Duas equipes dizem achar sonda soviética Luna 9 em imagens da Lua
Duas equipes independentes afirmam, em 2026, ter localizado os restos da Luna 9, primeira sonda soviética a pousar suavemente na Lua em 1966. Elas divergem, porém, sobre o ponto exato onde a espaçonave repousa na superfície lunar.
Disputa em torno de um robozinho de 1966
A Luna 9 cabe em uma bola de praia, mede cerca de 60 centímetros de diâmetro e marcou a história em 3 de fevereiro de 1966, quando enviou a primeira foto tirada da superfície de outro corpo celeste. O pouso soviético ajudou a destravar a corrida à Lua, mas o local exato da sonda se perde nos registros imprecisos da época. Sessenta anos depois, essa lacuna mobiliza geólogos, engenheiros e amadores em torno de imagens de alta resolução produzidas em órbita lunar.
O caso ganha força agora porque duas equipes, trabalhando de forma independente, apontam regiões diferentes para o repouso da Luna 9 com base em fotos do Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), da Nasa, em operação desde 2009. Uma delas aposta na leitura paciente de pixels feita por voluntários e por um entusiasta russo exilado; a outra confia em um algoritmo de aprendizado de máquina treinado para farejar artefatos humanos na superfície da Lua.
Caçada pixel a pixel e o olho das máquinas
De um lado está Vitaly Egorov, divulgador científico nascido na Rússia, hoje vivendo em Montenegro após deixar o país por se opor à invasão da Ucrânia. Há anos ele vasculha as imagens do LRO em busca de vestígios da Luna 9. No ano passado, decidiu ampliar a escala da caçada: assumiu que os cálculos soviéticos de 1966 podiam errar dezenas de quilômetros e passou a examinar uma região de cerca de 100 quilômetros de largura.
Ele transmitiu ao vivo sessões de busca, convidou o público a examinar as imagens e recorreu ao LROC QuickMap, espécie de “Street View” lunar que transforma dados orbitais em um mapa navegável. Ao mesmo tempo, comparou quadro a quadro os panoramas enviados pela própria Luna 9, em 1966, com o contorno de morros e crateras captados do alto. “Um dia, a paisagem pareceu familiar”, contou por mensagem. “Eu ‘olhei ao redor’ e percebi que era o mesmo lugar que a Luna 9 tinha visto.”
Egorov diz estar “razoavelmente confiante” de que encontrou a região certa, embora não consiga apontar, no meio da poeira, qual pixel representa de fato o corpo metálico da sonda. Reconhece a margem de erro: “Não descarto um erro de alguns metros”, afirma. Para transformar a suspeita em evidência, ele depende agora de um olhar mais preciso vindo da Índia.
Enquanto Egorov convocava voluntários, uma equipe liderada por Lewis Pinault, pesquisador do Centro de Ciências Planetárias da University College London/Birkbeck, seguia outro caminho. O grupo treinou um algoritmo batizado de You-Only-Look-Once – Extraterrestrial Artefact (YOLO-ETA). Em vez de vasculhar manualmente, alimentou a máquina com imagens de locais de pouso já conhecidos, como as áreas das missões Apollo, e pediu que ela aprendesse a distinguir o que é rocha natural do que é sucata humana.
Nos dados do LRO, o sistema destacou vários pontos suspeitos, a poucos quilômetros das coordenadas oficiais soviéticas. Um deles chamou a atenção da equipe: um ponto brilhante, que pode ser a esfera da Luna 9, aparece ao lado de dois traços mais escuros, que lembram as metades do airbag usado para amortecer o pouso. “No mínimo, detectamos um artefato desconhecido”, resume Pinault. “Estou muito otimista de que, talvez, possa ser a Luna 9.”
A ambição do pesquisador vai além da arqueologia soviética. Pinault é cientista afiliado ao Instituto SETI, voltado à busca por inteligência extraterrestre, e vê o YOLO-ETA como ferramenta para localizar qualquer objeto artificial que não combine com o entorno, na Lua ou em outros corpos do Sistema Solar. “Isso é um pouco da minha obsessão”, admite.
