Em meio a bombardeios, Irã lota ruas de Teerã no Dia de Al Quds
Milhares de iranianos tomam as ruas de Teerã nesta sexta-feira (13) para apoiar o regime e a causa palestina, mesmo sob bombardeios de EUA e Israel. A data marca o Dia de Al Quds, criado para protestar contra a ocupação de Jerusalém e virou palco de um recado de resistência do país ao Ocidente.
Protesto em clima de guerra e culto ao regime
O centro da capital iraniana amanhece coberto por bandeiras do país, cartazes com o rosto dos aiatolás e retratos de líderes da Guarda Revolucionária. Em meio a sirenes ocasionais e relatos de ataques aéreos, manifestantes queimam bandeiras de Israel, erguem faixas contra os Estados Unidos e entoam palavras de ordem em defesa da Palestina.
Os atos ocorrem enquanto bombardeios americanos e israelenses continuam a atingir alvos no Irã, matando ao menos uma pessoa nas últimas horas, segundo autoridades locais. Carros blindados, policiais armados e membros das forças de segurança controlam os acessos às principais praças, onde autoridades de alto escalão do regime dos aiatolás fazem discursos.
Em um dos palanques, o chefe do Poder Judiciário, Gholam-Hossein Mohseni-Ejei, ecoa o tom oficial de desafio. Ele declara que o povo iraniano “não teme” os ataques estrangeiros e afirma que o país não vai recuar “de jeito nenhum”. A multidão responde com gritos contra Washington e Tel Aviv.
Entre os manifestantes, a retórica se repete, com linguagem ainda mais direta. “Nós todos viemos, mesmo com todas essas ameaças, para entregar um soco firme na boca dos EUA, de Israel e da arrogância global. E para dizer que nós sempre vamos estar ao lado do Islã e do nosso líder querido”, diz Zeynabsadat Hosseini, moradora de Teerã.
Outro manifestante, que prefere não se identificar, resume o clima de fé e confronto. “Minha crença, 100%, e de todo o povo do Irã, é que nós somos vitoriosos. O exército do Islã é vitorioso”, afirma à agência Reuters.
Ausência de Mojtaba Khamenei e disputa pela narrativa
No alto dos prédios, bandeiras palestinas se misturam às iranianas, mas um rosto esperado não aparece nas ruas. O novo líder supremo, aiatolá Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, não participa das cerimônias públicas. A ausência alimenta rumores num momento em que a guerra pressiona o regime por respostas.
Serviços de inteligência dos Estados Unidos e de Israel afirmam que Mojtaba está ferido, com fratura no pé e o rosto “deformado”. Washington diz ainda que ele estaria fora da vista pública, em fuga. “Ele soltou um pronunciamento ontem — um fraco, na verdade. Mas não tinha voz nem vídeo. Era um pronunciamento escrito. O Irã tem muitas câmeras e muitos gravadores de voz. Por que um comunicado escrito?”, provoca o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth.
O governo Trump aposta nessa narrativa de fragilidade do comando iraniano enquanto intensifica a pressão. O Departamento de Estado passa a oferecer US$ 10 milhões (cerca de R$ 50 milhões) por informações que levem à captura de líderes iranianos, incluindo Mojtaba Khamenei. A medida se soma à estratégia militar e econômica para isolar o país.
Dentro do Irã, a ausência do líder supremo contrasta com a presença maciça de figuras do alto escalão do regime, cercadas por seguranças, em praças tomadas por câmeras de TV estatais. O poder busca mostrar normalidade e controle, ainda que a guerra traga incertezas ao cotidiano da população e à própria estabilidade do sistema político.
O Dia de Al Quds, instituído após a Revolução Islâmica de 1979, sempre funciona como vitrine de alinhamento interno e desafio externo. Neste ano, porém, a data ganha um peso diferente. O conflito direto com EUA e Israel, que já deixa mais de 2 mil mortos no Irã desde o início dos ataques, transforma a celebração em ato de resistência sob fogo real.
