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Eduardo Bolsonaro desafia Moraes na CPAC e projeta Flávio para 2026

Eduardo Bolsonaro usa o palco da CPAC, em 28 de março de 2026, nos Estados Unidos, para desafiar o ministro Alexandre de Moraes, projetar Flávio Bolsonaro à Presidência e defender anistia ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Discurso em tom de confronto e aposta no Senado

Radicado nos EUA desde fevereiro de 2025, o ex-deputado transforma o principal encontro da direita americana em vitrine para a disputa política brasileira. Diante de uma plateia majoritariamente conservadora, ele afirma não ter medo de Moraes, hoje o principal alvo do bolsonarismo no Supremo Tribunal Federal, e vincula o futuro do ministro ao resultado das próximas eleições no Brasil.

Ao apresentar o irmão como alternativa presidencial, ele fala em tom de anúncio de campanha. “Este é o próximo presidente do Brasil”, diz, apontando para o senador Flávio Bolsonaro (PL). Em seguida, descreve um plano que passa pelo controle do Senado em 2026. “Existe um prognóstico que vamos ter a maioria no Senado. Os futuros senadores vão ‘impichar’ o Alexandre de Moraes. Vamos chutar para fora esses juízes corruptos”, afirma.

O recado ecoa no momento em que o STF mantém sob sua relatoria alguns dos inquéritos mais sensíveis para o bolsonarismo, abertos desde 2019, entre eles os que investigam ataques às urnas eletrônicas e tentativa de golpe. Ao acenar com a possibilidade de impeachment de um ministro do Supremo, Eduardo recoloca no centro do debate um instrumento raro na história republicana: a destituição de membros da Corte pelo Senado, prevista na Constituição, mas quase nunca usada.

Vida sob medida judicial e apelo por anistia

No discurso, Eduardo mistura relato pessoal, estratégia eleitoral e cruzada ideológica. Ele conta que vive nos Estados Unidos há pouco mais de um ano, desde fevereiro de 2025, e atribui a mudança a decisões de Moraes. “Tenho contas bancárias bloqueadas, meu passaporte foi retirado e perdi o mandato de deputado federal por ausências depois que deixei o Brasil”, afirma, apresentando-se como vítima de perseguição judicial.

O ex-deputado promete revanche em caso de derrota do ministro. “No dia seguinte, eu vou processar ele pela prisão, pelos crimes que ele cometeu e por quando ele me processou por crimes que eu não cometi”, diz, sem detalhar quais ações pretende mover nem em que instância. A fala tenta inverter o papel de investigado para acusador e reforça o discurso de que haveria abuso de poder por parte do Judiciário.

Uma parte central da fala é dedicada à situação do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso desde 2025 em consequência de processos que envolvem suspeitas de tentativa de golpe e ataques ao sistema eleitoral. Eduardo defende abertamente uma anistia ampla ao pai e a aliados, escancarando o cálculo político por trás da proposta. “Vamos vencer essas eleições, vamos perdoar Jair Bolsonaro, e os EUA vão ter o maior aliado no Brasil no ano que vem”, afirma, sugerindo que a libertação do ex-presidente seria uma das primeiras medidas de um eventual governo conservador.

Ao pedir apoio dos Estados Unidos, ele tenta internacionalizar a disputa doméstica. Fala em “aliados” no Congresso americano, acena para lideranças da direita que orbitam o ex-presidente Donald Trump e insiste na narrativa de que o conservadorismo brasileiro sofre perseguição. Essa ponte com Washington se torna um ativo simbólico numa base eleitoral que vê nos EUA um modelo de enfrentamento a governos de esquerda e ao que considera ativismo judicial.

Impacto institucional e risco de escalada de tensão

As declarações miram mais do que a militância que acompanha o ex-deputado nas redes sociais. Ao projetar maioria conservadora no Senado e falar explicitamente em “impichar” um ministro do STF, Eduardo pressiona desde já partidos de centro e direita que podem ser decisivos em 2026. A mensagem é clara: o controle da Casa, composta por 81 senadores, passa a ser apresentado como condição para rever decisões da Corte e blindar o campo bolsonarista.

Na prática, a estratégia amplia o fosso entre o bolsonarismo e o Judiciário, num cenário que já registra atritos desde pelo menos 2020. A defesa de uma anistia para Jair Bolsonaro, preso há cerca de um ano, também tensiona o ambiente político, pois coloca no horizonte um eventual acordo que dependeria do Congresso e poderia dividir até mesmo parte da direita tradicional, que teme a repetição de crises institucionais recentes.

O pedido de apoio político dos EUA adiciona um componente externo à disputa. Ao tratar uma eleição nacional como peça de um tabuleiro geopolítico, Eduardo sugere que o resultado no Brasil interessa diretamente à direita americana. Esse tipo de aceno pode fortalecer redes de financiamento, consultoria de campanha e troca de estratégias digitais, mas também alimenta críticas de interferência estrangeira e fragiliza a retórica de soberania usada por segmentos do próprio bolsonarismo.

No curto prazo, o discurso tende a mobilizar a base conservadora e a reacender o embate entre defensores de uma resposta dura ao Supremo e grupos que pregam uma acomodação institucional. No médio prazo, o tom adotado na CPAC pode servir de prévia do que será a campanha presidencial, com o STF novamente no centro da narrativa e a pauta da anistia a Jair Bolsonaro como teste de força entre Congresso, Executivo e Judiciário.

Próximos movimentos e incertezas para 2026

O pronunciamento de Eduardo Bolsonaro abre uma série de interrogações para os próximos meses. Caberá a Flávio Bolsonaro, apresentado como “próximo presidente”, decidir se assume de fato a condição de pré-candidato ou se o gesto do irmão funciona apenas como balão de ensaio para medir reações de aliados e adversários. Dentro da direita, outros nomes, como governadores e ex-ministros, também testam espaço para 2026.

No campo institucional, a referência direta ao impeachment de um ministro do STF pode provocar reação de Moraes e de colegas de Corte, que já criticam publicamente ataques ao Judiciário e à Justiça Eleitoral. Lideranças do Congresso serão pressionadas a se posicionar sobre os limites da ofensiva contra o Supremo e sobre a viabilidade de uma anistia ao ex-presidente, temas que podem dominar o debate legislativo de 2026.

Enquanto isso, os processos que envolvem Jair Bolsonaro e aliados seguem seu curso no STF e em outras instâncias, com decisões previstas ao longo deste ano e do próximo. Cada avanço judicial tem potencial de reordenar alianças, reacender protestos de rua e influenciar o humor do eleitorado com poucos meses de antecedência da eleição.

A fala de Eduardo na CPAC sinaliza que o embate entre bolsonarismo e Judiciário permanece no centro da política brasileira e tende a se intensificar à medida que o calendário eleitoral avança. Resta saber se o país encontrará uma saída negociada para a crise ou se caminhará para uma nova rodada de choque entre instituições às vésperas da escolha do próximo presidente.

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