Erro de cálculo na Ucrânia cobra preço alto de Putin e da Rússia
Quatro anos após ordenar a invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022, Vladimir Putin vê o que parecia uma operação relâmpago se arrastar como guerra de desgaste. A aposta em uma vitória rápida se transforma em erro estratégico fatal, com impacto profundo em vidas, economia e poder internacional da Rússia.
Uma guerra planejada para dez dias entra no quinto ano
Quando mísseis russos começam a cair sobre Kiev, em fevereiro de 2022, o Kremlin trabalha com um cronograma de no máximo dez dias para controlar o país vizinho. Pesquisas do think tank britânico RUSI indicam que a própria Rússia projeta uma tomada rápida da capital e a substituição do governo ucraniano por um aliado. A Ucrânia é vista como fraca, desorganizada e incapaz de resistir a uma ofensiva em larga escala.
Mais de 1.450 dias depois, o cálculo revela-se ilusório. As forças ucranianas resistem, reorganizam-se, recebem armas e apoio financeiro do Ocidente e transformam o que Moscou chama de “operação militar especial” em guerra de atrito. A reputação de invencibilidade do Exército russo se desfaz em trincheiras lamacentas, drones baratos e batalhas urbanas que consomem homens e equipamentos em ritmo industrial.
O custo humano assusta até analistas acostumados a números de guerra. Estudo recente do CSIS, centro de pesquisas com sede em Washington, estima quase 1,2 milhão de mortos e feridos russos desde 2022. Desses, até 325 mil seriam soldados russos mortos em combate em quatro anos, três vezes o total de baixas americanas somadas em Coreia, Vietnã, Afeganistão e Iraque desde 1945. O relatório aponta que o conflito “supera, em perdas, qualquer guerra travada por uma grande potência desde a Segunda Guerra Mundial”.
Do outro lado da linha de frente, as cifras também são brutais. Fontes ocidentais e ucranianas calculam entre 500 mil e 600 mil mortos e feridos na Ucrânia desde o início da invasão. Nos dois lados, famílias enterram filhos, maridos e irmãos enquanto o mapa da linha de frente muda pouco, apesar de ofensivas sucessivas. Kyiv admite que sua estratégia passa a mirar o desgaste do inimigo. “Se chegarmos a 50 mil, veremos o que acontece com o inimigo”, diz o ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, ao detalhar o objetivo de matar soldados russos mais rápido do que Moscou consegue treinar e enviar novos recrutas.
A conta chega em casa: economia de guerra, inflação e escassez
Moscou mantém em sigilo os números oficiais de baixas. A censura endurece, leis de “fake news” calam críticas e a propaganda estatal insiste em vitórias graduais. Na superfície, a capital ostenta cafés cheios, lojas de grife e trânsito pesado, como se a guerra estivesse em outro país. Drones ucranianos ocasionalmente cruzam o céu, mas a maioria dos moscovitas trata os ataques como ruído distante.
Os números da economia contam outra história. Impulsionada por exportações de petróleo e gás, a Rússia evita o colapso previsto por governos ocidentais após as sanções de 2022. Em 2025, sobe ao nono lugar no ranking do FMI, ultrapassando Canadá e Brasil e melhorando a posição em relação ao 11º lugar pré-guerra. O aparente sucesso, porém, depende de um orçamento militar inflado e de uma economia cada vez mais distorcida.
O governo oferece bônus generosos para recrutar soldados, em alguns casos somas equivalentes a anos de salário em regiões pobres. Famílias de mortos em combate recebem indenizações altas, pagas com recursos que deixam de ir para saúde, educação e infraestrutura. Ao mesmo tempo, fábricas de armas e munições têm prioridade absoluta. Outras áreas enfrentam o que o jornal pró-Kremlin Nezavisimaya Gazeta chama de “severa escassez de mão de obra”. O próprio veículo admite que o país precisa encontrar “800 mil trabalhadores braçais em algum lugar”.
