Erika Hilton assume Comissão da Mulher e mira redes contra misoginia
A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) é eleita, nesta 11ª de março de 2026, presidente da Comissão da Mulher da Câmara dos Deputados, com promessa de enfrentar a violência de gênero e regular plataformas digitais para frear a misoginia online.
Gestão marcada por recado às redes e à política
Erika cruza o corredor que leva ao plenário da comissão sob aplausos de aliadas e olhares atentos de opositores. Minutos depois, já empossada, a deputada faz um discurso que mira não só o Congresso, mas também as grandes plataformas digitais. Ao assumir a presidência da Comissão da Mulher, ela deixa claro que a pauta central do colegiado será enfrentar a violência patriarcal e a escalada de discursos de ódio direcionados a mulheres, trans e travestis.
Primeira mulher trans a comandar o espaço, a parlamentar fala em “reparação histórica” e vincula a agenda de gênero à regulação das redes sociais. “Vamos aqui discutir projetos, vamos aqui discutir a vida das mulheres, vamos aqui lembrar sim que, queira ou não queira, mulheres e trans e travestis não serão abandonadas nessa discussão e não me importa a vontade de quem quer que seja”, afirma, diante de um plenário lotado. O recado se dirige a setores conservadores que, ao longo dos últimos anos, tentam esvaziar pautas relacionadas à população LGBTI+ e à diversidade dentro do próprio Congresso.
A eleição ocorre em Brasília, em meio ao avanço de conteúdos misóginos e de comunidades masculinas conhecidas pelo rótulo “red pill”, que difundem discursos de ódio contra mulheres e contestam políticas de igualdade de gênero. Em seu pronunciamento, Erika promete pressionar por um marco regulatório das plataformas digitais capaz de responsabilizar empresas que monetizam esse tipo de material. A pauta se soma a projetos já em discussão na Casa sobre crimes de ódio, discurso extremista e segurança online.
O comando da comissão também se estrutura com outras três deputadas: Laura Carneiro (PSD-RJ) assume a primeira vice-presidência, Adriana Accorsi (PT-GO) fica com a segunda, e Socorro Neri (PP-AC) ocupa a terceira vice. A composição indica uma tentativa de costurar pontes entre partidos de centro, esquerda e centro-direita em torno de uma agenda mínima de proteção das mulheres, ainda que as linhas de corte ideológico sigam presentes em temas como aborto, educação sexual e direitos LGBTI+.
Violência de gênero, STF e disputa por narrativas
O discurso de posse de Erika mira um cenário concreto. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam, em relatórios recentes, aumento de casos de violência online contra mulheres, ao mesmo tempo em que o feminicídio se mantém em patamar elevado. No plenário, a deputada fala em políticas públicas “inclusivas e reparadoras” e cita adolescentes e jovens expostos diariamente a conteúdos misóginos de alta circulação nas redes.
A parlamentar reforça que a comissão deve tratar “todas as mulheres, sem exceção na sua dignidade e na sua pluralidade”, em referência explícita a trans e travestis. “Há uma determinação no STF e se antes espezinhavam os nossos direitos, se antes esmagavam a nossa dignidade sem que nós pudéssemos estar aqui de igual para igual, defendendo nosso lugar no mundo este tempo acabou. Nós chegamos aqui, chegamos para ficar e chegamos para fazer uma reparação histórica”, afirma.
O aceno ao Supremo Tribunal Federal remete a decisões dos últimos anos que equiparam a transfobia ao crime de racismo e reforçaram proteções legais à população LGBTI+. Esses julgamentos abriram espaço jurídico para que mulheres trans e travestis reivindiquem assento em políticas públicas dedicadas à proteção das mulheres de forma ampla. Na comissão, Erika sinaliza que pretende traduzir esse entendimento em legislação concreta, com mecanismos claros de proteção, acolhimento e responsabilização.
O foco nas plataformas digitais não surge ao acaso. Nos últimos cinco anos, o ambiente virtual se torna uma frente de ataque constante a parlamentares mulheres, sobretudo negras, trans e de esquerda. A própria Erika relata, em diferentes ocasiões, ter sido alvo de campanhas coordenadas de desinformação e ameaças de morte. Agora, na presidência de um dos principais colegiados ligados à agenda de direitos, ela promete pressionar empresas de tecnologia a colaborar com investigações, remover conteúdos de ódio com mais rapidez e impedir a circulação massiva de discursos “red pill”.
O embate, porém, não é simples. Bancadas vinculadas ao agronegócio, ao bolsonarismo e a segmentos religiosos já manifestam resistência a qualquer forma de regulação que possa ser interpretada como censura. A disputa tende a se refletir nos pedidos de audiências públicas, na definição de relatorias e na fila de projetos que avançam ou travam dentro da comissão ao longo de 2026.
O que muda com a nova presidência e os próximos passos
Na prática, a presidência da Comissão da Mulher funciona como um filtro decisivo sobre quais propostas ganham prioridade. Sob o comando de Erika Hilton, a expectativa é que temas como fortalecimento da rede de atendimento às vítimas, ampliação de casas-abrigo, investimento em centros de referência e aperfeiçoamento de delegacias especializadas em atendimento à mulher saiam da gaveta. Prazos para votação de projetos podem encurtar, e pedidos de vista tendem a ser mais disputados, numa comissão que passa a ter maior visibilidade.
Para movimentos feministas e organizações LGBTI+, a eleição representa um ponto de inflexão simbólico e prático. Ter uma mulher trans presidindo o colegiado amplia a pressão por políticas que contemplem violências específicas, como expulsão familiar, transfobia em serviços de saúde e exclusão escolar. Ao mesmo tempo, grupos conservadores veem na nova configuração um risco de avanço de agendas que consideram “ideológicas” e prometem travar propostas que ampliem direitos sexuais e reprodutivos.
O impacto também chega às discussões sobre regulação das plataformas digitais no Congresso. A comissão presidida por Erika deve disputar protagonismo com outras áreas da Câmara, como as comissões de Comunicação e de Constituição e Justiça, na definição de parâmetros para responsabilizar empresas de tecnologia por conteúdo misógino e de ódio. Audiências com representantes de big techs, Ministério Público, academia e organizações da sociedade civil já são cogitadas para o primeiro semestre.
As próximas semanas indicarão se a nova presidência consegue construir maioria estável para aprovar projetos sensíveis ou se ficará restrita a atos simbólicos e debates públicos. Erika aposta na convergência mínima em torno do combate à violência doméstica, ao feminicídio e à perseguição virtual a mulheres, temas que, ao menos no discurso, encontram apoio em diferentes campos políticos. A forma como essa agenda se traduzirá em lei, orçamento e políticas concretas ainda está aberta – e será um dos principais termômetros da força da Comissão da Mulher em 2026.
