Duas faculdades de SC tiram nota 1 no Enamed e entram na mira do MEC
Duas faculdades de medicina de Santa Catarina recebem a pior nota possível no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Os resultados são divulgados nesta segunda-feira (19) pelo Ministério da Educação e acendem o alerta sobre a formação de novos médicos no Estado.
Universidade do Contestado e Estácio de Jaraguá do Sul na ponta negativa
A Universidade do Contestado, em Mafra, e a Faculdade Estácio, em Jaraguá do Sul, tiram nota 1 no Enamed 2025, conceito mais baixo da escala que vai de 1 a 5. O desempenho coloca as duas instituições catarinenses entre os 24 cursos de medicina do país avaliados com o pior índice no exame nacional.
O resultado sai em 19 de janeiro de 2026 e se soma a outro dado incômodo para o Estado: nenhuma instituição de Santa Catarina alcança a nota máxima. Entre os cursos avaliados, sete ficam com conceito 4, considerado bom, e oito recebem nota 3, desempenho mediano.
O Enamed é aplicado pelo Ministério da Educação em parceria com o Inep e com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). O exame começa a valer em 2025, com a promessa de se tornar avaliação anual e de unificar parâmetros usados no Enade de medicina e na prova objetiva do Exame Nacional de Residência (Enare).
Na prática, o governo federal cria um termômetro único para medir se os futuros médicos saem da faculdade com as competências e habilidades exigidas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais. A nota 1, nesse contexto, indica falhas graves na formação e pressiona as instituições a rever projetos pedagógicos, corpo docente e estrutura de atendimento.
Pressão regulatória e risco de punições
O Ministério da Educação afirma que cursos com conceitos 1 e 2 entram em processo de supervisão. O pacote de medidas inclui desde a suspensão ou redução de novas vagas até a proibição de acesso ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e a outros programas federais. O recado é que desempenho ruim não fica sem consequência administrativa.
O resultado nacional mostra um retrato heterogêneo. Dos 351 cursos avaliados, 24 recebem conceito 1 e 83 ficam com nota 2, abaixo do patamar considerado satisfatório. Outros 80 alcançam conceito 3, 114 obtêm 4 e 49 atingem a nota máxima, conceito 5. Um curso não recebe conceito por ter menos de 10 alunos avaliados.
Em Santa Catarina, o desempenho fraco de parte da rede lança dúvidas sobre a qualidade da formação em um momento de expansão acelerada de vagas em medicina no país. A nota baixa acende alerta para estudantes, famílias e gestores municipais que dependem de convênios universitários para manter serviços de saúde e estágios em hospitais e unidades básicas.
O ministro da Educação, Camilo Santana, reforça que o exame não é apenas um ranking. “Há uma grande preocupação nos ministérios da Educação e da Saúde em assegurar que os cursos oferecidos aos alunos brasileiros possam garantir a qualidade da formação médica nesse país, até porque são profissionais que cuidam da vida das pessoas”, afirma.
Os resultados individuais dos participantes saem em 12 de dezembro de 2025 e valem como critério adicional de classificação no Enare, porta de entrada para programas de residência médica. A nota final do processo de residência está prevista para 21 de janeiro de 2026, o que mantém a pressão sobre recém-formados em meio à repercussão negativa das notas institucionais.
Reação das faculdades e próximos capítulos
A Faculdade Estácio de Jaraguá do Sul contesta o resultado. A instituição afirma que identifica uma “divergência de dados entre o que o Inep apresentou em dezembro do ano passado e os usados na divulgação nacional”. Segundo nota enviada, a diferença pode “mudar a situação de diversas instituições”, e a faculdade diz estar “momentaneamente impossibilitada de passar uma análise, até que tenhamos um esclarecimento sobre o tema”.
A Universidade do Contestado adota outro tom e trata o conceito 1 como episódio isolado. Em comunicado, a UNC classifica o resultado como “situação pontual, relacionada a um ciclo específico de avaliação, que não retrata a realidade do curso”. A instituição afirma que, na última avaliação feita pelo Inep, o desempenho do curso fica “dentro da média”.
A universidade informa que espera o acesso detalhado aos dados do Enamed para conduzir uma análise técnica e apresentar recurso, como preveem os reguladores. “A UNC reafirma seu compromisso com a qualidade da formação médica, a melhoria contínua dos processos acadêmicos e a responsabilidade com a comunidade atendida”, diz a nota.
As duas instituições entram agora em um rito que combina pressão política, técnica e social. Formalmente, o MEC diz ao g1 que as universidades terão prazo para apresentar defesa antes da definição das medidas de supervisão. Na prática, cada dia de incerteza aumenta a ansiedade de estudantes que cursam medicina nessas faculdades e temem restrições à emissão de diplomas, à residência ou ao acesso a bolsas e financiamentos.
O debate sobre o Enamed extrapola os muros das universidades catarinenses. A criação do exame ocorre após anos de críticas à proliferação de cursos privados de medicina, à abertura de vagas em regiões sem estrutura hospitalar adequada e à falta de um controle mais rigoroso de qualidade. Ao colocar em números o desempenho de 351 cursos logo na primeira edição, o MEC inaugura uma ferramenta que tende a influenciar decisões de matrícula, estratégias de expansão e, em casos extremos, a própria sobrevivência de faculdades.
O governo federal sustenta que o objetivo central é diagnóstico e melhoria contínua, não punição automática. Na prática, porém, a combinação de nota baixa, supervisão e risco de cortes em programas como o Fies funciona como incentivo forte para reformas curriculares e investimentos em infraestrutura. Em Santa Catarina, a ausência de qualquer curso com conceito 5 adiciona uma camada simbólica: o Estado, que costuma exibir bons indicadores sociais, não figura no topo da formação médica na estreia do novo exame.
Os próximos meses devem ser decisivos para a UNC de Mafra e para a Estácio de Jaraguá do Sul. As instituições prometem contestar, explicar e ajustar o que for necessário para tentar reverter o quadro nas próximas edições do Enamed. Enquanto MEC e Inep analisam recursos e afinam a metodologia, a comunidade acadêmica acompanha de perto um teste que não mede apenas o desempenho de alunos, mas a capacidade do país de garantir médicos bem formados para o sistema de saúde nos próximos anos.
