Embraer mira exportar caça F-39E Gripen e cita Colômbia como prioridade
O presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, afirma nesta quarta-feira (25.mar.2026) estar otimista com a venda do caça supersônico F-39E Gripen para o mercado externo. A Colômbia aparece como o principal alvo da estratégia, em meio à disputa global por contratos bilionários de defesa.
Brasil tenta transformar vitrine tecnológica em negócio
O F-39E Gripen consolida a entrada do Brasil em um grupo restrito de países capazes de produzir caças de última geração. O modelo, fabricado em parceria com a sueca Saab, começa a sair em série das linhas de montagem em Gavião Peixoto (SP) e já é tratado pelo governo como o principal cartão de visitas da indústria de defesa nacional.
Com o cronograma de entregas à Força Aérea Brasileira em curso, a Embraer volta as atenções para o mercado externo, estimado em dezenas de bilhões de dólares na próxima década. A Colômbia surge como uma das oportunidades mais imediatas. O país sul-americano discute a renovação de sua frota de combate desde 2023 e avalia substituir aeronaves com mais de 40 anos de uso.
O interesse colombiano em caças de nova geração abre espaço para a Embraer testar, pela primeira vez em larga escala, sua capacidade de exportar um sistema de armas complexo. A empresa já lidera o mercado mundial de jatos regionais de até 150 passageiros, mas ainda busca ganhar musculatura no segmento militar de alto valor agregado.
Otimismo na Embraer e disputa por contratos na região
Gomes Neto tem usado encontros com investidores e autoridades para defender que o Gripen pode se tornar um dos pilares da receita da divisão de defesa. A companhia não divulga valores de negociações em andamento, mas analistas estimam que um pacote de 12 a 16 aeronaves possa superar US$ 1,5 bilhão, somando treinamento, armamentos e suporte logístico por vários anos.
O comando da Embraer aposta na combinação de tecnologia embarcada, custo operacional menor e possibilidade de transferência de conhecimento como diferencial em relação a concorrentes europeus e norte-americanos. Em declarações recentes, Gomes Neto diz ver um “ambiente favorável” para o Gripen na América Latina e cita a Colômbia como “mercado estratégico” para a empresa.
A negociação, se avançar, reforça a posição do Brasil como fornecedor de sistemas de defesa para vizinhos sul-americanos. O país já exporta o cargueiro militar KC-390, também da Embraer, e radares desenvolvidos em parceria com o Exército. A venda do caça supersônico levaria esse movimento a outro patamar, com contratos de maior valor e exigência tecnológica mais alta.
O interesse estrangeiro no Gripen ganha relevância em um momento de retomada do setor aeroespacial brasileiro. Após a frustração com o fim do acordo de fusão com a Boeing em 2020 e a crise provocada pela pandemia, a Embraer volta a registrar carteira de pedidos em crescimento e receita em alta de dois dígitos ao ano na área de defesa.
Impacto econômico e avanço tecnológico para o Brasil
Uma eventual venda do Gripen para a Colômbia movimenta uma cadeia produtiva que envolve dezenas de empresas nacionais. Parte significativa da estrutura do caça é produzida no Brasil, incluindo asas, fuselagem e sistemas eletrônicos. Cada novo contrato internacional gera anos de trabalho em engenharia, manufatura, manutenção e atualização de software.
Economistas do setor estimam que exportações de caças possam representar receitas adicionais de centenas de milhões de dólares por ano para a Embraer e seus fornecedores. A empresa emprega diretamente mais de 18 mil pessoas no país e, segundo estudos internos, cada vaga na montadora de aeronaves sustenta até três postos de trabalho indiretos na cadeia de suprimentos.
O efeito transborda para além dos números. A consolidação do Gripen como produto de exportação aproxima universidades, centros de pesquisa e Forças Armadas em projetos de alta complexidade, da aerodinâmica à inteligência artificial de sistemas de missão. A experiência acumulada tende a irradiar para outras áreas da economia, como tecnologia da informação, materiais compostos e eletrônica embarcada.
No campo geopolítico, o Brasil fortalece sua posição como fornecedor confiável de tecnologia militar para a região. A assinatura de um contrato com a Colômbia exigiria acordos de cooperação em defesa, mecanismos de transferência de tecnologia e compromissos de longo prazo em treinamento e suporte, ampliando a influência brasileira em temas sensíveis de segurança.
Próximos passos e disputas no horizonte
O calendário de decisões em Bogotá será decisivo para a Embraer. O governo colombiano pretende definir a nova frota de combate até o fim de 2026, segundo declarações de autoridades locais. O Gripen disputa espaço com aeronaves de fabricantes dos Estados Unidos e da Europa, em uma corrida que envolve não apenas preço e capacidade técnica, mas também alinhamentos políticos e diplomáticos.
No Brasil, a Embraer trabalha para ampliar a capacidade produtiva do caça e garantir que eventuais exportações não afetem o cronograma de entregas à Força Aérea, previsto até o início da próxima década. A aposta é que a carteira combinada de pedidos nacionais e internacionais sustente investimentos em inovação e mantenha o programa vivo por pelo menos 20 anos.
A confirmação de um acordo com a Colômbia teria efeito imediato sobre a percepção do Brasil no mercado global de armamentos, ainda dominado por grandes potências. A dúvida, agora, é se o país conseguirá converter a vitrine tecnológica do Gripen em contratos firmes antes que concorrentes avancem sobre os mesmos clientes na América Latina.
