Em cela da PM no DF, Bolsonaro sela apoio à reeleição de Tarcísio em 2026
Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas se encontram nesta quinta-feira (22), na prisão do 19º Batalhão da PM do DF, para discutir a estratégia da direita para 2026. O encontro, autorizado pelo ministro Alexandre de Moraes, marca a primeira conversa presencial entre os dois desde a prisão preventiva do ex-presidente, em novembro.
Reencontro em meio à crise e disputa de 2026
O cenário do encontro sintetiza o momento político da direita brasileira. De um lado, o ex-presidente mais influente do campo conservador, atrás das grades do batalhão conhecido como Papudinha, em Brasília. Do outro, o governador do maior estado do país, tratado como quadro técnico e potencial candidato nacional.
O pedido de visita é feito na segunda-feira (19) e chega às mãos de Alexandre de Moraes, relator dos inquéritos que envolvem Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal. Na terça (20), o ministro autoriza o encontro. Três dias depois, o governador de São Paulo cruza a porta da unidade prisional para ouvir, segundo aliados, um recado direto sobre o papel que deve cumprir em 2026.
Flávio Bolsonaro, senador pelo PL do Rio e filho do ex-presidente, antecipa o tom da conversa. “Tarcísio vai ouvir da boca de Bolsonaro que está fazendo um grande trabalho como governador de São Paulo e que sua reeleição é fundamental para a estratégia nacional de derrotar o PT. Eleições presidenciais estão descartadas para ele”, diz ao jornal O Globo.
O encontro ocorre em um 19º Batalhão da PMDF transformado, desde 15 de janeiro, em centro simbólico da disputa política nacional. Bolsonaro está preso ali há sete dias quando a visita é autorizada, em regime preventivo, medida que intensifica a divisão entre governo e oposição e reacende debates sobre o alcance das decisões do STF.
A reunião também tem componente pessoal. Auxiliares relatam que Tarcísio pergunta com frequência sobre o estado emocional de Bolsonaro e pressiona interlocutores em Brasília por uma mudança no regime de prisão. Em dezembro, o governador procura ministros para defender a migração do ex-presidente para prisão domiciliar.
Tabuleiro da direita e recado contra o PT
A visita de Tarcísio ao Papudinha funciona como gesto político calculado. Na prática, ajuda a dissipar, ao menos por ora, a disputa silenciosa sobre quem lidera a direita na corrida ao Planalto. Em dezembro, Bolsonaro indica o próprio filho Flávio como pré-candidato à Presidência em 2026. Ao mesmo tempo, setores do campo conservador apontam Tarcísio como o nome mais competitivo contra Luiz Inácio Lula da Silva, que pode tentar um novo mandato pelo PT.
Em público, o governador paulista se alinha à decisão do padrinho político. Reforça que planeja disputar a reeleição em São Paulo em 2026 e declara apoio a Flávio. A conversa desta quinta-feira serve para cristalizar esse desenho: Bolsonaro como liderança tutelar, Tarcísio como peça estratégica nos estados e o filho senador como aposta ao Palácio do Planalto.
Flávio tenta ocupar esse espaço desde o fim de 2025, em meio às investigações que cercam o pai. Ao amarrar o discurso da direita em torno da reeleição de Tarcísio, ele busca reduzir ruídos internos e fortalecer a ideia de um projeto nacional coordenado, com palanques robustos nos principais colégios eleitorais, em especial São Paulo, que concentra mais de 22% do eleitorado brasileiro.
O movimento acontece sob tensão crescente. A prisão preventiva do ex-presidente, em novembro, altera o cálculo de aliados sobre 2026. Sem Bolsonaro na cédula, cresce a disputa por herdar seu eleitorado, estimado em mais de 49% dos votos válidos no segundo turno de 2022. A visita desta quinta tenta conter essa fragmentação, ao transmitir imagem de unidade entre o núcleo bolsonarista e o governador paulista.
