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Em Davos, Trump critica Europa e volta a cobrar Groenlândia

Donald Trump volta a atacar as políticas europeias e reacende, nesta quarta (21/1), no Fórum Econômico Mundial de Davos, a pressão pela compra da Groenlândia.

Críticas à Europa em palco global

O presidente dos Estados Unidos sobe ao palco em Davos para exaltar a economia norte-americana como “o motor do mundo” e, em seguida, mirar a Europa. Diante de executivos, autoridades e economistas, ele afirma que o continente “não está na direção certa” e erra ao lidar com imigração e crescimento. A fala ocorre em um dos momentos de maior pressão migratória recente, com governos europeus divididos sobre como receber e integrar milhões de recém-chegados.

Trump descreve a situação como “a maior onda de imigração da história” e acusa líderes europeus de não terem resposta clara. “Eu amo a Europa e quero vê-la bem, mas está indo na direção errada”, diz, em tom que mistura aparente apreço com ataque direto. Ele menciona decisões econômicas “erradas”, sem citar países, mas o recado atinge políticas de estímulo verde, regulações ambientais e limites a combustíveis fósseis defendidos por grandes economias da União Europeia.

Groenlândia volta ao centro da disputa

O discurso ganha contornos ainda mais sensíveis quando Trump retoma, de forma explícita, a ambição de levar a Groenlândia para a órbita americana. O território autônomo da Dinamarca, com cerca de 2,1 milhões de quilômetros quadrados e posição estratégica no Ártico, volta a ser tratado como peça de tabuleiro geopolítico. O presidente exige “negociações imediatas” para discutir uma eventual aquisição pelos Estados Unidos e diz que a ideia não saiu de cena.

Trump insiste que Washington é o único ator capaz de garantir a segurança e o “desenvolvimento” da ilha. “São os Estados Unidos, e somente os Estados Unidos, que podem proteger essa enorme massa de terra, esse enorme pedaço de gelo, desenvolvê-lo e aprimorá-lo”, afirma. A referência ecoa o apetite de grandes potências pelas rotas marítimas e pelos recursos minerais do Ártico, cada vez mais acessíveis com o derretimento acelerado das calotas polares nas últimas décadas.

Ao mesmo tempo, o presidente tenta afastar o temor de uma escalada militar. “Provavelmente não conseguiremos nada a menos que eu decida usar a força excessiva, caso em que seríamos, francamente, imparáveis, mas não farei isso”, diz, arrancando risos nervosos da plateia. Em seguida, reforça: “Não preciso usar a força. Não quero usar a força. Não usarei a força”. A frase expõe a contradição central do discurso: a promessa de não recorrer a meios militares vem acompanhada de uma exibição de poderio e de pressão pública sobre um aliado da Otan.

Europa sob pressão e tabuleiro do Ártico em movimento

As declarações atingem uma Europa dividida internamente e exposta a ventos contrários. Países como Alemanha, França e Itália enfrentam inflação persistente, desaceleração industrial e disputas internas sobre políticas de migração. Ao afirmar que o continente toma decisões econômicas “erradas”, Trump mira reformas que priorizam transição energética, controle de emissões e proteção social, vistos por ele como entraves à competitividade diante dos Estados Unidos e da China.

O ataque ao modelo europeu também funciona como vitrine doméstica. Em ano de intensa disputa política em Washington, Trump usa Davos para vender a imagem de um país forte, disposto a defender fronteiras e ampliar sua influência territorial. A comparação com a Europa serve de contraponto: enquanto o bloco discute cotas de refugiados, metas climáticas e austeridade fiscal, ele apresenta os Estados Unidos como porto seguro para investidores, com juros, consumo e emprego ainda robustos.

A retomada do interesse pela Groenlândia, porém, tem implicações que vão além da retórica. O território, habitado por pouco mais de 56 mil pessoas, abriga bases militares americanas e fica em rota estratégica entre América do Norte, Europa e Rússia. A insistência de Trump reacende desconfortos em Copenhague, que já tinha rejeitado a ideia em público, e pressiona a Dinamarca a responder novamente a uma proposta que considera inegociável.

Riscos diplomáticos e próximos passos

No curto prazo, o discurso em Davos tende a endurecer o clima entre Washington e capitais europeias. Governos que já criticam o tom agressivo da Casa Branca em temas como comércio, clima e defesa veem na fala um novo teste de limites. A Dinamarca, aliada histórica dos Estados Unidos na Otan, pode ser forçada a reiterar, de forma ainda mais firme, que a Groenlândia não está à venda, sob pena de parecer vulnerável a pressões externas.

Mercados acompanham com atenção os sinais emitidos em Davos. Investidores avaliam o grau de fragmentação entre Estados Unidos e Europa e os reflexos sobre acordos comerciais, cadeias de produção e políticas climáticas. A disputa pela Groenlândia, embora pareça distante da rotina de empresas e cidadãos, se conecta a temas concretos: rotas de transporte mais curtas, novos campos de exploração de petróleo, gás e minerais raros, além da presença militar no Atlântico Norte.

As próximas semanas devem mostrar até que ponto o discurso de Trump se traduz em ação. A pressão por “negociações imediatas” com a Dinamarca, se formalizada, colocará o Ártico no centro da diplomacia ocidental. A reação europeia à crítica sobre imigração e economia indicará se o continente aceita o embate público ou tenta reduzir o atrito nos bastidores. Enquanto Davos esvazia seus salões, permanece a pergunta que inquieta chancelerias e mercados: até onde Washington está disposto a ir para transformar a retórica sobre a Groenlândia em realidade?

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