Ormuz sob tensão e petróleo em disparada
Enquanto Teerã lota as ruas, a disputa se desloca também para o mar. A administração Trump anuncia que uma escolta da Marinha dos EUA no Estreito de Ormuz “acontecerá em breve”. A região concentra parte vital do comércio global de petróleo e se torna mais uma frente da crise.
Autoridades americanas afirmam que o Irã ataca mais de dez embarcações desde o início da guerra. O resultado é visível nas telas dos mercados financeiros: o barril de petróleo fecha esta sexta-feira acima de US$ 103, maior valor desde junho de 2022. Operadores relatam volatilidade intensa, com variações diárias de vários dólares em poucas horas.
Hegseth tenta minimizar o impacto da escalada militar sobre a navegação. “A única coisa proibindo a passagem no Estreito agora é o Irã atirando em embarcações. Está aberto para o trânsito caso o Irã não faça isso”, diz, em entrevista coletiva. O discurso mira sobretudo os aliados, preocupados com a combinação entre conflito prolongado e inflação energética.
Teerã, por sua vez, sinaliza que pode liberar a passagem de um número limitado de petroleiros, desde que as operações sejam feitas em yuan, a moeda chinesa. A condição reforça a aproximação com Pequim e expõe mais uma fissura na ordem financeira liderada pelo dólar. Em meio à pressão, o Irã tenta usar o estreito como alavanca geopolítica e fonte de sobrevivência econômica.
Em Washington, a Casa Branca e o Pentágono são acusados por analistas de terem subestimado a disposição iraniana de bloquear Ormuz e o efeito disso sobre preços e inflação. A CNN relata essa avaliação nos bastidores; o governo nega, mas corre para buscar alternativas que aliviem o choque nos combustíveis.
Pressão sobre sanções, Europa em alerta e próximos passos
No esforço para segurar o preço do barril, o Departamento do Tesouro dos EUA decide afrouxar, ainda que de forma limitada, as sanções ao petróleo russo. Países passam a poder comprar o combustível de Moscou por um mês, desde que a carga já esteja em navios até a madrugada desta sexta-feira.
A manobra abre uma brecha temporária nas restrições impostas após a invasão da Ucrânia em 2022 e causa desconforto na Europa. Líderes europeus temem que a flexibilização fortaleça a máquina de guerra do presidente Vladimir Putin, que depende das exportações de energia para financiar o conflito.
Da França, Emmanuel Macron envia um recado direto a Washington. “Para os europeus e para a França, as sanções devem ser mantidas, e a situação atual não justifica, de jeito nenhum, reduzi-las”, afirma, ao lado do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Em Berlim, o primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, é ainda mais duro. “Quero deixar isso bem claro: aliviar as sanções agora, por qualquer razão, é algo que acreditamos ser errado”, diz.
A guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel passa a reorganizar não só o tabuleiro do Oriente Médio, mas também o debate sobre segurança energética e alianças no Ocidente. Ao apoiar a Palestina em um momento de confronto direto com Washington, Teerã reforça o discurso de resistência que sustenta o regime desde 1979. Mas a combinação de bombardeios, sanções, bloqueio parcial de Ormuz e alta do petróleo pressiona a economia global e amplia o custo político para todos os envolvidos.
O próximo movimento deve ocorrer no mar, com a entrada de escoltas navais americanas em uma rota já marcada por ataques e ameaças. Diplomatas em capitais europeias e asiáticas acompanham o humor dos mercados e temem um novo salto nos preços se a crise se prolongar por semanas. Nas ruas de Teerã, o regime aposta que as imagens deste 13 de março ajudam a mostrar união interna; resta saber por quanto tempo a população suportará o peso de uma guerra que agora se trava, ao mesmo tempo, no céu, no estreito de Ormuz e nas bombas de combustível ao redor do mundo.
