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Eduardo Cunha anuncia candidatura a deputado federal por Minas

O ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha anunciou, neste 19 de janeiro de 2026, que pretende disputar uma vaga de deputado federal por Minas Gerais. A decisão marca nova tentativa de retorno à política nacional após a cassação do mandato e condenações na Lava-Jato.

Minas como vitrine e projeto de retorno

O movimento nasce nas redes sociais. Em uma publicação no Instagram, Cunha afirma que escolhe Minas não apenas pelo tamanho do colégio eleitoral, mas pelo simbolismo político do estado. Ele diz que Minas é a “síntese do Brasil” por reunir diversidade econômica, social e geográfica em um mesmo território.

Ao se apresentar aos eleitores mineiros, o ex-deputado insiste na força geopolítica do estado. “O que acontece em Minas acontece no Brasil”, afirma, ao destacar a proximidade com Goiás, Bahia, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Ele menciona diferenças internas entre o Triângulo, a Zona da Mata, o Norte e o Sul de Minas como prova de que ali convivem vários “Brasis” em um só mapa.

A aposta em Minas representa mudança de rota. Em 2022, Cunha tenta voltar ao Congresso por São Paulo, maior colégio eleitoral do país, mas sai derrotado. Agora, mira o segundo maior, onde o jogo político recente reforça a imagem de estado decisivo. Na eleição presidencial de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vence Jair Bolsonaro (PL) em Minas por margem apertada, confirmando a tradição de que o resultado mineiro costuma antecipar o desfecho nacional.

Cunha tenta se colocar como intérprete desse papel estratégico. Em sua mensagem, afirma que Minas “tem um papel muito maior do que exerce hoje” e promete recolocar o estado no centro do debate em Brasília. A ambição é explícita: transformar a candidatura em plataforma para reaproximação com o coração das negociações políticas no Congresso.

Histórico de poder, cassação e condenações

A nova movimentação ocorre quase uma década após o auge e a queda de Cunha em Brasília. Ele preside a Câmara dos Deputados entre 2015 e 2016, período marcado pela abertura do processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT) e pela intensa disputa por poder na Casa. Em 2016, tem o mandato cassado por quebra de decoro, em meio às investigações da Operação Lava-Jato sobre contas no exterior e recebimento de propina.

Em 2017, o então juiz federal Sergio Moro condena Cunha a 15 anos e quatro meses de prisão pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A sentença o afasta do centro do poder e o transforma em um dos símbolos da Lava-Jato. Nos anos seguintes, ele alterna períodos em regime fechado, domiciliar e decisões judiciais que revisam parte das condenações.

Em 2023, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal anula uma das condenações por questões de competência e determina o envio do processo para a Justiça Eleitoral. A decisão não apaga o histórico de investigações, mas abre brechas jurídicas que sua defesa tenta explorar. A candidatura por Minas surge nesse terreno de incerteza, em que a elegibilidade depende da leitura dos tribunais sobre o conjunto de processos.

Enquanto projeta o futuro, Cunha mira também o passado recente da política mineira. Ele chama de “desastre” a gestão do ex-governador Fernando Pimentel (PT), que governou o estado entre 2015 e 2019 e enfrentou crise fiscal, atraso de salários e desgaste político. A crítica busca dialogar com o eleitorado descontente e ocupar espaço no campo conservador e antipetista, hoje disputado por diferentes forças.

Disputa em colégio-chave e debate sobre ética

A entrada de Cunha na corrida por Minas promete acirrar a disputa em um estado-chave, com mais de 16 milhões de eleitores em 2022 e peso decisivo na formação de bancadas na Câmara. A bancada mineira, hoje com mais de 50 deputados federais, costuma ser cortejada por governos e oposição em votações sensíveis, de reformas econômicas a pautas de costumes.

A possível candidatura recoloca no centro do debate a presença de políticos com histórico de condenações e processos em curso. A Lei da Ficha Limpa, que impede por oito anos a candidatura de condenados por órgão colegiado, pode ser acionada a depender da situação jurídica atual de Cunha. Advogados eleitorais e partidos acompanham o caso de perto, atentos a brechas, recursos e novas decisões do STF e da Justiça Eleitoral.

No plano político, o anúncio tende a dividir o campo conservador mineiro. Aliados de Jair Bolsonaro, setores do Centrão e grupos regionais terão de decidir se dão espaço a um nome com forte rejeição nacional, mas reconhecida habilidade nos bastidores. A eventual volta de Cunha à Câmara reacende memórias de um estilo de liderança baseado no controle da pauta, na distribuição de cargos e em negociações duras com o Executivo.

Para eleitores, a presença do ex-presidente da Câmara na cédula pode funcionar como teste sobre os limites da tolerância com escândalos de corrupção. Uma boa votação indicaria que parte do eleitorado prioriza experiência e capacidade de articulação, mesmo com histórico judicial pesado. Um desempenho fraco reforçaria a ideia de que figuras associadas à Lava-Jato seguem com portas fechadas nas urnas.

Calendário eleitoral e incertezas adiante

Os próximos meses definem se o projeto mineiro de Cunha sai do papel. Ele precisa consolidar base partidária, costurar alianças regionais e, sobretudo, garantir segurança jurídica para registrar a candidatura no Tribunal Regional Eleitoral de Minas nos prazos de 2026. A janela de filiações e as convenções partidárias se tornam peças decisivas nessa estratégia.

Adversários já organizam discursos para explorar o passado do ex-deputado e associar sua imagem a práticas que parte do eleitorado diz rejeitar desde 2014. Grupos de oposição ao governo federal também observam como a eventual campanha de Cunha pode influenciar o tom do debate em Minas, ampliando a polarização e deslocando temas regionais, como déficit fiscal e infraestrutura, para segundo plano.

Minas segue no centro do tabuleiro nacional, disputada por PT, PL, PSD e outras siglas em busca de protagonismo em 2026. A decisão de Cunha de se lançar nesse cenário adiciona uma variável inesperada a uma eleição que já nasce fragmentada. O desempenho do ex-presidente da Câmara nas urnas indicará não apenas seu futuro político, mas também o quanto o eleitor mineiro aceita, ou não, revisitar personagens centrais da crise que marcou a década passada.

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