Em discurso do Estado da União, Trump pressiona Senado por lei que endurece regras de voto
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usa o discurso do Estado da União nesta terça-feira (24) para pressionar o Senado a aprovar a Lei Salve a América, que endurece regras de registro e identificação de eleitores. A proposta, já aprovada na Câmara, enfrenta forte resistência democrata e pode redefinir quem consegue votar nas próximas eleições de meio de mandato.
Trump reforça discurso de fraude e mira eleições de novembro
No plenário lotado do Capitólio, em Washington, Trump volta a colocar o sistema eleitoral no centro de sua mensagem política. Diante de parlamentares e de uma audiência de milhões de americanos pela TV, ele insiste em alegações de fraudes generalizadas, repetidas desde 2020 e rebatidas por tribunais, auditorias estaduais e por seu próprio Departamento de Justiça. “Eles querem trapacear”, afirma sobre os democratas. “Eles trapacearam. E a política deles é tão ruim que a única forma de vencer é trapaceando.”
O alvo imediato é o Senado, onde o SAVE America Act, como é conhecido em inglês, está travado. O texto passou neste mês pela Câmara em votação praticamente alinhada por partido, com republicanos a favor e democratas contra. No Senado, a oposição democrata ameaça usar integralmente a obstrução regimental, que exige ao menos 60 votos para encerrar o debate e levar o projeto à aprovação final, em um ambiente em que os republicanos contam hoje com margem estreita.
O relógio eleitoral aumenta a pressão. Faltam poucos meses para as eleições de meio de mandato, marcadas para novembro de 2026, quando estarão em disputa os 435 assentos da Câmara e um terço do Senado, além de governos estaduais-chave. Pesquisas internas apontam risco de perdas relevantes para o Partido Republicano em estados competitivos, o que eleva o apetite da sigla por mudanças nas regras antes da votação.
Trump tenta transformar a Lei Salve a América em linha divisória para a base conservadora. Em sua fala, o presidente exige que senadores republicanos tratem o projeto como prioridade absoluta. “Precisamos parar isso, John”, diz, dirigindo-se ao líder da maioria no Senado, John Thune. Segundo ele, o texto deveria ser votado “antes de qualquer outra coisa”. Aliados interpretam a frase como recado público ao próprio partido: ou se aprova a lei, ou se paga o preço nas urnas com uma base desmobilizada.
O que muda com a Lei Salve a América e quem pode ser afetado
A proposta torna mais rígida a entrada no cadastro de eleitores. O texto exige prova formal de cidadania, como certidão de nascimento ou passaporte, no momento do registro, medida que vai além das regras atuais em muitos estados. Cria ainda uma exigência nacional de documento oficial com foto para votar, substituindo o mosaico de normas estaduais, e autoriza o Departamento de Segurança Interna a acessar os cadastros eleitorais para identificar possíveis não cidadãos registrados.
Organizações de direitos civis e democratas afirmam que o pacote pode excluir milhões de eleitores elegíveis. Apontam em especial o impacto sobre mulheres cujas certidões e passaportes não refletem o nome de casadas, sobre imigrantes com residência legal, idosos sem documentos atualizados e trabalhadores com pouco acesso a cartórios e repartições públicas. Segundo esses críticos, a burocracia adicional desestimula o registro e a renovação de dados, sobretudo em comunidades minoritárias e de baixa renda.
Trump e seus aliados respondem que a lei é uma barreira necessária contra o que chamam de “voto ilegal em larga escala”, em especial por imigrantes em situação irregular. Não apresentam, porém, dados que sustentem a acusação. Investigações federais e estaduais nos últimos ciclos eleitorais identificam fraudes pontuais, em patamares irrelevantes para alterar resultados. Ainda assim, a narrativa de fraude se consolida como eixo central do movimento MAGA, que desde 2021 contesta o sistema sem provas consistentes.
