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Equador e EUA lançam ofensiva conjunta contra narcotráfico em 4 províncias

O governo do Equador inicia em março de 2026 operações conjuntas com os Estados Unidos contra grupos criminosos ligados ao narcotráfico, classificados como terroristas. A estratégia inclui ações militares e policiais coordenadas e toques de recolher em quatro províncias consideradas chave para o escoamento de drogas pelos portos equatorianos.

Escalada da violência empurra Quito para nova fase da guerra às drogas

As operações marcam uma guinada na resposta do presidente Daniel Noboa à onda histórica de criminalidade que atinge o país de pouco mais de 18 milhões de habitantes. Em 2025, o Equador registra 9.216 homicídios, o maior número já contabilizado, enquanto se consolida como rota de saída da cocaína produzida na Colômbia e no Peru em direção aos mercados dos Estados Unidos e da Europa.

A nova fase da ofensiva ganha o selo público do Comando Sul dos Estados Unidos, responsável pelas operações militares de Washington na América Latina. Em um vídeo de cerca de 30 segundos publicado nas redes sociais, a unidade americana anuncia o lançamento de ações conjuntas contra organizações que Quito e Washington descrevem como “narcoterroristas”. As imagens mostram helicópteros decolando em área de mata e cenas de uma operação rotulada como “desclassificada”.

Analistas de segurança ouvidos pela CNN Internacional identificam pelo menos dois Eurocopter AS332 Super Puma da Força Aérea equatoriana nas gravações. O Ministério da Defesa de Quito se recusa a informar se há aeronaves ou equipes norte-americanas em campo, alegando razões de segurança. A extensão da participação dos EUA permanece nebulosa, ponto sensível para um país com memória recente de ingerências estrangeiras na região.

Em mensagem após encontro com o comandante do Comando Sul, general Francis Donovan, Noboa anuncia que “no mês de março faremos operações conjuntas com nossos aliados da região, incluindo os Estados Unidos”. O presidente reafirma que “a segurança dos equatorianos é nossa prioridade e lutaremos para obter a paz em cada canto do país”.

Toque de recolher, apoio internacional e disputa por protagonismo regional

O plano de Noboa combina reforço militar, operações policiais cirúrgicas e coordenação estreita com agências internacionais. O ministro do Interior, John Reimberg, informa que, entre 15 e 30 de março, o governo decretará toque de recolher em quatro províncias consideradas estratégicas para a circulação de drogas e a atuação de gangues. As áreas exatas não são detalhadas, mas autoridades indicam foco especial na costa do Pacífico, onde se concentram os portos usados pelo crime organizado.

Em paralelo, a polícia equatoriana desmonta em 3 de março uma rede de tráfico que opera em três províncias, duas delas na fronteira com o Peru. A ação conta com o apoio da DEA, agência antidrogas dos EUA, e da Europol, a polícia europeia. Só em 2025, as forças de segurança do Equador apreendem pouco mais de 222 toneladas de drogas, volume que expõe o peso crescente do país nas rotas do narcotráfico.

Para o analista de segurança Renato Rivera, diretor do Observatório do Crime Organizado do Equador, há um movimento deliberado de aproximação com Washington. “Vê-se um alinhamento do Equador com a política externa dos Estados Unidos”, afirma à CNN Internacional. Noboa recebe em Quito o secretário de Estado, Marco Rubio, e a secretária de Segurança Nacional, Kristi Noem, em busca de acordos de cooperação e recursos para enfrentar o crime organizado.

O cálculo político de Noboa passa também pela disputa simbólica com a Colômbia, parceira histórica dos EUA na guerra às drogas desde o lançamento do Plano Colômbia, em 1999. O programa canaliza bilhões de dólares em assistência militar e policial. O plantio de coca no país vizinho cai de cerca de 168 mil hectares no início dos anos 2000 para 48 mil em 2013, mas volta a crescer e alcança cerca de 260 mil hectares em 2024, segundo estimativas citadas pelo governo de Gustavo Petro.

Rivera avalia que o Equador tenta ocupar espaço nesse tabuleiro. “Colômbia tem sido o parceiro estratégico dos Estados Unidos na luta contra as drogas e o Equador busca ocupar esse espaço. Mas é muito difícil quebrar relações de confiança e diplomáticas de mais de 40 anos”, diz. Ele ressalta que o Equador não é produtor de cocaína na mesma escala de Colômbia e Peru, mas se torna o principal porto regional de embarque.

Impactos internos e tensões com a Colômbia

A intensificação da cooperação com os EUA ocorre em meio a uma crise diplomática com Bogotá e a um realinhamento acelerado da política externa equatoriana. Noboa expulsa o embaixador de Cuba e toda a missão diplomática do país em Quito e retira o próprio embaixador em Havana, sem explicação oficial detalhada. O presidente também é convidado para uma reunião na Flórida com Donald Trump e outros líderes latino-americanos próximos a Washington.

Na fronteira norte, o presidente colombiano Gustavo Petro reage ao recrudescimento da retórica de Quito e à escalada tarifária entre os dois países. “A exportação de cocaína é cada vez mais equatoriana”, escreve Petro ao anunciar a instalação de um radar moderno em Ipiales, na divisa com o Equador, para rastrear aeronaves ilegais. O colombiano afirma que o maior desafio está nos rios e selvas e defende coordenação entre as marinhas dos dois países.

Rivera vê uma espécie de descompasso entre o discurso político e a rotina das forças de segurança. “Observa-se uma discordância ao nível político e operacional em relação à defesa entre Equador e Colômbia”, diz. “Embora no nível político haja uma confrontação comercial, a ordem não chega necessariamente ao nível operacional. Diariamente, a comunicação existe pela interdependência na fronteira.”

Na prática, a nova ofensiva pode produzir uma queda pontual em homicídios e sequestros ligados a disputas entre gangues, sobretudo nas cidades portuárias do Pacífico. Especialistas alertam, porém, para o risco de reação violenta das organizações alvo das operações, que podem tentar pressionar o governo com ataques coordenados contra policiais, militares e civis em áreas urbanas densas.

Pressão por resultados rápidos e incertezas sobre presença americana

O Comando Sul limita-se a dizer que “neste momento não tem nada a acrescentar” sobre o alcance das operações no Equador e promete divulgar mais informações quando possível. A embaixada dos EUA em Quito também é acionada pela CNN Internacional e, até o momento, não detalha se haverá tropas americanas em solo equatoriano nem o tipo de armamento empregado.

Nos bastidores, estrategistas em Quito e em Washington enxergam a janela de março como teste político para Noboa e para a capacidade do Equador de assumir papel mais visível na segurança regional. A aposta do presidente, descrito por interlocutores como um homem de negócios pragmático, é deslocar o foco da Casa Branca da produção de coca na Colômbia e no Peru para a etapa da distribuição pelos portos equatorianos.

A ofensiva conjunta tende a ampliar o debate na América Latina sobre os limites da presença militar dos Estados Unidos e sobre a eficácia de modelos centrados em operações de alto impacto e curto prazo. O governo equatoriano promete resultados concretos ainda em 2026, sob a pressão de estatísticas de violência que não dão trégua. A pergunta que se impõe é se mais helicópteros no céu e mais soldados nas ruas serão suficientes para reverter uma década de avanço silencioso do crime organizado sobre o Estado.

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