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Economia

Economia cresce, mas Lula terá desafio para manter bons resultados no novo mandato

Apesar da queda da Bolsa e da alta do dólar após a eleição, dados de emprego, renda e investimentos mostram avanços; especialistas alertam que o consumo das famílias pode não ser suficiente para sustentar o crescimento em 2027.

Economia cresce, mas Lula terá desafio para manter bons resultados no novo mandato

A economia brasileira apresenta indicadores positivos de emprego, renda e investimentos, apesar da forte reação negativa do mercado financeiro à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Enquanto a Bolsa de Valores registrou uma queda histórica e o dólar disparou após o segundo turno das eleições, economistas apontam que os números da atividade econômica não indicam, por si só, uma crise imediata no país.

Na segunda-feira (26), primeiro pregão após a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL), o dólar fechou cotado a R$ 5,40, com valorização de 8,21%. A Bolsa brasileira também sofreu perdas expressivas, levando à suspensão temporária das negociações. Parte dos investidores havia apostado em uma mudança de governo e precisou rever suas estratégias após o resultado eleitoral.

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O cenário, entretanto, apresenta uma contradição: enquanto o mercado demonstra preocupação com o futuro das contas públicas, indicadores recentes apontam crescimento econômico, desemprego baixo e aumento dos investimentos estrangeiros. Para especialistas, o principal desafio do novo mandato será manter esses resultados sem depender exclusivamente do consumo das famílias.

Reeleição de Lula: dólar dispara a R$ 5,60 e Bolsa despenca; o que acontece com a economia?

Por que a Bolsa caiu se a economia apresenta bons resultados?

A reação do mercado financeiro está relacionada principalmente às expectativas dos investidores sobre a política econômica que será adotada nos próximos quatro anos.

Antes da eleição, parte dos bancos, fundos e gestores de recursos considerava a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro, candidato que defendia uma agenda de maior contenção de despesas públicas.

Com a reeleição de Lula, investidores passaram a vender ações brasileiras e buscar proteção no dólar, provocando uma forte oscilação nos preços.

A economista Juliane Furno, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que o movimento foi influenciado pela frustração das expectativas políticas dos agentes financeiros, e não apenas pela situação atual da economia.

Na avaliação dela, a reação teve um componente especulativo e não deve ser confundida automaticamente com uma deterioração dos indicadores econômicos.

O economista Antonio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP, também considera que a disparada do dólar pode representar um ajuste pontual das posições dos investidores.

Isso não significa, porém, que as preocupações do mercado sejam inexistentes. A trajetória da dívida pública, o custo dos juros e a capacidade do governo de equilibrar receitas e despesas continuam entre os principais pontos de atenção.

Desemprego caiu e investimentos estrangeiros aumentaram

Os dados econômicos ajudam a explicar por que parte dos especialistas considera exagerada a reação inicial dos investidores.

Segundo o Banco Central, o Brasil recebeu US$ 88,3 bilhões em investimentos diretos no país durante os 12 meses encerrados em setembro de 2026.

Esse tipo de investimento envolve recursos destinados a atividades produtivas, como construção de fábricas, ampliação de empresas e aquisição de participações empresariais.

Somente em setembro, a entrada de investimentos diretos chegou a US$ 11,3 bilhões, o maior resultado para esse mês desde o início da série histórica, em 1995.

O mercado de trabalho também apresentou melhora.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego chegou a 5,3% em agosto de 2026. No encerramento de 2022, o indicador estava em 7,9%.

A expansão do emprego contribuiu para aumentar a renda das famílias e movimentar setores como comércio e serviços.

O Produto Interno Bruto (PIB), que mede a produção de bens e serviços do país, também registrou crescimento médio próximo de 3% ao ano no período recente.

Esses resultados indicam avanços na atividade econômica, embora não eliminem os desafios relacionados às contas públicas e à produtividade.

Inflação e pobreza também apresentaram redução

A recuperação da renda e o aumento do emprego foram acompanhados por uma redução dos indicadores de pobreza.

Segundo dados do IBGE, a parcela da população brasileira em situação de pobreza caiu de 31,6% em 2022 para 23,1% em 2024, último dado mencionado no levantamento.

A diferença representa aproximadamente 17,5 milhões de pessoas que deixaram essa condição no período.

A inflação também apresentou resultados inferiores aos registrados em momentos de maior pressão sobre os preços.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de inflação, acumulou uma média anual de aproximadamente 4,6% durante o mandato iniciado em 2023, segundo o levantamento apresentado pelo UOL.

Apesar disso, a redução da inflação não significa queda generalizada dos preços. Ela indica que o custo de vida passou a aumentar em ritmo menor.

Para as famílias, o poder de compra continua dependendo da relação entre salários, preços de produtos essenciais, juros e endividamento.

Consumo das famílias ajudou a economia a crescer

Um dos principais fatores responsáveis pelo crescimento econômico nos últimos anos foi o aumento do consumo das famílias.

Com mais pessoas empregadas e a recuperação da renda, houve maior circulação de dinheiro no comércio e nos serviços.

Programas de transferência de renda, reajustes do salário mínimo acima da inflação e expansão do emprego também contribuíram para sustentar a demanda por produtos e serviços.

Para Juliane Furno, o consumo interno é fundamental para estimular investimentos produtivos.

