Eleição na Hungria põe em risco hegemonia de 16 anos de Viktor Orbán
A Hungria vai às urnas neste domingo (12) em uma eleição legislativa que pode encerrar 16 anos de domínio de Viktor Orbán. O primeiro-ministro enfrenta o ex-aliado Péter Magyar, que lidera as pesquisas em meio à inflação alta e ao aumento do custo de vida.
Disputa testa resistência do projeto de poder de Orbán
Os 199 deputados da Assembleia Nacional definidos neste pleito determinam quem comandará o governo pelos próximos quatro anos. Na prática, o voto decide se o país mantém o modelo nacionalista e centralizador de Orbán ou abre espaço para uma guinada pró-União Europeia, defendida por Magyar.
A eleição ocorre sob forte desgaste econômico. A inflação elevada, somada à disparada de preços de alimentos, energia e aluguel, corrói a renda de famílias em grandes cidades e no interior. O tema do custo de vida domina comícios, entrevistas e programas de TV, e transforma a economia no eixo central da campanha.
Orbán, de 62 anos, governa de forma ininterrupta desde 2010, depois de um primeiro mandato entre 1998 e 2002. Nesse período, redesenha a Constituição, altera regras eleitorais, amplia o controle sobre meios de comunicação e consolida o Fidesz como força hegemônica no Parlamento. Críticos acusam o premiê de minar o equilíbrio entre poderes e limitar a atuação da imprensa independente.
O líder do Fidesz se apresenta como defensor da soberania nacional e da “Hungria cristã”. Mantém discurso duro contra imigração, ataca políticas de Bruxelas e transforma choques com a União Europeia em combustível político interno. Ao mesmo tempo, cultiva relação próxima com Moscou mesmo após a invasão da Ucrânia, o que provoca atritos constantes com parceiros europeus.
Nos últimos anos, Orbán se torna uma referência para a direita populista internacional. Donald Trump o chama de “amigo” e modelo de liderança conservadora. Em novembro do ano passado, os dois se reúnem na Casa Branca, encontro usado amplamente na propaganda do Fidesz.
A poucos dias da votação, o apoio se intensifica. Na quarta-feira (8), em postagem na rede Truth Social, Trump recomenda voto em Orbán e afirma que o primeiro-ministro “luta incansavelmente por seu país e seu povo”. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, visita Budapeste em fevereiro e fala em “era de ouro” nas relações bilaterais. O vice-presidente, J.D. Vance, desembarca na capital na terça-feira (7) e sobe em palanque ao lado do premiê, ao mesmo tempo em que acusa a União Europeia de “interferir” na eleição.
Péter Magyar canaliza frustração econômica e fadiga política
A cena política húngara muda de tom com a ascensão de Péter Magyar, 45. Ex-aliado de Orbán, ele lidera o partido Tisza, criado como alternativa conservadora, mas abertamente pró-União Europeia. Em pouco mais de um ano, sai do anonimato relativo para o centro do debate nacional.
O crescimento se apoia em duas frentes. De um lado, Magyar fala à base tradicional de Orbán, sobretudo eleitores conservadores e moradores de áreas rurais afetados pela inflação. De outro, promete romper com o modelo concentrado de poder, rever reformas institucionais e aproximar o país de Bruxelas. O discurso mira diretamente o cansaço com 16 anos do mesmo grupo no controle do Estado.
Pesquisas recentes indicam um cenário inédito. Levantamento do Idea Institute, divulgado na quinta-feira (9) pela agência Reuters, mostra o Tisza com 39% das intenções de voto, contra 30% do Fidesz. A diferença de 9 pontos percentuais não garante vitória, mas expõe a fragilidade inédita da máquina governista. Outros 21% dos entrevistados dizem ainda não ter decidido o voto, número que mantém o resultado em aberto.
Magyar também enfrenta questionamentos. A ex-mulher e ex-ministra da Justiça, Judit Varga, o acusa de violência doméstica. As denúncias ganham manchetes e são exploradas por adversários, mas não impedem o avanço nas sondagens. Para analistas ouvidos pela imprensa local, o episódio evidencia a aposta do governo em uma campanha agressiva para tentar frear a nova liderança.
Ao se apresentar como “mudança responsável”, Magyar evita romper totalmente com valores conservadores, mas promete restaurar a previsibilidade econômica, destravar negociações com a União Europeia e reduzir a dependência de Moscou. O Tisza defende o reforço de instituições de controle, maior transparência em contratos públicos e uma revisão de políticas que afastaram investidores estrangeiros.
No plano externo, uma virada de poder em Budapeste alteraria o tabuleiro do Leste Europeu. A Hungria é hoje um dos governos mais reticentes em relação às sanções à Rússia e ao envio de armas a Kiev. Uma aproximação com Bruxelas e com aliados da Otan poderia influenciar decisões sobre pacotes de ajuda à Ucrânia e sobre futuras ampliações do bloco.
Europa observa sinal sobre futuro do nacionalismo no Leste Europeu
O resultado deste domingo interessa além das fronteiras húngaras. Em Bruxelas, a disputa é vista como teste para o alcance do nacionalismo conservador em um país da União Europeia com histórico de choques institucionais. Em Washington e Moscou, diplomatas acompanham a votação como termômetro do alinhamento futuro de Budapeste em temas sensíveis, da guerra na Ucrânia à política energética.
Uma nova vitória de Orbán significaria continuidade da rota atual: embates frequentes com a Comissão Europeia, manutenção dos laços com a Rússia e aprofundamento do modelo de poder concentrado em torno do Fidesz. Nesse cenário, a tendência é de negociações duras sobre recursos europeus, regras de Estado de Direito e políticas migratórias, com impactos sobre investimentos e previsibilidade regulatória no país.
Um triunfo de Magyar abriria um período de transição mais incerto. A oposição promete rever leis aprovadas na última década e reequilibrar as relações com Bruxelas, mas enfrentaria um aparato estatal moldado ao longo de 16 anos pelo grupo de Orbán. A reorganização de instituições, a recomposição de orçamentos e o redesenho da política externa tenderiam a ocorrer de forma gradual, sob forte resistência do Fidesz.
Para a população, o ponto decisivo continua sendo o bolso. Com inflação pressionando salários e aposentadorias, qualquer novo governo será cobrado por respostas rápidas em preços, empregos e serviços públicos. A forma como Budapeste lida com recursos europeus, investimentos estrangeiros e parcerias energéticas pode definir o ritmo de recuperação econômica.
À medida que as seções eleitorais abrem neste domingo, resta saber se o desgaste econômico e a fadiga política com um mesmo líder superam o peso de uma máquina consolidada de poder. O resultado, esperado ainda na noite de domingo, indica não apenas quem governará a Hungria, mas qual direção o país escolhe em um momento de incerteza para toda a Europa.
