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Em Maceió, Lula liga fome a golpe de R$ 40 bi do banco Master

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusa, nesta sexta-feira (23), em Maceió, um golpe financeiro de R$ 40 bilhões ligado ao banco Master de aprofundar a desigualdade no país. Em discurso durante entrega de moradias do Minha Casa, Minha Vida, ele cobra responsabilização de grandes empresários e defende que o pobre pare de pagar a conta de desfalques bilionários.

Lula conecta fome, dívida social e sistema financeiro

O palco é a celebração de 2 milhões de moradias contratadas pelo Minha Casa, Minha Vida e a entrega de 1.337 unidades habitacionais na capital alagoana. Diante de famílias que recebem a chave da primeira casa, Lula desloca o foco da cerimônia para o abismo social brasileiro e aponta o sistema financeiro como um dos símbolos desse desequilíbrio.

O presidente retoma a linha do tempo da fome no país para sustentar o argumento. Ele lembra que, em 2014, a Organização das Nações Unidas retira o Brasil do mapa da fome. Em 2023, quando volta ao Palácio do Planalto, encontra 33 milhões de brasileiros sem ter o que comer. “Em 2014 tínhamos acabado com a fome nesse país. Quando voltei, em 2023, tinham 33 milhões de pessoas passando fome”, afirma.

Lula diz que a prioridade do governo é devolver o mínimo de dignidade a essa população. Credita aos programas sociais, à política de valorização do salário mínimo e à retomada de investimentos públicos o que chama de nova virada. “Nós, em dois anos e meio, acabamos com a fome outra vez, porque comer é um direito sagrado, que está na Bíblia, na Constituição, e nós temos que garantir”, declara, em tom de compromisso.

O presidente insiste que justiça social não se resume a programas de transferência de renda. Defende uma mudança na forma como o país lida com grandes escândalos financeiros. “Vocês vão ser tratados com a decência que um ser humano tem que ser tratado”, promete, antes de mirar a crítica nas distorções do sistema.

Golpe de R$ 40 bi vira símbolo de desigualdade

É nesse ponto do discurso que Lula cita diretamente o caso do banco Master e de seu controlador, Daniel Vorcaro. A investigação sobre um rombo estimado em R$ 40 bilhões se torna, ali, exemplo da engrenagem que, segundo ele, protege grandes responsáveis por prejuízos enquanto socializa as perdas. “Não é possível que a gente continue vendo o pobre ser sacrificado enquanto tem um cidadão do banco Master que deu um golpe de mais de R$ 40 bilhões”, dispara.

O presidente afirma que, quando operações desse porte desmoronam, o custo não fica com quem lucra nas fases de expansão. Ele diz que a conta recai sobre o sistema como um todo, incluindo bancos públicos que lidam diariamente com pequenas correntistas e beneficiários de programas sociais. “E quem vai pagar são os bancos, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, o Itaú”, lista.

Lula critica a reação de parte do meio político e empresarial ao caso. Para ele, a tentativa de blindar figuras centrais de escândalos financeiros reforça a sensação de impunidade. “Um cidadão que deu um desfalque de R$ 40 bilhões nesse país, e tem gente que defende”, afirma, visivelmente irritado. Na sequência, endurece o tom: “Porque também está cheio de gente que falta vergonha na cara nesse país.”

Ao aproximar o drama da fome e o golpe bilionário, o presidente busca desenhar uma cadeia de responsabilidades. A mensagem é que o dinheiro que falta para políticas de moradia, saúde e educação sobra em esquemas sofisticados de fraude e má gestão. Sua crítica atinge, ao mesmo tempo, quem opera essas estruturas e quem, no topo do Estado e do mercado, tenta suavizar a gravidade dos fatos.

Especialistas em finanças públicas ouvidos ao longo dos últimos anos apontam que grandes rombos no sistema bancário acabam, direta ou indiretamente, conectados ao bolso do contribuinte. Seja por meio de garantias, seja por resgates cruzados, o efeito recai sobre a capacidade do Estado de investir e sobre o crédito disponível para famílias e pequenas empresas. O que Lula faz, em Maceió, é transformar essa discussão técnica em narrativa política diante de um público que sente a desigualdade na rotina.

Pressão por punição e disputa de narrativa

As declarações em Alagoas tendem a intensificar o debate sobre responsabilização por crimes financeiros de grande escala. Ao citar nome e valor em um evento oficial, o presidente envia recado direto a órgãos de controle, ao Banco Central e ao Ministério Público, cobrando investigação célere e punição efetiva. Também pressiona o próprio sistema bancário a se posicionar de forma mais clara sobre práticas de risco e mecanismos de supervisão.

O discurso ocorre num momento em que o governo tenta consolidar a imagem de que o país volta a crescer puxado pelo consumo popular, pela geração de empregos e pela expansão de programas sociais. Ao mesmo tempo, enfrenta resistência de setores do mercado financeiro a pautas como tributação de super-ricos e revisão de benefícios fiscais. Ao relacionar fome, desigualdade e golpe de R$ 40 bilhões, Lula reforça a narrativa de que não há espaço para conciliação quando grandes fortunas se constroem à custa de prejuízos coletivos.

Os desdobramentos práticos passam por investigações que já correm em sigilo e por eventuais ações civis e penais contra responsáveis por fraudes e má gestão. Caso a pressão política se mantenha, aumenta a chance de mudanças regulatórias para endurecer a fiscalização sobre bancos médios, operações de crédito estruturado e o uso de garantias públicas como travesseiro para apostas arriscadas.

No campo social, o governo tenta converter a indignação em apoio a medidas de redistribuição de renda e de fortalecimento de programas como Minha Casa, Minha Vida. Famílias que hoje recebem a chave de um apartamento em Maceió se tornam vitrine de uma disputa mais ampla, que passa pelos orçamentos da União, pelos balanços dos bancos e pelo humor do Congresso.

Ainda não está claro até onde irão as investigações sobre o caso Master e qual será o alcance da responsabilização de Daniel Vorcaro e demais envolvidos. A fala de Lula, porém, eleva o custo político da inércia e obriga autoridades e instituições a responderem. O próximo capítulo dirá se o país consegue transformar a indignação com um desfalque de R$ 40 bilhões em mudanças concretas ou se o episódio entrará para a longa galeria de escândalos sem punição proporcional ao dano causado.

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