Em discurso do Estado da União, Trump exalta economia e ataca democratas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usa o discurso sobre o Estado da União nesta terça-feira (24) para exaltar o desempenho da economia e fustigar os democratas. A fala, a nove meses da eleição presidencial de novembro de 2026, transforma a solenidade institucional em palanque de campanha em horário nobre.
Economia vira vitrine em ano eleitoral
Trump entra no plenário da Câmara dos Representantes disposto a vender a imagem de um país em plena recuperação econômica. Apoiado em números de crescimento e emprego, o presidente repete que os Estados Unidos “estão mais fortes do que nunca” e atribui o quadro a cortes de impostos, desregulamentação e agendas de investimento em infraestrutura anunciadas desde 2025.
Em meio à plateia dividida entre aplausos republicanos e expressões fechadas do lado democrata, o presidente destaca a queda do desemprego para patamares que a Casa Branca apresenta como os mais baixos em quase duas décadas. Fontes da equipe econômica falam em taxa em torno de 3,5% e citam expansão do PIB perto de 2,3% em 2025 como prova de que o país deixa para trás o período de incerteza visto no início do mandato atual.
Trump reserva parte do pronunciamento para cortejar segmentos centrais na disputa de novembro. Ele menciona aumento de vagas na indústria em estados do chamado cinturão da ferrugem, região que define eleições desde 2016. “Nós trouxemos de volta dezenas de milhares de empregos que a classe política anterior havia abandonado”, afirma, em referência indireta às administrações democratas.
A narrativa busca tranquilizar Wall Street e, ao mesmo tempo, falar ao eleitor que sente o impacto dos juros altos dos últimos anos. O presidente promete manter a inflação anual abaixo de 3% e garante que não permitirá “aventuras fiscais” que possam assustar investidores. A mensagem mira tanto os grandes fundos que financiam campanhas quanto famílias que acompanham a oscilação de preços em supermercados e postos de gasolina.
Ataques à oposição e clima de confronto
O discurso, porém, não se limita à exibição de indicadores positivos. Trump parte para o ataque direto aos democratas, a quem acusa de tentar “sabotar” a recuperação econômica e de defender políticas que, segundo ele, “punem quem trabalha e premia a burocracia de Washington”. Sem citar nomes, associa o adversário democrata na corrida de 2026 a projetos de aumento de impostos sobre grandes fortunas e de expansão de programas sociais.
Ao longo de quase uma hora e meia, o presidente usa expressões como “radicais de esquerda” e “partido da paralisia” para classificar a oposição. Afirma que propostas democratas para ampliar a cobertura de saúde e fortalecer sindicatos representariam, na prática, “mais Estado, menos liberdade”. “Eles querem controlar sua saúde, seu emprego e o que seus filhos aprendem na escola”, dispara, em linha com discursos recentes em comícios em estados-chave como Pensilvânia e Arizona.
Líderes democratas, que acompanham a sessão sentados atrás do púlpito, reagem com silêncio calculado e poucos aplausos protocolares. Assessores antecipam uma resposta oficial já nas próximas horas, em cadeia nacional, com críticas ao que chamam de “uso político” de um ritual constitucional. A presidente da bancada democrata na Câmara promete um contraponto com foco em desigualdade de renda, acesso à saúde e proteção ambiental, temas ausentes ou tratados de forma superficial no pronunciamento da Casa Branca.
Analistas em Washington lembram que Trump já usa discursos do Estado da União como armas eleitorais desde seu primeiro mandato, entre 2017 e 2021. A diferença, agora, está na proximidade de uma eleição considerada decisiva para o futuro do Partido Republicano e na fragmentação do eleitorado. Pesquisas recentes mostram margem apertada, com variação dentro da casa de 2 a 3 pontos percentuais entre governo e oposição, e fatia de indecisos que supera 10% em alguns estados competitivos.
Mercados, indecisos e a disputa pelos próximos meses
O recado ao mercado financeiro aparece em promessas de estabilidade regulatória e continuidade de cortes de gastos federais. Trump insiste que não permitirá que o déficit público volte ao pico de mais de 6% do PIB registrado na metade da década passada. Economistas críticos lembram, porém, que parte do ajuste ocorre por compressão de despesas sociais e adiamento de investimentos em educação e clima, pontos que a oposição explora para se diferenciar.
Para o eleitor comum, o impacto concreto do discurso se mede em duas frentes: expectativa de emprego e custo de vida. Ao prometer novas rodadas de obras públicas avaliadas em mais de US$ 500 bilhões até 2030, a Casa Branca fala em geração de milhões de postos de trabalho diretos e indiretos. Democratas argumentam que a falta de detalhes sobre fontes de financiamento alimenta dúvidas sobre o alcance real das medidas e o risco de cortes em outras áreas.
O pronunciamento também reverbera entre governos estrangeiros e organismos multilaterais, atentos a qualquer sinal de mudança na política econômica da maior economia do mundo. Embaixadores em Washington acompanham a sessão das galerias, enquanto mercados da Ásia e da Europa monitoram, em tempo real, menções a comércio internacional, tarifas e alianças estratégicas. Investidores calculam efeitos sobre fluxos de capitais, juros globais e preços de commodities, num momento em que uma variação de poucos décimos de ponto nas projeções americanas altera planos em diversos países.
Nos bastidores políticos, consultores traçam os próximos passos da campanha com base na repercussão da fala. Republicanos apostam que a ênfase em crescimento e segurança econômica fortalece sua posição entre eleitores independentes, principalmente nas faixas de renda entre US$ 40 mil e US$ 80 mil anuais. Democratas, por sua vez, preparam uma resposta que destaca o aumento do custo de moradia em grandes centros, o endividamento estudantil e a concentração de riqueza no topo de 1% da população.
Resposta democrata e incertezas até novembro
Nos próximos dias, o embate se transfere das galerias do Capitólio para palanques em estados em disputa e para a arena digital, onde ambos os partidos investem somas crescentes em propaganda segmentada. Estrategistas estimam que o ciclo eleitoral de 2026 pode superar a marca de US$ 15 bilhões em gastos de campanha, com fatia expressiva dedicada a anúncios online que exploram trechos do discurso desta terça-feira.
A resposta oficial democrata, tradicionalmente transmitida logo após o Estado da União, deve servir como primeiro grande teste da narrativa de oposição neste ano. A dúvida, para analistas e agentes do mercado, é se o equilíbrio entre cifras positivas e ataques retóricos será suficiente para consolidar o presidente entre indecisos ou se o tom confrontador tende a aprofundar a divisão do país. Até novembro, a disputa se organiza em torno de uma pergunta central: quem o eleitor responsabilizará pela economia que encontrará ao entrar na cabine de votação.
