Erro com cloro em piscina leva à morte e indiciamento de donos de academia
Um erro no manuseio de cloro em pó na piscina da academia C4 Gym, em São Paulo, provoca a morte de uma aluna de 27 anos e intoxica outras seis pessoas. O caso ocorre em 7 de fevereiro de 2026 e leva ao indiciamento por homicídio dos três sócios do estabelecimento, que agora são alvo de pedido de prisão da Polícia Civil.
Névoa tóxica em aula de natação
O sábado parecia comum na C4 Gym até o início da aula de natação. Era por volta da metade da manhã quando os alunos começam a relatar um forte cheiro químico na área da piscina. Em poucos minutos, surgem ardência nos olhos, no nariz e nos pulmões, episódios de tosse intensa e vômito. Entre os alunos está Juliana Faustino Bassetto, 27, que perde a consciência pouco depois de sair da água.
Testemunhas contam que a água exala um odor agressivo, diferente do cheiro de cloro habitual. Uma névoa branca baixa paira sobre a piscina. O que ninguém sabe naquele momento é que, minutos antes, o manobrista da academia manuseia cloro em pó de forma errada no depósito ao lado, contrariando o protocolo interno de segurança.
Segundo o depoimento do responsável técnico pela piscina, um dos sócios mais presentes no dia a dia, o funcionário é orientado a diluir o produto em água, com calma e proteção adequada. As imagens das câmeras, porém, mostram outra cena. O manobrista aparece chacoalhando o balde com cloro em pó de um lado para o outro. Uma espécie de poeira branca escapa do recipiente e se espalha pelo ambiente fechado.
O sócio relata à polícia que permanece alguns segundos observando a gravação. Vê o funcionário continuar a agitar o balde, voltar ao depósito e, em seguida, pegar outro recipiente, já com a solução diluída. Ele afirma que o gesto não faz sentido e não integra o procedimento normal de tratamento da água. “Era desnecessário agitar o balde com o produto químico puro”, diz em depoimento.
O mesmo sócio afirma que a academia fornece equipamentos de proteção individual para o manuseio de produtos químicos, como luvas e máscaras. Ele admite, porém, que não sabe explicar por que o manobrista não os usa naquele momento. A Polícia Civil quer entender se a supervisão é efetiva ou se a rotina de segurança existe apenas no papel.
Responsabilidade, falhas de gestão e morte anunciada
Minutos depois da aplicação incorreta do cloro, a aula de natação segue com alunos de diferentes idades. Entre as sete vítimas está um adolescente de 14 anos, que desenvolve complicações pulmonares e permanece internado sob cuidados médicos dias depois do episódio. O marido de Juliana e outros três alunos também são levados a hospitais, alguns em estado grave.
Juliana é socorrida e encaminhada a um hospital em Santo André, na Grande São Paulo. Sofre uma parada cardíaca e não resiste. O caso é inicialmente registrado como morte suspeita e perigo para a vida ou saúde de outrem, artigo usado em situações em que uma conduta coloca várias pessoas em risco. A partir daí, a investigação passa a mirar não só o erro individual, mas a estrutura de gestão da academia.
Um dos sócios afirma em depoimento que a administração da empresa fica separada da operação diária. Diz que não acompanha a rotina da piscina e que só toma conhecimento da gravidade do caso horas depois, quando recebe a informação de que uma aluna morreu. Outro sócio, que cuida da parte técnica, insiste que o manobrista sempre atua sob sua supervisão, mas admite que, no dia da tragédia, o funcionário age “de maneira diferente do protocolo”.
A versão do manobrista adiciona tensão ao caso. Ele diz à polícia que, ao perceber que os alunos passam mal após usar a piscina, tenta ligar ao gerente pelo menos três vezes. Não consegue contato. Conta ainda que, ao informar o dono sobre a situação, ouve apenas um comentário lacônico: “Paciência”. A frase, confirmada em depoimento, torna-se símbolo do distanciamento da direção diante de um cenário de emergência.
A academia já havia enfrentado problemas na piscina cerca de um ano antes, segundo relatos colhidos pela polícia. A investigação apura se houve notificações formais de órgãos de fiscalização ou registros de reclamações de alunos. Também estão sob análise a documentação de funcionamento, licenças e a capacitação dos funcionários que lidam com produtos químicos.
A PCESP indiciou na noite de quarta-feira (11) os três donos da C4 Gym por homicídio. O delegado responsável também pediu a prisão preventiva dos sócios, medida que, em casos semelhantes, costuma ser avaliada com base no risco de fuga, na possibilidade de interferência na investigação e na gravidade do fato. O inquérito busca definir se a morte de Juliana resulta de um erro isolado ou de uma cadeia de falhas previsíveis.
Pressão por responsabilização e mudanças nas regras
O episódio expõe uma vulnerabilidade conhecida, mas frequentemente negligenciada em academias, clubes e condomínios: o manuseio de produtos químicos perigosos por funcionários sem treinamento adequado e sem supervisão contínua. O cloro em pó, quando manipulado de forma incorreta, pode liberar gases tóxicos capazes de causar irritação severa das vias aéreas, crises respiratórias e, em casos extremos, morte por asfixia.
A morte de uma aluna jovem, em uma atividade considerada segura, desmente a ideia de que riscos químicos estão restritos a indústrias pesadas. Frequentadores de academias passam a olhar com mais desconfiança para piscinas cobertas e espaços pouco ventilados. A repercussão do caso pressiona o setor a revisar protocolos, reforçar treinamentos e comprovar, com documentos e registros, que os responsáveis técnicos de fato orientam o uso dos produtos diariamente.
Especialistas em segurança do trabalho ouvidos por autoridades defendem que academias adotem procedimentos semelhantes aos de hospitais e grandes clubes, com fichas detalhadas de cada produto, controle de estoque e registro de quem aplica e quando aplica. Erros como agitar baldes com cloro sólido, que parecem gestos banais, podem gerar nuvens tóxicas em poucos segundos, sobretudo em áreas fechadas.
A investigação em São Paulo deve alimentar discussões sobre regras mais rígidas para estabelecimentos que mantêm piscinas aquecidas e cobertas. Prefeituras e órgãos de vigilância podem ser pressionados a intensificar inspeções, checar laudos de qualidade da água e exigir comprovação formal de treinamento. Associações de academias já discutem internamente manuais unificados de boas práticas e atualização de normas técnicas.
Inquérito avança e setor aguarda resposta
A Polícia Civil ainda ouve funcionários, alunos e testemunhas externas para reconstituir, minuto a minuto, o que acontece na manhã de 7 de fevereiro. Os investigadores buscam laudos toxicológicos, imagens completas das câmeras e relatórios médicos das sete vítimas para amarrar a cadeia de responsabilidades. O Ministério Público deve receber o inquérito nas próximas semanas e decidir se denuncia os sócios por homicídio doloso, quando há assunção de risco, ou culposo, quando não há intenção de matar.
Familiares de Juliana cobram punição exemplar e indenização. O adolescente de 14 anos e os demais intoxicados ainda lidam com incertezas sobre possíveis sequelas respiratórias. A C4 Gym tenta retomar parte das atividades, mas enfrenta o desgaste público e a perspectiva de ações civis e trabalhistas. Resta à investigação responder até que ponto o erro está nas mãos do manobrista ou na cultura de gestão que o colocou sozinho diante de um balde de cloro em pó.
