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Eleição na Hungria ameaça fim da era Orbán e redesenha direita europeia

A Hungria vai às urnas em 12 de abril de 2026 em uma eleição que pode encerrar os 16 anos de poder de Viktor Orbán. Pesquisas apontam vantagem do opositor Péter Magyar e colocam em xeque um dos principais símbolos da direita populista europeia.

Vantagem inédita da oposição após 16 anos

Pela primeira vez desde que assumiu o controle quase absoluto da política húngara, em 2010, Orbán entra em uma disputa nacional como favorito a perder. Levantamento compilado pelo site Politico indica o partido Tisza, de Péter Magyar, com 50% das intenções de voto, contra 39% do Fidesz, legenda do primeiro-ministro. Em um sistema em que apenas siglas com pelo menos 5% dos votos elegem deputados, a vantagem aponta para uma mudança profunda na correlação de forças em Budapeste.

A dianteira de Magyar reflete desgaste acumulado. A inflação alta corrói salários, serviços públicos sofrem com falta de investimento e a economia cresce menos do que o prometido. Em um país que Orbán vende ao eleitorado como “história de sucesso soberanista” dentro da União Europeia, filas em hospitais e contas mais caras se tornam combustível político. “Essa eleição é altamente simbólica porque Orbán é uma espécie de modelo para a ultradireita europeia. Se ele perder agora, isso abala o seu mito”, afirma Zsuzsanna Végh, coordenadora de programas do think tank German Marshall Fund.

Orbán, laboratório da ultradireita e vitrine em xeque

Ao longo de quatro mandatos consecutivos, Orbán reescreve a Constituição, reduz a autonomia da Justiça, sufoca parte da imprensa e enfrenta Bruxelas em temas como migração, direitos civis e Estado de Direito. A Hungria se torna, nas palavras da historiadora Andrea Pető, “laboratório” para políticas de ultradireita. “Diferentes políticas e estratégias de governo são testadas aqui e depois transmitidas a outros atores”, diz a professora do Instituto de Democracia da CEU, em Viena.

A fórmula inspira partidos radicais da Alemanha à Espanha. O Alternativa para a Alemanha (AfD) salta de 10,4% dos votos em 2021 para 20,8% em 2025 e conquista 152 das 630 cadeiras no Parlamento alemão. O Vox, na Espanha, sobe de pouco mais de 12% nas eleições de 2023 para cerca de 18% nas pesquisas recentes. Na França, o Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, usa o modelo nacionalista e eurocético como vitrine para as presidenciais de 2027, mesmo com a líder hoje inelegível e apostando na ascensão do jovem Jordan Bardella, de 30 anos.

Orbán ocupa posição central nessa constelação. Para o analista András Bíró-Nagy, ele se consolida como “símbolo forte e importante desse movimento patriótico e eurocético” e mantém aliados “não só na Europa, mas em todo o mundo”. A possível derrota em Budapeste, avalia, seria “uma grande perda” para essa rede internacional de partidos que se opõem à integração europeia e defendem agendas nacionalistas rígidas.

Alinhamentos globais em disputa

A influência de Orbán ultrapassa o continente. A relação estreita com Donald Trump transforma o primeiro-ministro em peça de um tabuleiro que mistura guerras, tarifas e disputas ideológicas. Na reta final da campanha, o vice-presidente americano, JD Vance, desembarca em Budapeste para reforçar a imagem do aliado. Em um discurso ao lado de Orbán, acusa a União Europeia de atuar contra o premiê em uma espécie de “censura digital” e afirma estar ali para ajudá-lo na eleição, em nome de uma suposta “defesa da civilização ocidental”.

O gesto tem efeito ambíguo. Zsuzsanna Végh avalia que a bênção de Trump ajuda Orbán a se apresentar como líder de peso global, mas cobra um preço. “O apoio de Trump à direita radical na Europa não é um trunfo dada a imprevisibilidade e a falta de confiabilidade de Trump. É realmente uma faca de dois gumes”, diz. A associação com a retórica confusa do ex-presidente americano sobre temas como guerra no Irã e tarifas comerciais pode afastar eleitores que hoje priorizam segurança econômica.

No tabuleiro europeu, a Hungria exerce papel desproporcional ao seu tamanho. É o governo mais alinhado à Rússia dentro da União Europeia e um dos principais obstáculos a pacotes financeiros destinados à Ucrânia desde 2022. O veto húngaro atrasa empréstimos bilionários para Kiev e alimenta tensões em Bruxelas. A saída de Orbán do poder abriria espaço, segundo diplomatas europeus, para negociações menos imprevisíveis no Conselho da UE.

O que pode mudar em Budapeste e em Bruxelas

O programa de Péter Magyar não representa uma ruptura total com o ceticismo em relação à guerra. O opositor já manifesta reservas ao envio de armas para Kiev, mas acena a uma postura mais pragmática com os parceiros europeus. A expectativa em Bruxelas é que um eventual governo Tisza aceite ao menos destravar um grande empréstimo à Ucrânia, em troca da liberação de recursos congelados para Budapeste por violações ao Estado de Direito.

Na política doméstica, uma derrota de Orbán redesenharia o Parlamento. Com Tisza à frente e o Fidesz em torno de 39%, o partido do primeiro-ministro perderia a maioria absoluta e a capacidade de impor mudanças constitucionais quase sem freios. Mesmo em caso de vitória apertada, analistas falam em fim da era de domínio incontestado. “Os anos dourados de Orbán acabaram, independentemente do resultado”, resume Bíró-Nagy. “Mesmo que Orbán vença, sua vitória será muito menor do que da última vez. A sensação é de que o Fidesz está em declínio.”

Essa inflexão não significa o recuo automático da direita radical na Europa. Na Polônia, Karol Nawrocki chega à presidência em 2025 após campanha apoiada por Trump e por Orbán e reforça uma agenda conservadora. O país terá novas eleições parlamentares em 2027, em um cenário em que forças nacionalistas mantêm fôlego. A maré populista, apontam especialistas, obedece a dinâmicas internas de cada país e não depende apenas do destino do líder húngaro.

Termômetro para a direita europeia

A votação húngara se torna assim um teste de estresse para todo o campo populista de direita. Uma derrota de Orbán enfraquece um de seus porta-estandartes mais antigos e, ao mesmo tempo, força partidos aliados a buscar novas referências. Na França, a disputa presidencial de 2027 deve mostrar se o modelo testado em Budapeste encontrará eco em escala maior. Na Alemanha e na Espanha, o desempenho de AfD e Vox dirá até onde vai o apelo da agenda nacionalista em economias centrais da zona do euro.

Dentro da Hungria, o domingo eleitoral definirá se o país continua como laboratório de experiências iliberais ou se tenta reconstruir pontes com a União Europeia. Fora dele, o resultado ajudará a indicar se a ultradireita seguirá avançando com antigos símbolos ou se dará lugar a uma nova geração de líderes. A pergunta, para Bruxelas e para as capitais europeias, é quanto tempo a Hungria ainda permanecerá como a peça mais imprevisível do tabuleiro.

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