Esportes

Eagle acusa Ares de tomada ilegal do Lyon e contesta interventor

A Eagle Football Holdings contesta, nesta sexta-feira (27), a nomeação unilateral de um administrador judicial para a Eagle Bidco e acusa a Ares Capital de tomar ilegalmente o controle do Olympique Lyonnais em 2025. A empresa promete cooperar com o interventor, mas afirma que vai à Justiça para responsabilizar a credora por ações que classifica como predatórias e ilegais.

Disputa aberta na Justiça dos EUA

O conflito ganha contornos públicos às 15h52 de 27 de março de 2026, com uma nota oficial divulgada em Palm Beach Gardens, na Flórida. No texto, a Eagle reage à decisão da Ares Capital Corporation e de outros credores de nomear, de forma unilateral, a consultoria Cork Gully LLP como administradora judicial da Eagle Football Holdings Bidco Limited, subsidiária britânica do grupo.

A contestação é registrada na Justiça da Flórida no mesmo dia e marca uma nova fase da disputa entre o grupo de investimentos em futebol e a credora americana. A Eagle enxerga na medida um movimento para tomar o controle de seus ativos mais valiosos, com destaque para o Olympique Lyonnais, principal clube europeu do portfólio. “Estamos profundamente ofendidos pela decisão unilateral e predatória da Ares Capital Corporation de desmantelar um negócio multiclubes financeiramente viável”, afirma a empresa na nota.

Lyon no centro da crise do modelo multiclubes

O embate vai além de um desacordo contratual entre devedor e credor. Em jogo está o modelo de negócios multiclubes, em que um mesmo grupo controla participações em diferentes times e tenta gerar eficiência financeira e esportiva. A Eagle sustenta que esse arranjo, em seu caso, transforma clubes em dificuldade em projetos sustentáveis e afirma projetar fluxo de caixa positivo em 2026 e nos anos seguintes.

Segundo a versão da Eagle, a ruptura começa em junho de 2025, quando a Ares teria assumido secretamente o controle do Olympique Lyonnais. A acusação é direta: a credora teria criado um conselho de administração paralelo no clube francês, à revelia da Eagle e dos acionistas minoritários. “Assumiram secretamente o controle do nosso clube francês, o Olympique Lyonnais, em junho de 2025, através da criação de um conselho de administração paralelo”, diz o comunicado. A companhia afirma que a manobra viola leis francesas e britânicas e configura uma mudança de controle não autorizada em uma empresa listada em bolsa.

Ares alega, segundo a Eagle, que vários “eventos técnicos de incumprimento” permitiriam a intervenção e a nomeação do administrador para a Eagle Bidco. Esses eventos seriam, em tese, quebras de cláusulas financeiras dos contratos de dívida. A Eagle rebate e afirma que a própria credora teria provocado esses gatilhos para justificar a tomada de controle. “A Ares claramente não está a iniciar o processo de insolvência com as mãos limpas”, dispara o grupo.

Impacto sobre investidores e governança de clubes

A disputa se desenrola em meio à expansão dos conglomerados esportivos pelo futebol europeu. Grupos que operam vários clubes em paralelo, como City Football Group e 777 Partners, redefinem o mercado há pelo menos uma década. O caso Eagle versus Ares adiciona um componente de risco jurídico a esse cenário e pode afetar a forma como financiadores estrangeiros entram no capital de times tradicionais.

Se a Ares conseguir consolidar o controle sobre a Eagle Bidco e, por consequência, sobre o Olympique Lyonnais, o precedente interessa a bancos e fundos que emprestam a empresas com forte concentração em ativos esportivos. O sucesso da tese de que “eventos técnicos de incumprimento” permitem intervir na gestão pode encorajar credores a agir de forma mais agressiva. Para a Eagle, o efeito prático seria o desmonte de um projeto considerado sustentável, com impacto direto em atletas, sócios, funcionários e fornecedores. A empresa sustenta que seus clubes apresentam ou projetam caixa positivo em 2026 e defende que o plano é capaz de preservar empregos e valor esportivo.

A insegurança se estende a investidores minoritários, especialmente em clubes listados em bolsa, como o próprio Lyon na Euronext. A acusação de criação de um conselho paralelo, sem transparência ao mercado, expõe fragilidades de governança em estruturas com múltiplos centros de poder. Reguladores franceses e britânicos podem ser pressionados a rever regras sobre mudança de controle, disclosure a acionistas e limites de influência de credores financeiros na gestão esportiva.

Próximos passos e disputa de longo prazo

No comunicado, a Eagle faz um gesto calculado. A companhia confirma que pretende colaborar com a Cork Gully LLP, apesar de contestar a nomeação. A estratégia é acompanhar de perto cada movimento do administrador, enquanto prepara ações para tentar reverter a intervenção e recuperar o comando da Eagle Bidco. “Esperamos trabalhar com o administrador para responsabilizar a Ares por suas ações e violações claras da lei, pois certamente esperamos retomar o controle de nossos negócios”, afirma o grupo.

Advogados especializados avaliam que casos desse tipo podem se arrastar por anos, especialmente quando envolve múltiplas jurisdições, como Estados Unidos, Reino Unido e França. O desfecho influenciará negociações futuras de financiamento para estruturas multiclubes e pode levar ligas, federações e autoridades do mercado de capitais a apertar a fiscalização. A briga entre Eagle e Ares revela uma fronteira ainda nebulosa entre capital financeiro e poder esportivo e deixa uma pergunta central em aberto: quem, de fato, deve ter a palavra final sobre o destino de um clube de futebol globalizado.

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