Arqueologia espacial e legado da corrida à Lua
A disputa entre os dois candidatos evidencia a dificuldade de resolver mistérios herdados da corrida espacial dos anos 1960. Anatoly Zak, jornalista especializado e autor do site RussianSpaceWeb.com, lembra que vários artefatos lunares do período pré-Apollo não têm posição exata conhecida. “Uma delas está errada”, diz sobre as duas localizações propostas para a Luna 9, ressaltando que a resolução atual dos satélites não basta para bater o martelo.
O geólogo planetário Mark Robinson, da empresa Intuitive Machines e responsável pela câmera do LRO, resume o dilema técnico. A Luna 9 é um alvo minúsculo em imagens que enxergam detalhes de poucos metros quadrados. “A Luna 9 é um veículo muito, muito pequeno”, afirma. “Você pode ficar olhando para uma imagem e pensar que talvez seja isso, mas não dá para ter certeza.”
Especialistas que acompanham a busca concordam que nenhuma das hipóteses é conclusiva. O professor Philip Stooke, da Universidade de Western Ontario, que mapeou diversos artefatos lunares, orienta as duas equipes e cobra evidências mais claras. “As partes do sistema de pouso da espaçonave deveriam ser visíveis — tinha cinco componentes — e normalmente um local de pouso também mostra uma mancha brilhante onde os propulsores sopram a poeira”, escreveu por e-mail. Ele considera que nenhum dos pontos cumpre esse roteiro por completo, embora veja o cenário de Egorov como “melhor”.
Jeffrey Plescia, cientista planetário do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, segue a mesma linha. Para ele, a coincidência entre o horizonte visto pela Luna 9 e o terreno sugerido por Egorov pesa a favor do russo. “Acho que ele tem um bom argumento”, diz. “Mas não sei como você provaria isso sem imagens de maior resolução.”
Por trás da disputa científica está o valor simbólico da pequena esfera soviética. Em 1966, ainda havia quem temesse que a Lua fosse coberta por uma camada de poeira fofa, capaz de engolir qualquer nave. O pouso bem-sucedido da Luna 9, no Mar das Tempestades, forneceu a prova concreta de que era possível pousar, caminhar e decolar de volta. Sem essa certeza, os seis pousos tripulados das missões Apollo, entre 1969 e 1972, talvez não saíssem do papel.
Olhar indiano, novas naves e o futuro da Lua
A próxima palavra nessa história deve vir da Índia. O orbitador Chandrayaan-2, em torno da Lua desde 2019, leva uma câmera com resolução um pouco superior à do LRO. Cientistas indianos se comprometem a registrar a área proposta por Egorov em março de 2026. Se algum brilho metálico aparecer com nitidez, a busca ganha um candidato preferencial. Se nada se destacar, o mistério continua aberto e volta para a mesa dos algoritmos de Pinault.
Arqueólogos espaciais veem nesse esforço algo maior do que a simples curiosidade sobre um robô de meia tonelada lançado em 31 de janeiro de 1966. A localização da Luna 9, e possivelmente de sua irmã Luna 13 e de peças esquecidas das sondas Surveyor e das missões Apollo, alimenta um novo campo de pesquisa dedicado a mapear o patrimônio humano fora da Terra. Cada parafuso encontrado ajuda a contar, com dados e coordenadas, como a tecnologia espacial evolui em seis décadas.
O interesse renovado também aproxima gerações. Imagens em alta definição permitem comparar motores soviéticos dos anos 1960 com aterrissagens privadas da década de 2020, como as da Intuitive Machines e da Firefly, que prepara a espaçonave Elytra. Pesquisadores falam em usar essa arqueologia orbital para calibrar modelos de desgaste de materiais, planejar futuras bases lunares e até definir zonas de proteção, em acordos internacionais, para que os primeiros locais de pouso não sejam destruídos por novos veículos.
Egorov, que teve a vida atravessada pela decisão de deixar a Rússia, vê nessa caçada algo de reparador. “Espero que meu trabalho encoraje pelo menos alguém a olhar para as estrelas, a Lua e Marte, e admirar não apenas sua beleza, mas também nossa capacidade de explorá-los”, diz. Enquanto o Chandrayaan-2 não envia suas novas imagens, a Lua permanece com seus segredos à vista, mas ainda ligeiramente fora de foco — e a pergunta sobre onde exatamente repousa a Luna 9 continua a impulsionar telescópios, computadores e imaginações.
