Enamed expõe desigualdade na formação médica do Distrito Federal
O Ministério da Educação divulga, nesta segunda-feira (19/1/2026), as notas do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) para os cursos de medicina do Distrito Federal. Os resultados revelam um cenário de excelência em poucas instituições e de desempenho apenas intermediário na maior parte das faculdades, o que acende o alerta sobre a qualidade da formação dos futuros médicos na capital do país.
Capital médica em xeque
O Distrito Federal, vitrine da rede pública de saúde e polo de ensino superior, passa a enxergar com mais nitidez o que antes ficava diluído em avaliações gerais. O Enamed, criado pelo Ministério da Educação como exame específico para medir competências médicas, coloca os cursos sob um holofote inédito e oferece, em números, um retrato da sala de aula ao internato.
A Universidade do Distrito Federal (UnDF) surge no topo do ranking local e obtém o conceito máximo, 5. São 78 inscritos, todos presentes no dia da prova, com 75 concluintes considerados proficientes, o equivalente a 96,2% de aproveitamento. O desempenho coloca a instituição, ainda jovem, no grupo de elite da formação médica do país e pressiona concorrentes mais tradicionais.
A Universidade de Brasília (UnB), referência histórica no ensino superior, aparece na faixa seguinte. O curso recebe conceito 4. Dos 102 estudantes inscritos, 99 fazem a prova e 87 alcançam o nível de proficiência definido pelo MEC, um índice de 87,9%. O resultado consolida a qualidade da formação, mas deixa claro que ainda existe espaço para avanço em direção à nota máxima.
Entre as privadas, o Centro Universitário de Brasília (UniCEUB) também obtém conceito 4. A instituição leva 138 alunos ao exame, com 137 presentes e 111 com desempenho considerado adequado, o que representa 81% de aproveitamento. Na mesma faixa está a Universidade Católica de Brasília (UCB), com 98 inscritos, todos participantes, e 77 proficientes, um percentual de 78,6%.
No bloco intermediário, o cenário muda. O Centro Universitário Euro-Americano (Unieuro) recebe conceito 3, faixa que indica desempenho mediano. A instituição registra 94 inscritos, 92 presentes e 60 estudantes com nota dentro da proficiência, um índice de 65,2%. O Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos (Uniceplac) também fica no conceito 3, com 153 inscritos, todos presentes, e 92 proficientes, o equivalente a 60,1%.
Exame muda o peso da formação médica
O Enamed nasce como peça central de uma nova política de avaliação dos cursos de medicina, em meio à expansão acelerada de vagas e à preocupação com a qualidade da assistência. Diferentemente do Enade tradicional, que reúne carreiras variadas em um mesmo ciclo, o exame médico concentra a lupa nas competências específicas exigidas do profissional que sai da graduação direto para os plantões.
O exame atribui notas de 1 a 5. Os conceitos 1 e 2 são classificados pelo MEC como não proficientes, sinal amarelo para cursos em situação crítica. A partir de 3, o desempenho é considerado mínimo aceitável, ainda que intermediário. O Distrito Federal não registra notas nas faixas mais baixas, mas a distância entre o topo e o meio da tabela mostra uma formação desigual, mesmo em um território pequeno e altamente urbanizado.
A avaliação não vale apenas como ranking simbólico. A nota do Enamed passa a compor o conceito Enade dos cursos de medicina, indicador que influencia diretamente a regulação do ensino superior. Cursos com desempenho repetidamente insatisfatório podem ser alvo de supervisão, sofrer exigência de planos de melhoria e enfrentar restrições na abertura de novas vagas.
Dentro das faculdades, os números funcionam como espelho incômodo. Coordenadores e reitores ganham um parâmetro objetivo para revisar currículos, reforçar estágios, ampliar a presença em hospitais e reavaliar a formação prática em atenção básica, urgência e emergência. Estudantes, por sua vez, passam a olhar para o próprio diploma com outro filtro, comparando o desempenho da instituição com o de concorrentes diretos.
No plano nacional, o MEC aponta um dado que preocupa: cerca de um terço dos cursos de medicina do país não atinge o patamar de proficiência. Nesse contexto, o desempenho do DF, ainda que sem notas críticas, se insere em um quadro de alerta mais amplo. O país forma, todos os anos, milhares de novos médicos, e parte deles sai da universidade sem demonstrar domínio adequado de conhecimentos básicos.
Pressão por ajustes e disputa por excelência
Os resultados divulgados agora tendem a desencadear uma disputa silenciosa por excelência entre as faculdades de medicina do DF. Instituições bem avaliadas ganham argumento forte na disputa por alunos, professores e convênios com hospitais. As que ficam no meio da tabela precisam responder de forma rápida, sob risco de perder atratividade e enfrentar cobranças mais duras de órgãos reguladores.
Na prática, cursos com desempenho apenas intermediário terão de provar, nos próximos ciclos, que conseguem transformar o diagnóstico em ação. O MEC prevê medidas de supervisão para instituições com baixo rendimento, o que inclui a exigência de planos de reestruturação pedagógica, revisão de carga horária prática e até congelamento de vagas, caso não haja melhora consistente.
Para a população, a disputa por conceitos não é detalhe acadêmico. O desempenho no Enamed indica o nível de preparo de quem em poucos meses assume plantões de pronto-socorro, conduz partos, acompanha pacientes crônicos e integra equipes de atenção primária. Em um sistema de saúde pressionado por filas, falta de profissionais em áreas remotas e alta demanda nos hospitais públicos, a formação sólida deixa de ser diferencial e vira condição mínima de segurança.
As notas divulgadas em 19 de janeiro de 2026 também abrem uma frente de debate entre gestores públicos, conselhos profissionais e comunidades acadêmicas. Estados e municípios podem usar o ranking para planejar parcerias, distribuir vagas de residência médica e orientar programas de provimento de médicos em regiões carentes. Redes privadas de saúde já começam a olhar com atenção para os resultados como critério adicional em processos seletivos.
O Enamed ainda dá seus primeiros passos, mas já se firma como instrumento de pressão permanente sobre o ensino médico. A capital federal, que exibe uma instituição com excelência máxima e outras estacionadas na faixa intermediária, torna-se um laboratório visível dessa nova etapa de regulação. O próximo ciclo do exame dirá se os cursos vão apenas conviver com o retrato incômodo ou usá-lo como ponto de virada para a formação dos médicos que cuidarão da saúde do DF nas próximas décadas.
