Esportes

Enhanced Games em Las Vegas abraçam doping e desafiam movimento olímpico

Os Enhanced Games reúnem, entre 21 e 24 de maio de 2026, em Las Vegas, atletas dopados em busca de recordes e prêmios milionários. A competição, apelidada de “Olimpíada do Doping”, confronta frontalmente o modelo olímpico tradicional e acende um alerta sobre saúde, ética e o futuro do esporte.

Las Vegas vira vitrine do doping liberado

No Resorts World Las Vegas, o cartaz promete algo que o esporte passa décadas tentando evitar: uso aberto de substâncias proibidas em nome da performance máxima. Em quatro dias de competições, nadadores e velocistas correm e nadam sabendo que o doping não é risco de punição, mas regra do jogo.

O programa esportivo é enxuto, mas agressivo. Na piscina, estão os 50 m e 100 m livre, além dos 50 m e 100 m borboleta. Na pista, os 100 m rasos, os 100 m e 110 m com barreiras. Há ainda provas de levantamento de peso. É uma vitrine pensada para recordes rápidos, marcas fáceis de comunicar e vídeos virais.

A lista oficial de atletas ainda é curta. Apenas 34 nomes aparecem no site, mas a vitrine tem peso. O britânico Ben Proud, vice-campeão olímpico nos 50 m livre, e o norte-americano Fred Kerley, campeão mundial e duas vezes medalhista olímpico nos 100 m rasos, são as figuras mais conhecidas. A presença deles rompe um tabu silencioso do alto rendimento: admitir em público o que por anos ficou restrito a suspeitas e casos isolados.

Kerley não esconde a meta. “O recorde mundial sempre foi o objetivo da minha carreira. Agora, isso me dá a oportunidade de dedicar toda a minha energia a superar meus limites e me tornar o ser humano mais rápido que já existiu”, afirma. Ele mira os 9s58 de Usain Bolt com um corpo remodelado por protocolos farmacológicos que, em competições tradicionais, o tirariam da pista.

A iniciativa nasce em 2022, capitaneada pelo empresário australiano Aron D’Souza. Ele diz que o sistema antidoping atual fracassa e apenas empurra o uso de substâncias para a clandestinidade. No discurso oficial, os Enhanced Games defendem “autonomia corporal”, “liberdade científica” e “transparência”. Na prática, criam um ambiente em que vale quase tudo, desde que registrado como experimento e embalado como entretenimento global.

Dinheiro, Ozempic e o plano de vender o corpo aprimorado

O modelo de negócios ajuda a explicar por que o projeto ganha tração tão rapidamente. Cada prova individual paga US$ 500 mil em prêmios, com US$ 250 mil para o vencedor. Há bônus por participação e um cheque de US$ 1 milhão para quem quebrar os recordes mundiais dos 100 m rasos e dos 50 m livre. Na conversão atual, são cerca de R$ 5,2 milhões por marca histórica.

Ben Proud admite que o dinheiro pesa. “Tenho 30 anos e a aposentadoria tem sido um assunto de discussão há alguns anos. Nós, atletas do programa olímpico, não ganhamos dinheiro suficiente para nos aposentar”, disse à BBC Radio 5 Live. Ao jornal The Guardian, foi ainda mais direto: “Se você analisar os fatos, levaria 13 anos conquistando títulos mundiais só para ganhar o que posso ganhar em uma competição nos Enhanced Games”.

Os valores circulam ao lado de um enredo mais ambicioso, que mira o mercado global de saúde e performance corporal. Os organizadores enxergam nos Enhanced Games uma espécie de laboratório extremo, que depois transborda para prateleiras de academias, clínicas e farmácias. A inspiração declarada é o Ozempic, medicamento que se populariza como caneta emagrecedora e hoje movimenta a economia da Dinamarca.

A narrativa é sedutora: atletas levam substâncias ao limite, cientistas encontram doses consideradas seguras e o público geral recebe versões “controladas” desse doping, vendidas como atalho para o corpo sarado e o envelhecimento retardado. “A medicina esportiva e a tecnologia antienvelhecimento serão os maiores motores econômicos do século 21”, defende o texto da Conferência sobre Aprimoramento Humano, ligada ao projeto.

O capital por trás da ideia também chama atenção. Em janeiro de 2024, os Enhanced Games anunciam o fim da rodada inicial de investimento, com nomes como Peter Thiel, cofundador do PayPal e primeiro investidor externo do Facebook. Em seguida, entra a 1789 Capital, empresa da qual Donald Trump Jr. é sócio. “Os Enhanced Games representam o futuro: competição real, liberdade real e recordes reais a serem quebrados”, afirma ele. Na mesma frase, encaixa o movimento MAGA, sigla do slogan de campanha do pai, Donald Trump: “excelência, inovação e a dominação norte-americana no palco mundial”.

Os organizadores vendem a imagem de atletas como “super-humanos”. Em fevereiro de 2024, o grego Kristian Gkolomeev, dopado sob protocolo desenvolvido pelos mesmos treinadores de César Cielo, nada os 50 m livre em 20s89, dois centésimos abaixo do recorde mundial de 20s91 do brasileiro. Ele está sozinho na piscina, usando um maiô tecnológico da era de 2009. A marca não entra nos livros oficiais, mas vira peça de marketing em um documentário intitulado “50 Metros para a História: o Primeiro Super-Humano”.

