Embraer vê avanço nas vendas do caça Gripen e mira Colômbia
O CEO da Embraer, Francisco Gomes Neto, afirma nesta quarta-feira (25.mar.2026) estar otimista com as vendas do caça supersônico F-39E Gripen e cita a Colômbia como potencial compradora. A sinalização reforça a estratégia da fabricante brasileira de ampliar a presença no mercado de defesa e transformar o programa em vitrine tecnológica para novos contratos internacionais.
Brasil quer transformar Gripen em passaporte para novos mercados
O otimismo do executivo se apoia no avanço da produção do F-39E Gripen em território brasileiro e na leitura de que o cenário de segurança global abre espaço para aeronaves de combate de menor custo operacional. O modelo, fruto de parceria com a sueca Saab, passa a ser montado e integrado em fábricas no interior de São Paulo, em linha com o contrato de 36 aeronaves assinado pela Força Aérea Brasileira em 2014, estimado em cerca de US$ 4,5 bilhões.
Francisco Gomes Neto trata o Gripen como eixo central da ambição brasileira de subir de patamar na cadeia aeroespacial. Ao mencionar a Colômbia como possível cliente, ele indica que a Embraer mira países da América Latina que precisam renovar frotas envelhecidas e não dispõem de orçamento para caças de alto custo. “Vemos espaço concreto para ampliar as exportações do Gripen na região, e a Colômbia está entre os mercados que acompanhamos com mais atenção”, afirma o executivo, segundo interlocutores da empresa.
A Colômbia discute há anos a substituição de seus caças Kfir, em operação desde a década de 1980. Orçamentos restritos, prioridades internas e mudanças de governo adiam decisões, mas militares colombianos estimam que a frota atual consome mais recursos em manutenção do que em ganho efetivo de capacidade. Nesse contexto, o Gripen, com promessa de custo por hora de voo inferior ao de concorrentes como Rafale e Eurofighter, surge como alternativa considerada viável em Bogotá.
Do lado brasileiro, o programa já mobiliza centenas de engenheiros e técnicos em Gavião Peixoto e São Bernardo do Campo, além de uma cadeia de fornecedores espalhada por ao menos sete Estados. A Embraer não divulga números detalhados, mas fontes do setor calculam que o projeto, somando desenvolvimento, manufatura e suporte, gere diretamente mais de 3 mil empregos qualificados e sustente outros milhares de postos indiretos na indústria de componentes.
Indústria nacional ganha peso em defesa e exportação tecnológica
O avanço das tratativas para exportar o Gripen tem efeito que vai além das encomendas da Força Aérea Brasileira, que prevê receber todas as 36 aeronaves até 2027. Cada novo contrato externo prolonga a linha de produção, dilui custos de desenvolvimento e fortalece o argumento de que o Brasil pode operar na mesma liga de potências tradicionais em defesa. “Um portfólio robusto em produtos de alta complexidade é determinante para a competitividade do país no longo prazo”, costuma dizer Gomes Neto em encontros com investidores.
O movimento interessa diretamente a uma Embraer que busca diversificar receitas após a frustração da joint venture com a Boeing, encerrada em 2020. A área de defesa e segurança, que hoje responde por algo em torno de 15% a 20% do faturamento anual da companhia, torna-se pilar estratégico ao lado da aviação comercial e executiva. Em 2025, a empresa registrou receita líquida próxima de US$ 5 bilhões, e analistas projetam que contratos militares internacionais possam acrescentar até US$ 500 milhões por ano à medida que novos acordos forem fechados.
O Gripen também opera como laboratório de formação de mão de obra e transferência de tecnologia. A parceria com a Saab prevê que mais de 60% do conteúdo agregado às aeronaves destinadas ao Brasil seja produzido localmente ao longo do programa, incluindo sistemas de missão, aviônicos e estruturas críticas. A Embraer passa a dominar etapas de projeto de software de combate, integração de sensores e testes em voo, competências que podem ser reaproveitadas em futuros projetos civis e militares.
Especialistas em defesa apontam que a exportação de um caça não se resume à venda de um equipamento, mas a contratos de suporte, treinamento e atualização que se estendem por décadas. Um acordo com a Colômbia, ainda que limitado inicialmente a uma dúzia de aeronaves, poderia gerar receitas recorrentes até a metade do século, ao mesmo tempo em que aprofunda laços políticos e militares entre os dois países. No médio prazo, isso amplia o peso do Brasil em corredores diplomáticos que vão da Organização das Nações Unidas a fóruns regionais como a Celac.
Nem todos os desdobramentos, porém, são positivos ou consensuais. Organizações da sociedade civil cobram mais transparência nos termos de compensações industriais, nas cláusulas de transferência de tecnologia e na avaliação de impacto orçamentário dos programas militares. O Gripen, lembram analistas, é um investimento de longo prazo, com pagamentos escalonados por mais de 15 anos, que disputam espaço com gastos em saúde, educação e infraestrutura.
Próximos contratos testam ambição brasileira em defesa
As próximas decisões sobre o Gripen funcionarão como termômetro da ambição brasileira no setor de defesa. A Força Aérea já discute internamente um segundo lote de aeronaves, que poderia elevar a frota para algo entre 60 e 70 caças nos anos 2030. Um acerto desse porte serviria de endosso adicional na mesa de negociação com países interessados, entre eles a própria Colômbia e nações da África e da Ásia que buscam parceiros fora do eixo Estados Unidos–Europa.
No campo diplomático, uma eventual venda para Bogotá tende a exigir costura cuidadosa. A Colômbia é aliada tradicional de Washington e também avalia ofertas de outros fornecedores, o que obriga o Brasil a combinar competitividade comercial com alinhamento regulatório em temas sensíveis, como transferência de armamentos e uso de tecnologia embarcada. Ao mesmo tempo, a disputa por contratos reforça a percepção de que o tabuleiro geopolítico da América Latina está em reconfiguração, com o Brasil tentando ocupar espaço como exportador de tecnologia de defesa, não apenas de commodities.
A trajetória do Gripen nos próximos anos vai indicar se o programa se consolida como plataforma industrial de longo prazo ou se permanece restrito a um ciclo único de encomendas. O otimismo de Francisco Gomes Neto, traduzido na aposta em novos mercados e na Colômbia como cliente em potencial, agora depende da capacidade de o país transformar discurso em contratos assinados, empregos sustentados e influência duradoura em uma indústria que, mais do que qualquer outra, mede poder e relevância no século 21.
