Ciencia e Tecnologia

ESA registra eclipse solar anular em detalhe inédito

A Agência Espacial Europeia registra, em 17 de fevereiro de 2026, um eclipse solar anular com uma visão inédita do Sol. A cena revela, em alta definição, o raro “anel de fogo” formado quando a Lua não consegue cobrir totalmente a estrela.

Um anel de fogo visto do espaço e da Terra

O eclipse ocorre quando a Lua passa exatamente entre a Terra e o Sol, mas, por estar em um ponto mais distante de sua órbita, não chega a encobrir o disco solar. Em vez da escuridão súbita típica dos eclipses totais, um círculo brilhante permanece visível em torno da silhueta do satélite. É esse contorno intenso, fino e fechado que os astrônomos chamam de “anel de fogo”.

Dessa vez, o alinhamento completo acontece sobre a Antártida, faixa onde a anularidade é plena. No extremo sul do Chile e da Argentina e no sul da África, moradores e pesquisadores acompanham apenas a versão parcial do fenômeno, com o Sol visto como um disco “mordido”. Enquanto telescópios em solo se concentram nessas regiões, a ESA aponta a espaçonave Solar Orbiter diretamente para a estrela, em uma coreografia que sincroniza observações terrestres e espaciais.

O imageador em ultravioleta do Solar Orbiter trabalha em um comprimento de onda de 17,4 nanômetros, invisível ao olho humano. Nessa faixa, o instrumento enxerga a atmosfera externa do Sol, a coroa solar, onde temperaturas chegam a milhões de graus. O eclipse funciona como um recorte preciso sobre essa estrutura, permitindo observar com nitidez como a luz e o plasma se distribuem em torno do disco da Lua.

Por que esse registro importa

As imagens obtidas agora se somam a uma campanha de longo prazo para entender o comportamento do Sol e seus efeitos sobre a Terra. Ao acompanhar um eclipse a partir do espaço, a ESA ganha uma espécie de laboratório natural, em que o próprio movimento da Lua cria um obturador temporário diante da estrela. Isso permite testar modelos que explicam a dinâmica orbital do sistema Terra-Lua-Sol e, ao mesmo tempo, como a luz solar varia em diferentes regiões da coroa.

A anularidade deste 17 de fevereiro reforça um dado muitas vezes abstrato para o público: a órbita da Lua não é um círculo perfeito. Quando está mais longe, o satélite aparece ligeiramente menor no céu e não cobre o Sol por completo. A diferença é de poucos pontos percentuais no diâmetro aparente, mas o efeito visual é dramático. Nesse cenário, cada fração de segundo registrada pela espaçonave vira material de estudo sobre a estrutura fina da luz solar.

O interesse não é apenas estético ou acadêmico. A atividade solar impacta diretamente satélites de comunicação, redes elétricas e sistemas de navegação. Melhorar a compreensão da coroa, região que alimenta o vento solar, ajuda a refinar previsões de tempestades que podem afetar a infraestrutura tecnológica na Terra. Quando a Lua recorta o Sol, sensores conseguem isolar sinais que normalmente ficam escondidos pelo brilho intenso, o que torna eclipses como este oportunidades raras.

A observação simultânea a partir do espaço e do solo também vale como exercício de coordenação entre agências, observatórios e universidades. Institutos na América do Sul e na África planejam campanhas de campo para medir, por exemplo, a queda de luminosidade, a resposta da atmosfera terrestre e o comportamento de aves e outros animais durante o eclipse parcial. A convergência desses dados com as medições do Solar Orbiter cria um retrato mais amplo do fenômeno.

Calendário de eclipses e próximos marcos

O eclipse anular da Antártida abre uma sequência movimentada de eventos celestes em 2026. No próximo 3 de março, um eclipse lunar total escurece a Lua para observadores nas Américas, na Austrália e em parte da Ásia. A Terra entra entre o Sol e o satélite e projeta sua sombra direta, em um espetáculo visível a olho nu por milhões de pessoas ao longo de algumas horas.