A lógica é que empresas tendem a ampliar suas operações quando identificam consumidores com renda suficiente para comprar seus produtos.

Nesse contexto, a economista defende a manutenção de investimentos públicos e questiona a ideia de que cortes de despesas sejam sempre a melhor alternativa para estimular a economia.

Segundo essa interpretação, uma redução excessiva dos investimentos pode enfraquecer a atividade econômica, diminuir a arrecadação de impostos e dificultar o próprio equilíbrio das contas públicas.

Economistas alertam que modelo de crescimento pode estar chegando ao limite

Apesar dos resultados positivos, especialistas avaliam que a estratégia de crescimento baseada principalmente no aumento do emprego e do consumo pode encontrar dificuldades nos próximos anos.

O economista Paulo Gala, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), considera que o Brasil precisará ampliar sua capacidade de produção para continuar crescendo.

Segundo ele, a redução do desemprego foi um dos principais motores da expansão econômica recente. Com a taxa de desocupação em patamar baixo, torna-se mais difícil repetir o mesmo ritmo de crescimento apenas pela criação de novas vagas.

O risco é que novos estímulos ao consumo aumentem a procura por produtos e serviços sem uma expansão equivalente da oferta.

Quando isso acontece, a pressão sobre os preços pode crescer, dificultando o controle da inflação.

Para Gala, o próximo mandato precisará priorizar investimentos em tecnologia, infraestrutura, inovação e modernização industrial.

O objetivo seria permitir que as empresas produzam mais e com maior eficiência, ampliando a oferta de produtos e reduzindo limitações ao crescimento.

Indústria e produtividade serão desafios para 2027

A ampliação da produção industrial aparece como uma das alternativas para sustentar o crescimento econômico.

Entre as iniciativas existentes está a Nova Indústria Brasil, política lançada em 2024 para estimular investimentos em setores considerados estratégicos.

O programa contempla áreas como transição energética, desenvolvimento tecnológico, indústria farmacêutica e produção de equipamentos de maior valor agregado.

Segundo dados citados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), entre 2023 e junho de 2026 foram mobilizados R$ 755,2 bilhões em crédito público e privado para aproximadamente 610 mil projetos.

Apesar do volume de recursos, economistas apontam que o custo dos financiamentos continua sendo um obstáculo para empresas que desejam modernizar suas operações.

Paulo Gala defende condições de crédito mais favoráveis para investimentos produtivos e inovação tecnológica.

Na avaliação do economista, ampliar a capacidade industrial pode reduzir a dependência de produtos importados e tornar a economia menos vulnerável às oscilações internacionais.

Dívida pública e juros continuam preocupando investidores

Enquanto alguns economistas defendem maior participação do Estado na promoção do crescimento, outros ressaltam os riscos de uma expansão dos gastos sem medidas capazes de estabilizar a dívida pública.

O endividamento bruto brasileiro está próximo de 83% do PIB, indicador acompanhado por investidores e instituições financeiras.

Estimativas da Instituição Fiscal Independente (IFI) apontam que seria necessário um ajuste expressivo nas contas públicas para estabilizar essa trajetória em 2027.

A preocupação é que o aumento da dívida eleve a percepção de risco do país, pressionando os juros e encarecendo o financiamento de empresas, famílias e do próprio governo.

Por outro lado, economistas que defendem maior investimento público argumentam que o crescimento econômico pode contribuir para melhorar a relação entre dívida e PIB, especialmente quando amplia a arrecadação.

O debate envolve, portanto, diferentes propostas para alcançar o equilíbrio fiscal sem comprometer o crescimento.

A definição das prioridades econômicas do próximo mandato será fundamental para indicar como o governo pretende enfrentar esse desafio.

O que pode mudar para o bolso dos brasileiros?

Para a população, os efeitos das decisões econômicas poderão ser percebidos principalmente nos preços, no emprego, nos salários e no acesso ao crédito.

Caso o dólar permaneça elevado por um período prolongado, produtos importados e matérias-primas compradas no exterior poderão ficar mais caros.

Isso pode pressionar os custos de produção e chegar aos preços de determinados produtos vendidos no Brasil.

Se a inflação aumentar, o Banco Central poderá manter os juros elevados por mais tempo, encarecendo financiamentos, empréstimos e compras parceladas.

Por outro lado, a continuidade dos investimentos produtivos e do crescimento econômico poderá favorecer a geração de empregos e a recuperação da renda.

O desafio será conciliar essas condições com a necessidade de manter as contas públicas em uma trajetória sustentável.

Próximos passos

Com a reeleição de Lula, as atenções se voltam para as medidas econômicas que serão adotadas a partir de 2027.

Entre os principais pontos acompanhados por economistas e investidores estão o planejamento fiscal, a trajetória da dívida pública, as políticas de incentivo à indústria e as condições de financiamento para empresas.

A reação negativa da Bolsa após a eleição não determina, isoladamente, o desempenho futuro da economia brasileira.

Da mesma forma, os indicadores positivos de emprego, renda e investimentos não garantem que o país conseguirá manter o crescimento no mesmo ritmo.

O próximo mandato terá o desafio de transformar a recuperação do consumo em investimentos capazes de aumentar a produtividade, ampliar a produção nacional e sustentar o crescimento econômico nos próximos anos.