O ambiente nas redes sociais reforça a costura política. Na terça-feira (20), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro publica um vídeo de 2019 com Bolsonaro e Tarcísio, então ministro da Infraestrutura, em uma live sobre o Aeroporto Glauber Rocha, na Bahia. A lembrança surge uma semana após Michelle ser criticada por curtir um vídeo de Cristiane Freitas, esposa de Tarcísio, em que a primeira-dama paulista afirma que o Brasil “precisa de um novo CEO, meu marido”.
Michelle tenta esvaziar a leitura de disputa. Diz que o comentário não aponta Tarcísio como futuro presidente, mas expressa o desejo por um “novo governante”. Afirma ainda que repostou o vídeo com “uma mensagem sobre economia” e declara concordar “totalmente” com o conteúdo. O resgate de imagens antigas, agora com Bolsonaro preso, reforça o esforço de reaproximação pública e de preservação do elo político entre as famílias.
Impacto no governo Lula e pressão sobre 2026
A reunião em Papudinha tem repercussões diretas sobre o governo Lula e sobre o PT. A definição antecipada de papéis no bloco bolsonarista pressiona a esquerda a acelerar a construção de alianças regionais. Em 2022, Lula conta com amplo arco de apoio em São Paulo para derrotar Bolsonaro nacionalmente. Em 2026, a perspectiva é enfrentar um governador candidato à reeleição sustentado pelo principal adversário político do presidente.
Ao declarar a reeleição de Tarcísio como “fundamental” para derrotar o PT, Bolsonaro envia recado também ao centro político. A estratégia é oferecer aos partidos não petistas a imagem de um gestor bem avaliado no estado mais rico do país, blindado, em tese, dos desgastes diretos do governo federal. Esse desenho pode atrair legendas hoje divididas entre o Planalto e a oposição.
O gesto de Moraes ao liberar a visita também entra no cálculo político. Cada decisão do ministro, personagem central nos inquéritos que cercam o bolsonarismo desde 2020, é lida à lupa por aliados e adversários. A autorização desta terça-feira mostra que o STF não pretende isolar completamente o ex-presidente, mesmo mantendo a linha dura em relação aos processos que o envolvem.
Dentro da direita, a cena de Tarcísio atravessando o portão do 19º Batalhão tem efeito simbólico. Ele reafirma a fidelidade ao padrinho político, afasta leitura de traição e tenta reduzir a pressão de grupos que o veem como alternativa mais competitiva que Flávio para enfrentar Lula. Ao mesmo tempo, se expõe a críticas de moderados que enxergam risco em atrelar o destino do governo paulista à situação judicial de Bolsonaro.
Próximos passos e incertezas no campo conservador
Após a visita, a expectativa em Brasília é por uma sequência de movimentos públicos que consolidem o roteiro desenhado no batalhão da PM. Aliados de Bolsonaro aguardam declarações formais de Tarcísio reafirmando o apoio a Flávio ainda no primeiro semestre de 2026, além de sinais práticos, como palanques compartilhados e agendas conjuntas em São Paulo e no Rio de Janeiro.
No Supremo, seguem em curso os inquéritos que podem definir se Bolsonaro terá ou não condições jurídicas de atuar diretamente na campanha. Uma eventual progressão para prisão domiciliar, defendida por Tarcísio em conversas reservadas com ministros, alteraria a dinâmica da eleição e devolveria ao ex-presidente alguma capacidade de mobilização presencial.
No campo governista, o PT monitora o desfecho do encontro e prepara a própria resposta. Dirigentes petistas avaliam que a fotografia de Bolsonaro preso, ainda que cercado de lealdades, pode ter peso ambíguo junto ao eleitorado de centro. Ao mesmo tempo, reconhecem que um Tarcísio fortalecido em São Paulo representa desafio concreto para a estratégia de reeleição de Lula ou de seu sucessor em 2026.
O encontro na Papudinha encerra uma etapa de especulações e abre outra, mais tensa, de definições. A direita tenta organizar seu projeto em torno de um líder encarcerado, de um governador em ascensão e de um herdeiro político em teste nacional. A pergunta que permanece, a menos de um ano da campanha, é se essa engenharia resiste às decisões dos tribunais e ao humor volátil do eleitor.