O desequilíbrio chega à prateleira do supermercado. A inflação atinge alimentos básicos e se torna parte do cotidiano. Desde dezembro, o preço dos pepinos dobra nas estatísticas oficiais, enquanto lojas cobram ainda mais caro. Nas redes sociais, uma consumidora que se apresenta como Svetlana sintetiza o desconforto: “Os preços dos pepinos e tomates estão absurdos. Antes, diziam que os ovos eram de ouro. Agora são os pepinos”. A piada amarga expõe uma percepção crescente de que a guerra começa a invadir a cozinha.
Restaurantes fecham, pequenas empresas lutam para sobreviver a juros altos, impostos mais pesados e custos de insumos em disparada. O Estado direciona recursos e crédito para o complexo militar, enquanto o restante da economia tenta se adaptar a um modelo de emergência permanente. O resultado é uma sensação difusa de aperto no orçamento, mesmo em uma estatística macroeconômica ainda positiva.
Poder internacional em retração e dependência da China
No tabuleiro geopolítico, a guerra também produz efeitos opostos aos desejados pelo Kremlin. Um dos principais argumentos de Putin em 2022 é impedir uma nova expansão da Otan em direção às fronteiras russas. Quatro anos depois, a aliança militar ocidental ganha dois novos membros diretamente como resposta à invasão: Finlândia e Suécia. A entrada finlandesa, sozinha, mais que dobra a extensão de fronteira terrestre entre Rússia e países da Otan.
O isolamento provocado pelas sanções empurra Moscou para o leste. A China passa a ser o parceiro econômico central, comprando energia russa com desconto e vendendo carros, eletrônicos e componentes industriais. Relatório do CEPA, centro de análise de políticas públicas voltado para a Europa, descreve a assimetria: “O relacionamento é desequilibrado porque Moscou depende mais de Pequim do que Pequim de Moscou”. O texto conclui que a Rússia “claramente se tornou a parceira júnior, principalmente devido às suas alternativas econômicas limitadas”.
Ao mesmo tempo, o Kremlin perde capacidade de proteger aliados-chave. Em 2024, é obrigado a retirar o então presidente sírio, Bashar al-Assad, após sua queda diante de forças rebeldes, e lhe concede asilo em Moscou. O novo governo em Damasco, apesar da presença de duas bases militares russas no país, insiste na extradição do ex-ditador. No ano seguinte, aviões dos Estados Unidos e de Israel bombardeiam instalações nucleares no Irã, outro parceiro de Moscou, sem reação efetiva russa.
A erosão da influência chega também à América Latina. Em 2026, tropas americanas capturam o presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, apesar dos laços estreitos com o Kremlin. A Rússia protesta, mas não consegue alterar o curso dos acontecimentos. Em cada episódio, a percepção é a mesma: um país distraído, sobrecarregado pela guerra na Ucrânia e com alcance externo reduzido.
Um erro estratégico que redefine o lugar da Rússia no mundo
O cálculo inicial de Putin se apoia em um histórico de intervenções de baixo custo. As guerras na Chechênia, na Geórgia, na Síria e a anexação da Crimeia, em 2014, consolidam a imagem de um líder que usa força com eficiência e risco controlado. Invadir o segundo maior país da Europa, porém, altera a escala e a natureza da aposta. O que parecia mais uma demonstração de poder se torna um conflito de desgaste sem horizonte claro.
Quatro anos depois, a Ucrânia está devastada, com cidades arrasadas, milhões de deslocados internos e uma reconstrução que levará décadas. A Rússia enfrenta cemitérios cheios, uma economia mutilada pela lógica de guerra e um papel internacional encolhido. A pergunta que ecoa entre analistas e diplomatas não é mais se o ataque de 2022 foi um erro, mas quanto tempo levará para o país absorver o custo político, econômico e humano dessa decisão.
Nos próximos anos, a capacidade de Moscou de sustentar o esforço militar, manter o apoio doméstico e negociar sua saída do impasse vai definir não só o fim do conflito, mas também o lugar da Rússia na ordem global. A invasão que deveria reafirmar a força do Kremlin termina, por enquanto, como o movimento que expõe seus limites.
