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Eduardo Leite endurece contra Bolsonaro e expõe racha no PSD

Eduardo Leite adota tom duro contra Jair Bolsonaro em evento do PSD nesta sexta-feira (6), em plena pré-campanha de 2026. A fala contrasta com a postura mais cautelosa de Ratinho Junior e Ronaldo Caiado, também presidenciáveis do partido, e torna explícita a disputa interna por identidade política e votos no campo de centro-direita.

PSD entra em campo dividido na corrida presidencial

O encontro nacional do PSD, realizado nesta sexta-feira, marca a largada simbólica da disputa pela indicação presidencial do partido. Leite escolhe o palco para se diferenciar e mira diretamente o ex-presidente. Em discurso descrito por aliados como o mais incisivo desde o fim de seu mandato no governo do Rio Grande do Sul, ele critica o legado econômico, a gestão da pandemia e o ambiente político deixado por Bolsonaro.

“O Brasil não pode voltar a um projeto que flerta com o autoritarismo e despreza a responsabilidade fiscal”, afirma, segundo participantes do evento. A fala contrasta com a estratégia mais moderada de Ratinho Junior e Ronaldo Caiado, que evitam ataques frontais ao bolsonarismo e buscam dialogar com esse eleitorado. A divergência, até aqui tratada nos bastidores, passa a ser pública e coloca o PSD no centro da reacomodação das forças de centro-direita para 2026.

Leite tenta ocupar desde já o espaço de alternativa liberal na economia e progressista em costumes, bandeira que ele levanta desde a eleição de 2018, quando se elege governador surfando a onda de renovação política, mas sem se alinhar ao discurso de confronto permanente. Em 2022, ainda no PSDB, testou nacionalmente esse perfil ao se lançar como pré-candidato e acabou vencido pela própria divisão interna tucana. Agora, no PSD, mira um eleitor que rejeita Bolsonaro, mas não se sente representado pelo campo à esquerda.

Ratinho Junior, governador do Paraná reeleito em 2022 com mais de 69% dos votos, constrói narrativa de gestor pragmático, com forte apelo regional e relação amistosa com o bolsonarismo. Ronaldo Caiado, em Goiás, mantém discurso de direita tradicional, focado em segurança pública e agronegócio, mas sem repetir o tom de embate direto com o Supremo e instituições que marcou parte do governo Bolsonaro entre 2019 e 2022. Os dois preferem tratar o ex-presidente como possível aliado, não como adversário direto.

Discurso endurecido reorganiza tabuleiro da centro-direita

A aposta de Leite em um discurso mais duro contra Bolsonaro mexe com a matemática eleitoral do PSD. O partido mira figurar entre as três principais forças na disputa presidencial de outubro de 2026, ao lado de PT e da direita mais alinhada ao ex-presidente. Para isso, precisa definir, nos próximos 12 a 18 meses, qual fatia do eleitorado prioriza: o voto antibolsonarista de classe média urbana ou o eleitor conservador que ainda vê Bolsonaro como referência política.

Pesquisas internas encomendadas por campanhas de pré-candidatos indicam que cerca de 35% do eleitorado se declara “abertamente contrário” a um novo ciclo bolsonarista, enquanto pouco menos de 30% mantém avaliação positiva do período 2019-2022. É nesse intervalo estreito que Leite tenta se firmar. Assessores calculam que um discurso crítico, porém ancorado em números de déficit público, inflação e desemprego no fim da gestão Bolsonaro, pode consolidar apoio de empresários que hoje oscilam entre o governo atual e a oposição de direita.

Ao escolher o confronto, Leite também envia recado interno. O PSD, que abriga pelo menos três projetos presidenciais e administra governos estaduais estratégicos, precisa apresentar ao eleitor uma narrativa coerente até o início oficial da campanha, em agosto de 2026. Um dirigente resume, em conversa reservada: “Ou seremos alternativa ao bolsonarismo, ou seremos satélite dele. As duas coisas ao mesmo tempo não funcionam”. A fala traduz a tensão que cresce em diretórios regionais e bancadas estaduais.

Ratinho e Caiado atuam para reduzir a temperatura. Nas falas ao público, ambos falam em “unidade” e “amplitude” e destacam a necessidade de atrair prefeitos e lideranças conservadoras em cidades médias. A estratégia mira, sobretudo, o interior do Sul, do Centro-Oeste e parte do Sudeste, onde Bolsonaro segue forte nas intenções de voto e mantém redes de apoio ligadas a igrejas, associações comerciais e ao agronegócio. Leite, por sua vez, concentra a narrativa em grandes centros urbanos e na juventude, público que, em 2022, rejeitou em massa o ex-presidente.

Racha expõe dilema estratégico e pressiona definição até 2026

A forma como o PSD administra essa divergência nos próximos meses pode redefinir não só o papel do partido, mas a própria configuração da disputa presidencial. Uma escolha clara por um discurso mais duro contra Bolsonaro tende a empurrar parte de suas bases para outras legendas de direita e a aproximar o PSD de eleitores hoje próximos ao centro. Um movimento inverso, mais conciliador, pode preservar alianças regionais, mas deixaria o partido na sombra de candidaturas mais identificadas com o ex-presidente.

Nos bastidores, dirigentes discutem prazos. A sinalização é de que o partido pretende bater o martelo sobre candidatura única até meados do primeiro semestre de 2025, antes das convenções municipais e das alianças para a eleição de prefeitos e vereadores. A definição precoce serviria para testar, por pelo menos 12 meses, o potencial do escolhido em cenários nacionais e reduzir o risco de rachas durante a campanha de 2026.

Enquanto a decisão não vem, o movimento de Leite nesta sexta-feira tende a repercutir em série de reuniões regionais, entrevistas e negociações de bastidor. A fala dura contra Bolsonaro pode atrair grupos que defendem uma ruptura mais nítida com o ciclo político iniciado em 2018, mas também deve acentuar resistências de segmentos que veem no ex-presidente um ativo eleitoral indispensável. O tabuleiro da centro-direita entra em 2026 mais fragmentado, e o PSD precisa decidir se aceita a polarização interna como método ou se tenta, mais uma vez, conciliar projetos que olham em direções opostas.

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