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Em Copacabana, mulheres cobram ação contra feminicídio e ódio de gênero

Milhares de mulheres tomam a Praia de Copacabana, neste 8 de março de 2026, para denunciar o feminicídio e cobrar políticas públicas de proteção e igualdade. A marcha transforma o cartão-postal do Rio em palco de luto, protesto e disputa por orçamento e mudanças na lei.

Marcha transforma o 8 de março em dia de denúncia

Desde o fim da manhã, Copacabana deixa o clima de feriado permanente para se tornar um corredor de faixas, tambores e palavras de ordem. No asfalto à beira-mar, mulheres de diferentes idades, cores e origens caminham lado a lado, empunhando cartazes que pedem paz, justiça e o fim da cultura machista que naturaliza a violência.

No carro de som, representantes de coletivos feministas se revezam na leitura de um manifesto que mira o Estado e a sociedade. Elas exigem mais verba para políticas de igualdade de gênero, a criminalização de grupos que promovem ódio às mulheres, a ampliação das licenças-maternidade e paternidade e linhas de crédito específicas para empreendedoras. Também pedem a revisão da escala 6×1, que ainda domina o comércio e impede muitas trabalhadoras de conciliar emprego, cuidado com os filhos e estudo.

A pauta vai além das delegacias especializadas ou das campanhas pontuais de conscientização. As oradoras defendem creches em tempo integral, escolas que incluam crianças com deficiência e neurodivergentes e redes de acolhimento capazes de proteger mulheres antes que a agressão se transforme em morte. A mensagem é direta: sem orçamento e sem política pública consistente, o discurso de combate ao feminicídio não sai do papel.

O cortejo avança ao som de uma paródia de “Eu quero é botar meu bloco na rua”, de Sérgio Sampaio, agora convertida em grito por segurança: “Eu quero é andar sem medo nas ruas. Chega! Queremos viver! Eu quero é ficar sem medo em casa. Chega! Queremos viver!”. O coro ecoa entre os prédios da orla e se choca com a rotina de um bairro que, há poucos meses, vira palco de um estupro coletivo contra uma adolescente.

Esses casos recentes, como a morte de Tainara Souza Santos, atropelada por um ex-companheiro, aparecem nos discursos e nos cartazes. Nomes e rostos surgem em bandeiras, camisetas e cruzes simbólicas espalhadas pela areia. Cada história interrompida é usada como prova de que a violência de gênero não é exceção, mas consequência de uma cultura que ainda relativiza ameaças, agressões e perseguições.

Luto, memória e disputa por políticas públicas

À frente da marcha, um grupo de pernaltas ergue o corpo acima da multidão com a faixa “Juntas somos gigantes”. As artistas, equilibradas a quase dois metros do chão, conduzem uma performance silenciosa. Deitam no asfalto, olhos fechados, para lembrar as mulheres mortas em crimes de ódio e de controle. Em seguida, levantam-se em círculo e gritam “Todas vivas!”, num gesto de ruptura com o papel de vítima que o sistema insiste em lhes impor.

A cena ajuda a explicar o tom do ato deste ano. A mobilização não se limita a denunciar a violência doméstica, mas mira as estruturas que a alimentam: a desigualdade econômica, a sobrecarga de trabalho, a falta de serviços públicos e a impunidade de agressores. As organizadoras defendem mudanças na legislação e criticam cortes orçamentários em políticas de gênero ocorridos na última década em diferentes instâncias de governo.

Entre as manifestantes, gerações se encontram e dividem a mesma calçada. A administradora Rachel Brabbins caminha com a filha Amara, de sete anos, que carrega um cartaz com a frase “Lute como uma menina”. Rachel conta que traz a menina para aprender desde cedo o significado de ter direitos e voz. “Eu acho super importante, pra ela aprender que tem direitos, tem voz e pode falar. Aqui também ela vê a nossa luta, e que estamos todas juntas”, diz.

A poucos metros, a militante Silvia de Mendonça, ativa em coletivos feministas desde os anos 1980, veste uma bandeira com o rosto da vereadora Marielle Franco, assassinada em 14 de março de 2018. Ela enxerga na vereadora um fio que liga a violência política ao feminicídio cotidiano. “A Marielle foi vítima de um crime brutal, que pretendia o silenciamento e o apagamento dela. É uma dor muito entranhada, que se reflete também em outras mulheres vítimas de feminicídio, de violência doméstica, de estupro… E a Marielle se tornou um símbolo de resistência, de que nós temos que nos unir cada vez mais”, afirma.

O convite aos homens aparece nos discursos e nas faixas. Thiago da Fonseca Martins, que participa do ato com o filho Miguel, de nove anos, diz ver ali um dever geracional. “Obviamente, a gente não pode promover violência contra a mulher, mas também temos que promover a igualdade sempre que a gente puder. A gente vive numa sociedade machista, e temos que entender que tivemos uma criação machista, então precisamos sempre ficar atentos, discutir e demover essas ideias”, diz, enquanto o filho observa as palavras de ordem.

A pedagoga Rita de Cássia Silva aponta para um ponto sensível da discussão: a transmissão da misoginia dentro de casa. “Essa cultura misógina é geracional. Ao longo de gerações, muitas mulheres achavam que era normal as violências que elas sofriam, e os filhos assistiam aquilo e achavam que era normal”, afirma. Para ela, enfrentar o feminicídio exige política pública de educação que comece na primeira infância. “É ótimo que nós estamos conscientizando a população adulta, mas é importante uma iniciativa, com apoio dos governos, para ajudar as famílias a mudar essa cultura, desde as crianças”, completa.

Pressão por respostas do Estado e disputas à frente

A marcha em Copacabana reforça uma cobrança que se repete, em diferentes tons, em cidades de todo o país: transformar diagnósticos em ações concretas. Organizações de mulheres lembram que o Brasil registra, ano após ano, índices elevados de feminicídio, e que a tipificação do crime, em 2015, não basta para conter o problema se a rede de proteção segue frágil e subfinanciada.

O manifesto lido no carro de som pede aumento imediato de recursos para casas-abrigo, centros de referência, delegacias especializadas e campanhas permanentes de prevenção. Defende ainda políticas econômicas que garantam autonomia financeira a mulheres que desejam romper relações abusivas, como crédito facilitado, programas de emprego e ampliação da rede de cuidados com crianças e pessoas idosas.

As propostas miram diferentes esferas de poder e podem encontrar resistência em setores que rejeitam a ampliação de direitos reprodutivos, a discussão de gênero nas escolas e a responsabilização severa de grupos que disseminam ódio. Ao mesmo tempo, o ato deste 8 de março sinaliza que a pressão social ganha fôlego, impulsionada pela memória de casos recentes e pela capacidade de mobilização nas redes e nas ruas.

A presença de meninas como Amara e de meninos como Miguel indica um movimento que tenta projetar outro horizonte para as próximas décadas. Se e como essa energia se traduz em mudanças de lei, revisão de orçamentos e novas políticas dependerá das respostas de governos municipais, estaduais e federal nos próximos meses. As organizadoras prometem manter a vigilância e voltar às ruas, caso as promessas fiquem restritas aos discursos de ocasião.

Quando o carro de som começa a diminuir o volume e a multidão se dispersa pela orla, a pergunta que atravessa a marcha permanece sem resposta: quantos 8 de março ainda serão necessários até que mulheres possam, de fato, andar e viver sem medo?

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