalhes de uma operação de resgate classificada como de alto risco, que envolve mais de 170 aeronaves e centenas de militares para recuperar dois pilotos abatidos no Irã. Trump reage com indignação à divulgação de informações e exige a revelação da fonte jornalística, chegando a ameaçar prisão, em gesto que reacende o debate sobre liberdade de imprensa em tempos de guerra.
Janelas estreitas para negociação
Entre analistas de política externa, permanece a avaliação de que o conflito ainda pode ser contido, desde que haja margem para negociação. Em entrevista à Al Jazeera, Trita Parsi afirma que Washington já prorrogou prazos militares em outras crises quando percebeu sinais concretos de avanço diplomático. Segundo ele, Trump pode acabar aceitando um novo equilíbrio regional, incluindo a cobrança de taxas iranianas sobre o trânsito no Estreito de Ormuz, se isso garantir algum grau de estabilidade.
A disputa por influência e controle regional, que mistura segurança energética e política nuclear, empurra o Oriente Médio para um ponto de inflexão. Cada nova explosão em aeroportos, complexos petroquímicos e áreas urbanas reduz o espaço para concessões e aumenta o custo político de recuar. A próxima fase da guerra deve ser definida pela capacidade das partes de transformar planos de dez pontos e ameaças de “demolição completa” em um roteiro mínimo de coexistência, antes que o estreito corredor do petróleo se converta em fronteira aberta de confronto global.
