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Erika Hilton aciona PGR contra Nikolas por vídeo em área de enchente

A deputada federal Erika Hilton aciona a Procuradoria-Geral da República contra o deputado Nikolas Ferreira após a gravação de um vídeo em área de enchente. O episódio ocorre em 27 de fevereiro de 2026, em Ubá, na Zona da Mata mineira, durante operações de resgate em andamento.

Vídeo em meio ao caos e disputa sobre limite da atuação política

O embate começa à beira de ruas alagadas, com sirenes ligadas e equipes tentando chegar a moradores ilhados. Em meio às equipes de bombeiros e da Defesa Civil, Nikolas grava um vídeo em uma das áreas mais afetadas pela enchente em Ubá, cidade com cerca de 120 mil habitantes localizada a 290 quilômetros de Belo Horizonte. A presença de assessores, câmeras e apoiadores cria um pequeno bloqueio em um dos acessos usados para o resgate.

Enquanto agentes orientam curiosos a se afastar, o deputado ergue o celular, descreve a cena de destruição e, na sequência, divulga um link de vaquinha online para arrecadar recursos. A iniciativa é apresentada como forma de ajudar as vítimas, mas, na avaliação de Erika Hilton, atravessa a linha entre solidariedade e autopromoção política em momento de calamidade. A deputada sustenta que o gesto atrapalha o trabalho de quem procura salvar vidas.

Acusação de interferência em resgates e reação imediata

Em representação encaminhada à PGR, Erika afirma que Nikolas interfere diretamente nas ações de socorro ao ocupar área sensível da operação para gravar o vídeo. A parlamentar argumenta que o deslocamento de equipes para contornar o grupo e a necessidade de reorganizar trajetos reduzem a eficiência do resgate em minutos decisivos. “Político não pode transformar tragédia em cenário para conteúdo de internet”, diz, em nota. “Quando alguém atrapalha o acesso de bombeiros e voluntários, coloca vidas em risco”.

A cena circula nas redes sociais ao longo da tarde, com cortes de poucos segundos e versões divergentes sobre o que ocorre no local. Aliados de Nikolas defendem que o deputado dá visibilidade à situação de Ubá e estimula doações em um momento em que centenas de famílias perdem móveis, documentos e renda. Críticos apontam o enquadramento do vídeo, centrado na figura do congressista, e o fato de a gravação ocorrer enquanto botes e caminhonetes ainda se deslocam em ruas tomadas pela água barrenta.

A decisão de acionar a PGR dá contornos institucionais a um conflito que começa no asfalto cheio de lama e rapidamente migra para Brasília e para o debate nacional. Erika pede que a Procuradoria avalie se houve abuso de prerrogativas, desrespeito a autoridades locais e eventual prática de crime ao atrapalhar serviço de socorro em andamento. O pedido se apoia em dispositivos do Código Penal que punem quem impede ou dificulta ação de resgate em situações de perigo à vida.

Vaquinha online levanta dúvidas sobre transparência e controle

O vídeo de Nikolas vem acompanhado de um link para uma vaquinha virtual, hospedada em plataforma de financiamento coletivo. O deputado afirma que os recursos se destinam às vítimas das enchentes em Minas Gerais, sem detalhar, no momento da gravação, critérios de distribuição, prazos para prestação de contas ou canais oficiais de fiscalização. A ausência de informações claras alimenta questionamentos de especialistas em transparência pública e organizações locais.

Moradores de Ubá relatam que, até o fim da noite, o foco principal ainda é o resgate de pessoas em casas alagadas e o envio de água potável e alimentos. Entidades civis lembram que cidades em estado de calamidade já contam com canais formais de doação, operados por prefeituras, governos estaduais e Defesa Civil. Em crises recentes, como as enchentes na Bahia em 2021 e no Rio Grande do Sul em 2023, vaquinhas organizadas por figuras públicas levantam milhões de reais, mas também suscitam investigações e exigem auditorias posteriores.

Erika menciona esse histórico na representação e cobra que as autoridades federais examinem se a iniciativa de Nikolas observa padrões mínimos de transparência. Ela questiona se há equipe técnica responsável por gerir os recursos, se o dinheiro segue diretamente para órgãos públicos ou se passa antes por estruturas ligadas ao deputado ou a aliados. A PGR, caso aceite o pedido, pode requisitar informações à plataforma, ao parlamentar e a órgãos de controle para mapear o fluxo das doações.

Disputa sobre ética na tragédia e próximos passos da investigação

O episódio em Ubá reforça um debate que se repete a cada nova enchente ou desastre natural no país: até onde vai o limite da exposição política sobre o sofrimento alheio. A presença de câmeras e celulares em áreas de risco se torna prática comum na última década, impulsionada por redes que exigem atualizações em tempo real e premiam quem domina a narrativa de cada tragédia. A fronteira entre prestação de contas, campanha antecipada e exploração de imagens de dor fica cada vez mais tênue.

Organizações de defesa civil defendem protocolos mais rígidos para circulação de autoridades em zonas de resgate, com faixas de segurança bem demarcadas e prioridade absoluta para equipes técnicas. Assistentes sociais que atuam na região argumentam que a disputa política em torno da enchente de Ubá desvia o foco de problemas concretos, como a necessidade de reconstruir pontes, recuperar escolas e garantir abrigo digno para famílias que perdem tudo em poucas horas de chuva intensa.

A PGR ainda não define prazo para analisar o pedido de Erika, mas a praxe em casos de repercussão nacional indica que a área criminal deve ao menos solicitar informações preliminares. Se a Procuradoria enxergar indícios de irregularidade, pode abrir procedimento formal, ouvir autoridades locais, requisitar imagens completas do momento da gravação e avaliar a relação entre a presença do deputado e eventuais atrasos ou desvios nas rotas de resgate.

Enquanto o processo anda em Brasília, a vida em Ubá depende de decisões mais imediatas: liberação de verbas emergenciais, envio de equipes extras, recuperação da infraestrutura básica. A reação da PGR ao gesto de Nikolas, por sua vez, tem potencial de definir balizas para o futuro. A forma como a Justiça interpreta esse episódio pode indicar até que ponto a busca por visibilidade política em meio a tragédias continuará sem freios ou passará a enfrentar limites mais claros, impostos não pela comoção do momento, mas pela lei.

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