Empresário condenado por matar a esposa em 2002 é preso na Bahia
O empresário Sérgio Nahas é preso no último sábado (17), na Praia do Forte, na Bahia, após ser reconhecido por câmeras de monitoramento. Ele é condenado pelo homicídio simples da esposa, Fernanda Orfali, morta em 2002, em São Paulo.
Captura em ponto turístico 24 anos após o crime
Nahas caminha em uma área movimentada de Praia do Forte, um dos destinos mais procurados do litoral baiano, quando o sistema de reconhecimento facial emite o alerta. Policiais são acionados, fazem a abordagem e confirmam ali, em plena temporada de verão, que o homem detido é o empresário condenado por matar a mulher com um tiro no peito, 24 anos antes.
A cena ocorre no mesmo vilarejo onde o casal havia passado a lua de mel, meses antes do crime. O contraste entre o turismo e a captura reforça o simbolismo da prisão de um réu que passa mais de duas décadas em liberdade enquanto a família da vítima espera por uma resposta definitiva da Justiça.
Segundo a Polícia Civil da Bahia, após a identificação pelas câmeras, Nahas é levado para uma delegacia da região e passa por audiência de custódia. A Justiça decide manter a prisão, e ele é encaminhado ao sistema prisional baiano para cumprir a pena de oito anos e dois meses de reclusão em regime fechado.
De tiro no peito a condenação após 16 anos
Fernanda Orfali, então com 28 anos, morre em maio de 2002, em São Paulo. Ela leva um tiro no peito após comunicar ao marido que quer o fim do relacionamento. Investigações apontam que o casal vive uma escalada de brigas. Amigos e familiares relatam que Fernanda confronta o empresário sobre o uso intenso de cocaína e sobre um relacionamento extraconjugal com uma travesti.
As perícias realizadas ao longo do inquérito indicam, de forma consistente, a autoria do crime por parte de Nahas. O Ministério Público defende a tese de homicídio qualificado, que poderia levar a uma pena mais alta, com reconhecimento de circunstâncias agravantes. A defesa sustenta a versão de suicídio e afirma que Fernanda teria disparado contra o próprio peito, linha que causa revolta entre parentes da jovem até hoje.
O caso se arrasta nos tribunais por anos, com sucessivos recursos, pedidos de nulidade e questionamentos sobre laudos e depoimentos. A condenação só ocorre em 2018, 16 anos após o assassinato. Em júri popular, Nahas é condenado por homicídio simples, sem qualificadoras, decisão que reduz o tempo de reclusão. A sentença em primeira instância fixa sete anos de prisão em regime semiaberto.
O Ministério Público recorre e, em instância superior, a pena sobe para oito anos e dois meses, com mudança para regime fechado. Mesmo com a decisão agravada, a prisão efetiva não se concretiza de imediato. O processo segue trâmites, novos pedidos são analisados e o empresário permanece foragido.
Justiça lenta, poder econômico e caçada internacional
O tempo entre o crime e a prisão, de quase 24 anos, alimenta críticas à lentidão do sistema de Justiça brasileiro. Familiares de Fernanda afirmam que o poder econômico de Nahas ajuda a alongar o trâmite processual. Segundo eles, a possibilidade de contratar bancas de defesa especializadas, protocolar sucessivos recursos e questionar etapas do processo cria um abismo entre réus ricos e pobres.
Em 2025, um mandado de prisão é expedido contra o empresário. O nome de Nahas entra na lista de Difusão Vermelha da Interpol, mecanismo que permite que ele seja localizado e preso em outros países. A medida indica que, para as autoridades, há risco concreto de fuga internacional e reforça o caráter de caçada a um condenado por crime de violência doméstica.
O caso volta ao debate público em meio a números crescentes de violência contra mulheres. Dados de 2025 apontam recorde de feminicídios no país, com, em média, quatro mulheres mortas por dia. Apesar de o crime de 2002 ser classificado como homicídio simples, os elementos de controle, ciúme e reação ao pedido de separação aproximam a morte de Fernanda do padrão de agressões letais praticadas contra parceiras íntimas.
A controvérsia sobre a tese de suicídio também expõe disputas comuns em julgamentos dessa natureza. De um lado, laudos e perícias que reforçam a hipótese de assassinato; de outro, estratégias de defesa que tentam descaracterizar o crime ou atribuir responsabilidade à própria vítima. Para a família, a insistência nessa versão transforma o luto em uma disputa permanente por memória e dignidade.
Tecnologia, cobrança por responsabilização e próximos passos
A identificação de Nahas pelas câmeras de reconhecimento facial, em Praia do Forte, mostra como tecnologias de vigilância passam a ocupar um papel central na captura de foragidos. Estados usam bancos de dados integrados com mandados de prisão ativos e listas internacionais, como a Difusão Vermelha, para cruzar imagens em tempo real com rostos de procurados.
Especialistas em segurança pública ponderam que esses sistemas ampliam a chance de prisões em locais de grande circulação, mas também exigem regras rígidas sobre privacidade, armazenamento de dados e margem de erro. No caso de Nahas, o cruzamento de informações leva à confirmação da identidade e resulta na prisão sem resistência, segundo a polícia.
Para a família de Fernanda, a captura representa um alívio parcial, mais de duas décadas após o crime. Eles ainda contestam a pena aplicada e a demora para a condenação definitiva. A percepção é de que a Justiça tarda, mas nem sempre alcança, na mesma medida, réus com altos recursos financeiros e mulheres vítimas de violência doméstica.
A defesa de Sérgio Nahas ainda não se manifesta sobre a prisão. Há expectativa de novos recursos, pedidos de revisão e tentativas de progressão de regime ao longo do cumprimento da pena. O caso deve continuar como referência em debates sobre justiça tardia, desigualdade de acesso ao sistema judicial e uso de tecnologia na busca por foragidos. A pergunta que permanece é se essa combinação será capaz de reduzir o intervalo entre o crime, a condenação e, de fato, a responsabilização de quem mata mulheres no país.
