Em Davos, Trump zomba de óculos de Macron e reacende tensão com Europa
Donald Trump transforma os óculos escuros de Emmanuel Macron em munição política no Fórum Econômico Mundial, em Davos, nesta terça-feira (20), e volta a mirar a Europa. A provocação, feita diante da elite financeira global, expõe o desgaste nas relações transatlânticas em meio à disputa comercial e à ambição dos Estados Unidos sobre a Groenlândia.
Provocação em palco global
O auditório em Davos está lotado quando Trump decide desviar por alguns instantes da pauta econômica para mirar o presidente francês. Ao comentar a participação de Macron no dia anterior, o ex-presidente norte-americano ironiza os óculos espelhados usados pelo líder francês em um ambiente fechado.
“Eu o vi ontem, com aqueles lindos óculos de sol. Que diabos aconteceu?”, dispara Trump, arrancando risos e constrangimento entre executivos, banqueiros e autoridades reunidos na estação de esqui suíça. A cena corre as redes em minutos e domina a conversa de bastidores no Fórum, que reúne chefes de Estado e empresários de mais de 100 países.
Em Paris, o gabinete de Macron reage com explicações médicas, não políticas. Assessores informam que o presidente rompe um vaso sanguíneo no olho direito e precisa proteger a região da luz forte, inclusive em locais fechados. A escolha das lentes espelhadas, segundo o entorno do francês, tem motivo estritamente clínico.
As imagens do discurso de Macron, com terno escuro, gravata discreta e óculos reflexivos, viralizam antes mesmo da piada de Trump. Memes o comparam a pilotos de “Top Gun” enquanto ele critica a tentativa dos Estados Unidos de pressionar a Europa com tarifas e usar o comércio como alavanca para negociar a compra da Groenlândia.
Tarifas, Groenlândia e uma disputa de poder
No discurso de terça-feira, Macron aproveita o palco de Davos para mandar um recado direto à Casa Branca. Ele chama de “fundamentalmente inaceitável” a ameaça de Washington de impor novas tarifas, inclusive sobre vinhos e champanhes franceses, caso a União Europeia resista aos planos norte-americanos para a Groenlândia.
O presidente francês afirma que a Europa precisa “dobrar sua determinação” diante das pressões de Washington e promete que a França enfrentará os “valentões”. A frase provoca aplausos discretos no salão, mas repercute com força em capitais europeias, onde governos acompanham com preocupação a escalada de tensões comerciais com os Estados Unidos.
Trump responde menos de 24 horas depois, no mesmo fórum. Ele critica duramente a Europa, menciona líderes europeus de forma genérica e volta a retratar o continente como um parceiro que se aproveita dos Estados Unidos, sobretudo em defesa e comércio. Ele diz que Dinamarca e Canadá “devem ser gratos” aos EUA, num recado que tem endereço certo: o Ártico.
O ex-presidente volta a falar abertamente sobre a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca com 57 mil habitantes e posição estratégica no Atlântico Norte. Trump afirma que descarta o uso da força para tentar controlar a ilha, mas deixa claro que continua interessado em aumentar a presença americana na região, em um movimento que mistura segurança militar, rotas marítimas e mineração.
Líderes da Otan alertam em reuniões reservadas que a pressão pública pela Groenlândia pode desestabilizar a aliança, já pressionada pelos gastos militares e pelas cobranças de Washington. Dinamarca e autoridades locais na ilha, por outro lado, se apressam em divulgar propostas para ampliar a presença econômica e militar dos Estados Unidos sem entregar a soberania do território.
Impacto político além do meme
A piada sobre os óculos de Macron vira combustível para a guerra cultural que cerca Trump desde a primeira campanha presidencial. Perfis alinhados ao republicano ridicularizam o francês, sugerem fragilidade e ironizam o que veem como “vaidade europeia”. Do outro lado, apoiadores de Macron e críticos de Trump transformam a imagem em símbolo de resistência a um estilo agressivo de diplomacia.
A leitura em Paris é que o episódio ilustra uma disputa mais profunda. De um lado, um ex-presidente norte-americano que aposta em gestos performáticos e ataques pessoais para marcar território político já em 2026, ano em que mira influência decisiva no Partido Republicano e no debate sobre a política externa dos EUA. De outro, um líder europeu que tenta manter a narrativa de defesa da ordem multilateral, com a França como voz firme dentro da União Europeia.
Na prática, a temperatura política afeta negociações concretas. Tarifas sobre vinhos e espumantes franceses atingem um setor que exporta bilhões de euros por ano e emprega centenas de milhares de pessoas em regiões inteiras da França. A simples ameaça de novos impostos nos Estados Unidos já pressiona produtores, encarece contratos futuros e amplia a incerteza para distribuidores.
No tabuleiro estratégico, a Groenlândia segue como ponto de atrito. O interesse norte-americano, reforçado publicamente por Trump em Davos, reforça a percepção na Europa de que o Ártico deixa de ser periferia geopolítica e se consolida como fronteira de disputa entre grandes potências. A região concentra reservas de minerais críticos e novas rotas marítimas, favorecidas pelo derretimento do gelo.
O que vem depois de Davos
Diplomatas europeus e norte-americanos calculam os próximos passos longe das câmeras, enquanto os vídeos da provocação seguem circulando com milhões de visualizações. Em Bruxelas, a Comissão Europeia avalia opções de retaliação caso Washington avance com tarifas adicionais, inclusive em setores sensíveis para produtores dos EUA.
Macron volta a Paris com o desafio de transformar o episódio em capital político interno, mostrando firmeza diante de Trump sem alimentar uma escalada que possa prejudicar exportadores franceses. Trump, por sua vez, sai de Davos com a atenção da base consolidada e um novo episódio para reforçar sua imagem de líder que afronta aliados tradicionais.
A tensão em torno da Groenlândia não dá sinais de arrefecer. Dinamarca e governo local na ilha tentam calibrar concessões econômicas e militares aos Estados Unidos para evitar uma crise aberta na Otan. A aliança militar, pilar da segurança europeia desde 1949, passa a conviver com a dúvida sobre até onde Washington está disposto a tensionar a relação em nome de um ganho estratégico no Ártico.
O Fórum de Davos encerra mais uma edição com a economia global sob risco, a ordem multilateral em xeque e a imagem de um presidente francês de óculos escuros como símbolo involuntário dessa incerteza. A pergunta que permanece é se o próximo encontro entre Trump e Macron será feito à sombra de novos memes ou sob o peso de uma crise diplomática mais profunda.
