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Equador e Colômbia abrem guerra comercial com tarifa de 30%

Equador e Colômbia abrem uma guerra comercial inédita na fronteira andina nesta quinta-feira (22). Quito impõe tarifa de 30% a produtos colombianos, e Bogotá reage com sobretaxa equivalente e suspensão das vendas de energia ao país vizinho.

Tarifas cruzadas e ameaça ao fornecimento de energia

O confronto ganha forma em duas frentes: no comércio e na energia. Em Davos, na Suíça, o presidente equatoriano, Daniel Noboa, anuncia a cobrança de uma “taxa de segurança” de 30% sobre importações da Colômbia a partir de 1º de fevereiro de 2026. Menos de 24 horas depois, o presidente colombiano, Gustavo Petro, responde com tarifas espelhadas e decide interromper as exportações de eletricidade ao país vizinho.

Noboa justifica a medida como reação àquilo que descreve como falta de cooperação colombiana no combate ao narcotráfico e a atividades ilegais na fronteira comum. Em mensagem publicada na rede X, ele afirma que o Equador carrega um déficit comercial superior a US$ 1 bilhão por ano com a Colômbia e, mesmo assim, não vê reciprocidade na segurança. “Temos feito esforços genuínos para cooperar com a Colômbia, mesmo com um déficit comercial superior a US$ 1 bilhão anualmente. Mas, embora tenhamos insistido no diálogo, nossas Forças Armadas continuam a confrontar grupos criminosos ligados ao narcotráfico na fronteira sem qualquer cooperação”, escreve.

O presidente equatoriano diz ainda que a sobretaxa de 30% ficará em vigor até que Bogotá assuma um “compromisso real” de combate conjunto ao narcotráfico e à mineração ilegal na região de fronteira, “com a mesma seriedade e determinação que o Equador demonstra hoje”. Na prática, o governo de Quito tenta usar o peso do comércio bilateral como instrumento de pressão política e de segurança.

Disputa escapa da fronteira e contamina integração andina

A resposta da Colômbia vem em tom calculado, mas firme. Em nota oficial, o Ministério do Comércio, Indústria e Turismo anuncia a aplicação de uma tarifa de 30% sobre a importação de 20 produtos equatorianos, descrita como uma reação “proporcional, temporária e passível de revisão à alteração das condições comerciais bilaterais”. O texto evita falar em sanção, mas deixa claro que o país não aceitará mudanças unilaterais.

O governo colombiano enfatiza que a decisão de Noboa rompe o equilíbrio que vinha sustentando o comércio entre os dois países. Segundo o ministério, a tarifa recíproca é “um instrumento legítimo do Estado colombiano para restabelecer o equilíbrio comercial e proteger o aparato produtivo nacional, em decorrência da decisão unilateral adotada pelo Equador”. Bogotá ressalta estar aberta ao diálogo, mas afirma ter a “obrigação de agir quando as regras que historicamente regem as relações comerciais entre os países são modificadas unilateralmente”.

A retaliação mais sensível, porém, atinge a energia. A Colômbia decide suspender as vendas de eletricidade ao Equador, alegando necessidade de proteger sua soberania e segurança energética diante de alertas iniciais sobre uma possível transição para o fenômeno climático El Niño. “Quando as condições de segurança energética forem restauradas e um quadro de confiança e boa-fé for reconstruído entre os dois países, a Colômbia estará disposta a retomar as trocas de eletricidade”, afirma o ministério.

A interrupção do fluxo de energia afeta diretamente o planejamento elétrico equatoriano, que depende das importações colombianas para momentos de pico de consumo e períodos de seca. A decisão de Bogotá sinaliza que a disputa vai além da retórica comercial e coloca em xeque a interdependência que, nas últimas décadas, ajudou a amortecer crises políticas na região andina.

O embate também expõe uma mudança de estilo na condução da política externa sul-americana. A estratégia de usar tarifas e ameaças comerciais como instrumento de pressão, associada nos últimos anos à gestão de Donald Trump nos Estados Unidos, agora aparece em uma relação entre vizinhos que, historicamente, alternam cooperação em segurança e rivalidades pontuais. A guerra comercial nasce justamente em um momento em que organismos regionais tentam reconstruir pontes diplomáticas após anos de fragmentação.

Impacto imediato no comércio e na segurança regional

As tarifas de 30% tendem a encarecer uma ampla gama de produtos que cruzam diariamente a fronteira, de alimentos e manufaturados a insumos industriais. Empresas que montam cadeias produtivas integradas entre Equador e Colômbia já iniciam revisões de contratos e rotas logísticas para reduzir o impacto dos novos custos. Consumidores dos dois lados devem sentir, em poucas semanas, alta de preços em itens importados e possíveis desabastecimentos pontuais em regiões fronteiriças.

No setor elétrico, a suspensão das vendas de energia coloca pressão adicional sobre o sistema equatoriano, que precisa compensar a perda com geração interna mais cara ou com acordos emergenciais com outros vizinhos. A Colômbia, por sua vez, arrisca perder receita em um mercado cativo, mas busca demonstrar que não aceitará ser alvo de medidas unilaterais sem resposta à altura.

A narrativa sobre o narcotráfico alimenta a escalada. Noboa insiste que o Equador enfrenta grupos armados ligados às rotas da cocaína praticamente sozinho na fronteira comum. Petro reage apresentando números robustos de operações. “Hemos incautado más de 200 toneladas de cocaína en la frontera con Ecuador, hemos hecho centenares de combates, y recuperado centenares de fusiles en la frontera”, escreve nas redes, antes de listar centros conjuntos de inteligência em Puerto Leguízamo, no departamento de Putumayo, em Manaus, no Brasil, e novos sistemas de radar instalados em Leticia, no Amazonas.

O choque de versões cria um impasse perigoso em uma das áreas mais sensíveis da segurança regional. Rotas de cocaína, tráfico de armas e mineração ilegal se concentram justamente em zonas de difícil acesso entre os dois países, onde a coordenação entre Forças Armadas costuma ser decisiva para conter a expansão de grupos criminosos. Sem confiança política, operações conjuntas tendem a perder eficácia, o que abre espaço para que organizações ilegais aproveitem a brecha.

Risco de escalada e pressão por mediação

Organismos internacionais e governos da região acompanham o caso com preocupação. A guerra comercial entre Equador e Colômbia derruba o discurso recente de retomada da integração sul-americana e cria ruídos em fóruns multilaterais que tentam mediar conflitos antes que cheguem a esse ponto. A expectativa é que iniciativas discretas de mediação ganhem força nas próximas semanas, com participação de países vizinhos e de entidades como a Comunidade Andina.

Os dois governos, por enquanto, insistem em mostrar força. Noboa condiciona qualquer recuo à comprovação de um esforço colombiano mais visível contra o crime organizado na fronteira. Petro sinaliza disposição para conversar, mas não abre mão das medidas, que descreve como temporárias e revisáveis, desde que Quito reverta a sobretaxa de 30% e retome o diálogo sem ameaças.

O desenlace dependerá do custo político e econômico que cada lado está disposto a suportar. Se tarifas e corte de energia persistirem por meses, o impacto sobre empresas, empregos e contas públicas tende a empurrar os dois presidentes de volta à mesa de negociação. Resta saber se o dano à confiança mútua, alimentado em público e em tempo real pelas redes sociais, permitirá reconstruir rapidamente a cooperação em segurança e comércio que sustentou a relação entre Equador e Colômbia nas últimas décadas.

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