Pressão sobre atletas, alerta médico e reação olímpica

O experimento, porém, não é neutro. Médicos e dirigentes olímpicos enxergam nos Enhanced Games uma ruptura perigosa, que mistura risco biológico, pressão psicológica e um pacote de incentivos difícil de recusar. Em vez de combater o doping silencioso, temem que o projeto normalize a ideia de que, para competir de verdade, é preciso se dopar.

Pedro Guimarães Coscarelli, professor do Instituto de Educação Física e Desporto da Uerj e médico do Hospital Universitário Pedro Ernesto, lembra que a ciência já testou atalhos antiéticos outras vezes. “A experiência mostra que toda vez que alguém tentou burlar a ética, o interesse comum, tivemos problemas e não tivemos benefícios”, afirma. Ele cita experimentos secretos de governos durante o século 20, inclusive os realizados em regimes totalitários, como exemplos de risco extremo com ganho científico quase nulo.

Coscarelli destaca que é possível ter respostas rápidas, desde que se respeitem protocolos e comitês de ética. “Na Aids foi assim. Na covid, foi de maneira rápida, mas a metodologia experimental conseguiu traçar informações importantíssimas do vírus”, diz. No alto rendimento, o cenário é ainda mais delicado, porque pequenos ganhos de décimos ou centésimos se confundem com variáveis que a ciência não consegue controlar. “Mesmo que o resultado exista, você não consegue ver, porque tem muitas outras variáveis”, resume.

A preocupação maior recai sobre o corpo dos atletas. Flávia Magalhães, médica do esporte que atuou no controle de doping da Copa América de 2019 e da Rio-2016, lista efeitos que vão muito além do músculo hipertrofiado. “As consequências podem afetar praticamente todos os sistemas do corpo”, afirma. Depressão, ansiedade, agressividade e ideias suicidas aparecem em estudos sobre o uso prolongado de anabolizantes. Nos casos de drogas injetáveis, há risco adicional de infecções como HIV e hepatites, além de complicações locais.

Para ela, o fato de todos estarem dopados não torna a arena mais segura. “A ideia de que ‘todo mundo usa’ não torna a prática menos perigosa, ao contrário, aumenta a pressão psicológica e o risco coletivo”, diz. Flávia cobra também responsabilidade da organização em relação a emergências médicas previsíveis em um ambiente que estimula o uso de substâncias potentes: infarto, acidente vascular cerebral e morte súbita.

O cardiologista Silvio Gioppato, do HC da Unicamp, vai na mesma linha. “Não existe vantagem real ou duradoura no uso dessas drogas. O que se ganha em performance é temporário, mas o que se perde em saúde é permanente. A fatura é inevitável”, afirma. Na avaliação dele, os Enhanced Games oferecem ao público uma ilusão de evolução atlética que, sob exame clínico, se traduz em maior risco de AVC, insuficiência cardíaca e arritmias fatais.

Do lado olímpico, o incômodo é político e simbólico. Travis Tygart, CEO da agência antidoping dos Estados Unidos, chama o projeto de “circo perigoso” e alerta para o efeito cascata sobre jovens. “Embora os idealizadores dos Jogos Aprimorados possam estar buscando lucro rápido, esse lucro viria às custas de crianças ao redor do mundo que acreditam precisar se dopar para perseguir seus sonhos”, escreve em artigo.

Dirigentes de comitês olímpicos e confederações tratam o tema com constrangimento, mas, quando se manifestam, rejeitam a ideia. Marco La Porta, presidente do COB, afirma que a proposta está “totalmente fora” do que o movimento olímpico prega. Julio César Maglione, presidente do Comitê Olímpico do Uruguai, vai além: para ele, não se trata de esporte, mas de uma disputa sobre “quem se dopa mais ou quem se dopa menos”.

O que pode sair de Las Vegas depois do show

Os Enhanced Games chegam ao calendário sem reconhecimento oficial, mas com um ativo raro: atenção global e dinheiro disposto a comprar a quebra de recordes tradicionais. Mesmo que o evento se venda como uma liga paralela, seus efeitos não param em Las Vegas. Federações, patrocinadores e plataformas de streaming medem o apetite do público por esse espetáculo dopado, em um momento em que o consumo de substâncias de performance cresce nas academias.

A grande dúvida é como o movimento olímpico e as agências reguladoras vão reagir se o show de 2026 produzir imagens impactantes e números históricos, ainda que à margem das regras atuais. Uma resposta dura, com reforço de controles e campanhas educativas, pode fortalecer a defesa do jogo limpo. Uma reação tímida corre o risco de normalizar a lógica do “vale tudo” para quem estiver disposto a pagar o preço biológico.

O próprio mercado de saúde acompanha o desfecho de perto. Se a estratégia inspirada no Ozempic der retorno financeiro, cresce a chance de surgirem novas ligas com promessas semelhantes, misturando ciência, entretenimento e risco humano. A fronteira entre tratamento, aprimoramento e abuso tende a ficar ainda mais difusa.

Quando as luzes de Las Vegas se apagarem em 24 de maio de 2026, permanecerá uma questão que nenhum protocolo dos Enhanced Games responde por completo: até que ponto a sociedade está disposta a transformar o corpo dopado em modelo de sucesso e produto de consumo de massa.

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