Empresário condenado por morte da esposa é preso na Bahia após 24 anos
O empresário Sérgio Nahas é preso na Bahia em 17 de janeiro de 2026, após ser identificado por câmeras de reconhecimento facial. Ele é condenado pela morte da ex-mulher, Fernanda Orfali, assassinada em 2002 em São Paulo.
Prisão em destino de lua de mel e tecnologia na investigação
Nahas é localizado pela Polícia Civil da Bahia no mesmo destino turístico onde passou a lua de mel com Fernanda, meses antes do crime. As câmeras do sistema de reconhecimento facial do estado apontam o rosto do empresário, que é abordado e conduzido para uma delegacia. Com ele, policiais apreendem 13 pinos com substância que aparenta ser cocaína, três celulares e um veículo.
Depois da prisão, o empresário passa por audiência de custódia e segue para o sistema prisional baiano, onde começa a cumprir a pena em regime fechado. A captura encerra uma busca que se arrasta por mais de duas décadas e envolve a inclusão de seu nome na Difusão Vermelha da Interpol, lista que permite sua detenção em outros países. A localização em território baiano evita uma possível fuga ao exterior.
Crime em 2002, disputa judicial e revolta da família
Fernanda Orfali tem 28 anos quando morre, em maio de 2002, atingida por um tiro no peito após comunicar o fim do relacionamento com Nahas, em São Paulo. Laudos periciais e depoimentos reunidos ao longo da investigação apontam a autoria do empresário, e o Ministério Público sustenta a tese de homicídio qualificado, quando há circunstâncias que tornam o crime mais grave.
A defesa de Nahas afirma, desde o início, que Fernanda comete suicídio, versão rejeitada pela família da vítima. Os parentes contestam a narrativa e dizem, ao longo dos anos, que o discurso de suicídio reforça a violência sofrida por Fernanda e mascara um feminicídio que a legislação brasileira ainda não tipificava em 2002. Para eles, o poder econômico do empresário contribui para alongar os recursos e o tempo de tramitação do caso.
Depois de uma sequência de contestações da defesa, a condenação só ocorre 16 anos após o crime. Em júri popular, Nahas é considerado culpado por homicídio simples, sem as qualificadoras defendidas pelo Ministério Público. A sentença de primeira instância fixa sete anos de prisão em regime semiaberto, abaixo do que pedia a acusação e distante da expectativa da família de Fernanda.
O Ministério Público recorre e, em instância superior, consegue elevar a pena para oito anos e dois meses, agora em regime fechado. Em 2025, o Judiciário expede mandado de prisão contra o empresário, que passa a ser considerado foragido. Seu nome entra na Difusão Vermelha da Interpol, instrumento de cooperação internacional que amplia a vigilância sobre criminosos condenados.
Defesa fala em “grave injustiça” e critica o processo
Após a prisão na Bahia, a defesa de Nahas divulga nota em que afirma que o empresário já vive no estado “há alguns anos”, “muito antes de ser expedido o Mandado de Prisão”. Os advogados dizem que o cliente “não tinha qualquer interesse em descumprir as determinações da Justiça” e apontam sua idade avançada e “graves problemas de saúde” como fatores que deveriam ser considerados.
“Estamos diante de um dos casos de maior injustiça do nosso país”, afirma a defesa, que sustenta a inocência de Nahas e diz que há “muitas falhas no processo”. Os representantes do empresário alegam que existem pedidos em tramitação nas cortes superiores e que o recesso do Judiciário atrasa a análise desses recursos. Eles prometem acionar todas as medidas jurídicas cabíveis para tentar reverter a condenação e manter “um inocente” fora da prisão.
Do outro lado, familiares de Fernanda veem na prisão um alívio parcial. Eles criticam o tempo de 24 anos entre o crime e a captura e questionam penas consideradas brandas diante da gravidade do homicídio. A leitura da família é direta: sem os recursos financeiros do empresário, o caso não teria se arrastado por tanto tempo.
Demora da Justiça, uso de tecnologia e o que ainda pode mudar
A prisão de Nahas expõe a lentidão estrutural do sistema de Justiça brasileiro em casos de homicídio e violência de gênero. Entre o tiro que mata Fernanda, em 2002, e o mandado de prisão cumprido em 2026, o país passa por mudanças legais, como a Lei do Feminicídio, sancionada em 2015, e a ampliação de políticas de combate à violência contra a mulher. O caso, porém, permanece preso a uma lógica anterior, na qual a palavra da vítima morta disputa espaço com versões apresentadas por réus com maior poder econômico.
O avanço tecnológico contrasta com a morosidade processual. O mesmo Estado que leva 16 anos para consolidar uma condenação e mais três anos para efetivá-la localiza o condenado em segundos por meio de câmeras e algoritmos de reconhecimento facial. A ferramenta, celebrada pelas autoridades como símbolo de modernização, também levanta debates sobre privacidade e riscos de erro, inclusive com impacto desigual sobre grupos vulneráveis. No caso de Nahas, os dados oficiais indicam acerto na identificação e um desfecho que atende, ainda que tardiamente, a expectativa da família da vítima.
A prisão na Bahia reforça o recado de que mandados antigos podem ser cumpridos com apoio de redes internacionais, como a Interpol, e de sistemas integrados de captura de imagens. Também pressiona o Judiciário a responder mais rapidamente em processos que envolvem violência contra mulheres, sob pena de transformar sentenças em decisões simbólicas, distantes da data do crime e do clamor social.
Os próximos capítulos dependem dos recursos que a defesa ainda tenta nas cortes superiores. Caso os tribunais mantenham a condenação, Nahas deve seguir em regime fechado pelo restante da pena de oito anos e dois meses, já sujeita a eventuais remissões e progressões previstas em lei. Se alguma instância acolher os argumentos de nulidades e falhas processuais, o caso pode voltar ao plenário do júri ou até reabrir discussões sobre sua responsabilidade.
Enquanto os recursos avançam em Brasília, a família de Fernanda acompanha à distância mais uma etapa de um processo que atravessa duas décadas, mudanças legais e tecnologias inéditas. A pergunta que fica, para parentes e para especialistas em Justiça criminal, é se o sistema será capaz de, no futuro, entregar respostas rápidas o suficiente para que condenações por crimes graves não cheguem apenas quando a vida das vítimas já virou estatística histórica.