Em 12 de agosto, a atenção se volta para o hemisfério norte. Um eclipse solar total será visto da Groenlândia, da Islândia e de regiões da Espanha, transformando o dia em noite por poucos minutos em uma faixa estreita do planeta. Entre 27 e 28 de agosto, um novo alinhamento devolve a Lua ao centro do palco, desta vez de forma parcial, para quem observa das Américas, de parte da Europa, da África e da Ásia.

O calendário não para em 2026. Em 2 de agosto de 2027, um eclipse solar total atravessa o sul da Espanha, o norte da África e o Oriente Médio, com potencial para mobilizar caravanas de astrônomos amadores e turistas especializados. Em 26 de janeiro de 2028, um eclipse anular cruza a América do Sul, Portugal e Espanha, repetindo em parte a estética do “anel de fogo” visto agora. No fim de 22 de julho de 2028, outro eclipse solar total terá visibilidade parcial em regiões da Austrália, da Nova Zelândia, do sul da Ásia e da Antártida.

A cada novo evento, a ESA e outras agências espaciais ajustam instrumentos, priorizam janelas de observação e reorganizam equipes. Eclipses oferecem momentos em que parâmetros físicos, como a queda abrupta de luminosidade e as variações de temperatura, são conhecidos com antecedência de minutos e segundos. Isso torna possível preparar experimentos específicos, inclusive em solo, e comparar resultados com simulações de computador que tentam prever o comportamento da luz, do plasma solar e da atmosfera terrestre.

Os registros feitos agora pelo Solar Orbiter devem alimentar bancos de dados usados por pesquisadores nos próximos anos. A expectativa é que algoritmos de análise de imagem, hoje aplicados inclusive fora da astronomia, consigam extrair detalhes invisíveis à primeira vista nas sequências registradas em 17,4 nanômetros. As imagens também tendem a ganhar versões em cores traduzidas para o público geral, em campanhas de divulgação científica voltadas a escolas e museus.

Ciência, educação e o fascínio pelos próximos eclipses

O interesse renovado pelos eclipses chega em um momento em que as agências espaciais disputam atenção com missões à Lua, a Marte e a asteroides. Eventos como o eclipse anular de 17 de fevereiro ajudam a reconectar a astronomia com a experiência cotidiana, já que o fenômeno pode ser observado, ao menos em parte, sem instrumentos sofisticados. Em países do hemisfério sul, escolas e planetários usam a sequência de eclipses de 2026 como gancho para explicar conceitos de órbita, distância e escala cósmica.

A ESA trata o registro como peça-chave em um quebra-cabeça maior sobre o clima espacial, região em que a ciência busca as causas de tempestades solares capazes de desligar satélites e danificar equipamentos em solo. O “anel de fogo” visto do espaço, nesse contexto, não é apenas um espetáculo visual. É também uma moldura para medir a energia que o Sol envia ao sistema Terra-Lua e, por extensão, à infraestrutura que depende dessa energia de forma indireta.

A sucessão de eclipses prevista até 2028 alimenta o planejamento de expedições científicas e de turismo astronômico, setores que crescem a cada grande evento celeste. Cidades na rota da totalidade ou da anularidade começam a avaliar impacto econômico, logística de transporte e ofertas de observação segura, com filtros adequados para evitar danos à visão. Programas educacionais tentam aproveitar a janela para aproximar crianças e adolescentes de carreiras científicas.

O próximo grande teste para essa combinação de ciência, tecnologia e comunicação virá já nos próximos meses, com o eclipse lunar total de 3 de março e o eclipse solar total de 12 de agosto. Entre previsões de clima espacial, produção de imagens em alta definição e transmissões ao vivo pela internet, permanece uma pergunta simples, que escapa às planilhas de dados: quanto esses minutos de sombra e luz ainda conseguem mudar a forma como a humanidade olha para o céu.

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