Eagle acusa Textor de ‘sequestrar’ gestão da SAF do Botafogo
A crise societária do Botafogo ganha novo capítulo nesta terça (10/2), com uma petição da Eagle Bidco que acusa John Textor de “sequestrar” a gestão da SAF em conluio com o clube social. A empresa rejeita pedidos do associativo para incluir o americano como réu, recuperar R$ 155 milhões e nomear um interventor na Sociedade Anônima do Futebol.
Disputa pelo comando em meio a caos financeiro
O documento, revelado pelo “GE”, é protocolado em meio à escalada da briga pelo controle da SAF do Botafogo, no Rio de Janeiro. A petição é apresentada nos dias 10 e 12 de fevereiro de 2026 e tenta barrar a ofensiva do clube social, que vê desvalorização do ativo e pede intervenção judicial na administração do futebol.
A Eagle Bidco, veículo de investimento ligado à SAF, reage a três frentes abertas pelo associativo. O clube quer que Textor passe de testemunha a réu, que a Eagle seja obrigada a devolver R$ 155 milhões ao social e que a Justiça nomeie um interventor para assumir, ainda que provisoriamente, a gestão da empresa que controla o futebol alvinegro.
Na versão da Eagle, o inimigo principal não é apenas o empresário americano, mas a aliança que ele constrói com o presidente do clube social, João Paulo Magalhães Lins. A petição afirma que o poder de gestão da Eagle está hoje “sequestrado” por Textor, com “conivência decisiva e diária do Clube Associativo”.
O texto acusa o Botafogo social de ter mudado de lado de forma repentina e interessada. “A mudança repentina de postura do Clube Associativo não engana. O seu suposto arrependimento, além de extemporâneo, é fabricado tão somente para esta demanda”, afirma a empresa. A Eagle sustenta que o clube tenta agora “terceirizar a culpa por atos praticados em conluio com o Sr. Textor”.
Segundo a petição, enquanto Textor “dissemina na mídia mentiras e bravatas sobre ‘aportes’ na SAF Botafogo, mesmo sem possuir poderes para tanto”, a direção do clube social continua a tratá-lo como parceiro político. “O presidente do Clube Associativo, Sr. João Paulo Magalhães Lins, reuniu-se mais uma vez com o Sr. Textor e disse à imprensa que poderia apoiar mais uma das suas manobras”, reclama a Eagle.
Acusações cruzadas e impacto na SAF
Do lado do clube social, a linha de defesa aponta para outro foco: os sócios da Eagle. A diretoria associativa afirma que o valor da SAF desaba em meio à guerra interna entre investidores e ao confronto com Textor. Em manifestação citada pelo “GE”, o clube afirma que “está provado e comprovado nos autos que durante todos esses meses a situação financeira e administrativa da SAF se deteriora cada vez mais, por condutas praticadas pelos sócios da Eagle que se acusam mutuamente de desvios e fraudes”.
O embate jurídico chega ao ponto mais tenso desde a criação da SAF alvinegra. O modelo de Sociedade Anônima do Futebol, vendido ao torcedor como saída para o endividamento histórico do clube, hoje expõe seu lado mais frágil: a dependência da harmonia entre acionistas e do equilíbrio entre investidores e clube social.
As cifras mostram o tamanho do risco. O pedido de ressarcimento de R$ 155 milhões, defendido pelo associativo, é visto pela Eagle como “completamente descabido do ponto de vista processual”. Para a empresa, o Botafogo social “cooperou e contribuiu” para o “caos financeiro” instalado na SAF e não pode agora se apresentar como parte neutra. “Sem qualquer constrangimento, o Clube Associativo deu um passo atrás e reformulou toda a sua narrativa, fingindo-se de rogado para imprimir um falso senso de isenção na disputa”, acusa a petição.
O clima de desconfiança trava decisões estratégicas. Investimentos em elenco, negociação de patrocínios e eventual entrada de novos parceiros encontram um cenário judicial incerto. A simples possibilidade de um interventor judicial afastar momentaneamente os atuais gestores afasta investidores e embaralha o planejamento esportivo para a temporada.
Em campo, o elenco convive com um ambiente de instabilidade rara mesmo para padrões brasileiros. A disputa judicial coloca em xeque quem, de fato, manda na SAF, a quem o comando técnico responde e quem decide o rumo do futebol profissional. A incerteza atinge também o torcedor, que vê a marca Botafogo ser associada mais a despachos judiciais do que a resultados esportivos.
Risco de intervenção e incerteza sobre o futuro
Os próximos passos dependem das decisões da Justiça do Rio de Janeiro sobre os pedidos em conflito. Se o juízo aceitar a tese do clube associativo, Textor pode ser incluído como réu, a Eagle poderá ser cobrada judicialmente pelos R$ 155 milhões e um interventor pode assumir a rotina da SAF por prazo determinado. Qualquer uma dessas medidas significaria uma mudança brusca na correlação de forças dentro do Botafogo.
Se prevalecer a narrativa da Eagle, o associativo terá dificuldade para sustentar a imagem de vítima do processo. A Justiça pode entender que a atual direção do clube social participou das decisões que levaram ao quadro de deterioração financeira e rejeitar tanto o pedido de intervenção quanto a indenização bilionária em perspectiva, considerando correção e juros sobre os R$ 155 milhões reclamados.
Enquanto o processo avança, a desvalorização da SAF funciona como alerta para outros clubes que buscam investidores. A experiência alvinegra mostra que contratos complexos, acionistas em conflito e governança pouco clara podem transformar a promessa de salvação financeira em uma disputa prolongada por poder. A novela jurídica do Botafogo ainda não tem capítulo final, mas já deixa uma pergunta central: quem estará no comando quando a bola rolar pelas decisões mais importantes da temporada?