Democratas veem nessa estratégia um esforço calculado para redesenhar o eleitorado. O deputado Joseph D. Morelle acusa Trump de mentir deliberadamente sobre a segurança das urnas. “Essas mentiras são uma tentativa desesperada de manipular as eleições e se manter no poder”, diz. Parlamentares do partido argumentam que a Lei Salve a América repete a lógica de iniciativas estaduais que, na última década, apertam regras de identificação e reduzem prazos de registro em estados sob controle republicano.
O debate ocorre num país ainda marcado pela invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Trump atacam o Congresso para tentar reverter sua derrota eleitoral. O episódio expõe a fragilidade das instituições diante de campanhas de desinformação sobre o voto. Desde então, o tema da integridade eleitoral domina a agenda interna, com republicanos propondo sucessivas restrições e democratas defendendo leis federais de proteção ao acesso às urnas.
Pressão sobre o Senado, disputa interna e cenário para a democracia
Trump não se limita ao púlpito do Capitólio. Nas últimas semanas, ele usa redes sociais e comícios para pressionar diretamente senadores republicanos. Em uma postagem recente, promete aprovar o Save America Act “de uma forma ou de outra, após aprovação pelo Congresso por meio do uso adequado do filibuster ou, no mínimo, por meio de um talking filibuster”. O modelo, popularizado em filmes, obriga a oposição a ocupar o plenário sem pausas para manter a obstrução, algo que o Senado não exige formalmente há anos.
John Thune admite em público que avalia ressuscitar o filibuster falado, mas alerta para o custo político. Uma obstrução prolongada pode engavetar outras pautas caras ao eleitorado, como medidas para aliviar o custo de vida, tema que também aparece no discurso de Trump, embora sem propostas novas concretas. Republicanos mais pragmáticos temem que a insistência em uma pauta polarizadora reforce a percepção de que o partido ignora problemas econômicos imediatos.
A pressão, porém, ganha reforço fora do Congresso. O bilionário Elon Musk e a rapper Nicki Minaj, ambos com forte presença nas redes, declararam apoio público à Lei Salve a América. A adesão de figuras populares ajuda a amplificar a narrativa da “fraude generalizada” junto a públicos distintos, da base tecnológica conservadora a jovens fãs de música pop. A mobilização serve também para constranger senadores indecisos, que passam a ser cobrados por suas posições em tempo real.
Republicanos na Câmara já sinalizam que não pretendem recuar. Depois de aprovarem, no ano passado, uma versão mais enxuta, o SAVE Act, focada apenas na prova de cidadania no registro, avançam agora com um pacote paralelo que proíbe o envio universal de cédulas pelo correio e veda a contagem de votos após o Dia da Eleição. Trump, em seu discurso, defende praticamente o fim do voto postal, “exceto em caso de doença, deficiência, serviço militar ou viagem”. O texto atual do Senado não inclui essas limitações, mas o sinal é claro: a bancada busca um redesenho mais amplo das regras do jogo.
O impasse legislativo projeta consequências além das fronteiras americanas. A disputa em torno do voto expõe fissuras na democracia considerada referência por grande parte do mundo ocidental. Organismos internacionais e governos aliados acompanham o debate como termômetro da solidez institucional dos Estados Unidos. Cada nova alegação infundada de fraude alimenta dúvidas sobre a legitimidade de futuros resultados, o que pode enfraquecer a capacidade de Washington de defender padrões democráticos em outros países.
Nas próximas semanas, líderes partidários no Senado terão de decidir se arriscam uma batalha de fôlego em torno do projeto ou se empurram a votação para depois das eleições, aceitando o desgaste com a base de Trump. O desfecho deve influenciar diretamente o equilíbrio de forças no Congresso a partir de 2027 e o próprio ambiente da eleição presidencial seguinte. A pergunta que permanece em aberto, dentro e fora dos EUA, é se a tentativa de “salvar a América”, no discurso de Trump, acabará por restringir ainda mais quem consegue ter voz nas urnas.
