Dono do Banco Master troca advogado e avalia delação premiada no STF
O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, troca sua defesa nesta sexta-feira (13) e passa a avaliar um acordo de delação premiada. A mudança ocorre em meio à manutenção de sua prisão preventiva pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e à maior crise bancária recente no país.
Virada na defesa em meio à crise do Banco Master
A substituição de Pierpaolo Bottini por José Luís Oliveira Lima, o Dr. Juca, marca uma guinada na estratégia de Vorcaro. Preso preventivamente desde 4 de março, o empresário tenta reagir ao cerco judicial que se fecha desde a liquidação extrajudicial do Banco Master, em novembro do ano passado.
Bottini resiste ao uso da delação como instrumento de defesa e deixa o caso após a Segunda Turma do STF formar maioria para manter a prisão do banqueiro. O relator André Mendonça é acompanhado por Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. Dias Toffoli se declara suspeito, e ainda falta o voto do presidente da Corte, Gilmar Mendes, mas o resultado já está definido.
José Luís Oliveira Lima constrói sua reputação justamente na negociação de colaborações premiadas em casos de grande repercussão. Ele também representa o general Walter Braga Netto, condenado a 26 anos de prisão por participação na trama golpista de 8 de janeiro. A entrada de um criminalista com esse perfil sinaliza, nos bastidores, que Vorcaro está disposto a falar.
Nos dias seguintes à sua primeira prisão, em novembro, o dono do Master já havia sondado investigadores da Procuradoria-Geral da República (PGR) e da Polícia Federal (PF) sobre um possível acordo. As conversas seguem em estágio inicial. Segundo revelou o portal UOL, nem sequer há termo de confidencialidade assinado, documento que costuma inaugurar formalmente esse tipo de negociação.
Fraudes, liquidação e o impacto bilionário no sistema financeiro
O caso Master ganha peso por combinar suspeitas de fraude financeira com um risco sistêmico raro no país. Em 18 de novembro, o Banco Central determina a liquidação extrajudicial do Banco Master S/A, do Banco Master de Investimentos S/A, do Banco Letsbank S/A e da Master S/A Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários. O órgão aponta indícios de irregularidades graves e uma crise de liquidez que já não pode ser contida.
No mesmo dia, a Polícia Federal deflagra a Operação Compliance Zero, focada na emissão de títulos de crédito falsos por instituições do Sistema Financeiro Nacional. Temendo fuga, investigadores prendem Vorcaro um dia antes da ofensiva. Ele sai com tornozeleira eletrônica, mas volta à prisão em 4 de março, quando o quadro do banco se deteriora de forma irreversível.
As investigações indicam que o Master oferece Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) com rentabilidade muito acima da média de mercado. Para cumprir essa promessa, o banco assume riscos crescentes e monta operações que inflariam artificialmente o balanço, enquanto a liquidez encolhe. Em linguagem simples, o banco se apresenta mais forte do que realmente é, até que o fluxo de recursos não suporta mais o jogo.
O braço digital do conglomerado, o Will Bank, é encerrado compulsoriamente em 21 de janeiro. Dias antes, em 17 de janeiro, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) começa a ressarcir clientes do Banco Master, do Banco Master de Investimento e do Letsbank. O valor potencial de garantias chega a R$ 40,6 bilhões, cifra que dimensiona o tamanho da quebra e ajuda a explicar a apreensão de reguladores e investidores.
O episódio se soma à liquidação da gestora de investimentos Reag, em 15 de janeiro, e se torna um dos mais graves da história recente do sistema financeiro brasileiro. As duas crises expõem fragilidades de supervisão, alimentam desconfiança de poupadores e tensionam a relação entre STF, Tribunal de Contas da União (TCU), Banco Central e Polícia Federal.
Delação pode redesenhar investigação e mexer com mercado
Uma eventual colaboração de Vorcaro tende a ir além do relato de operações internas do banco. Investigadores esperam, caso o acordo avance, nomes de parceiros de negócio, intermediários financeiros e eventuais autoridades complacentes com práticas irregulares. O alcance dessa delação pode atingir outros bancos médios, gestoras de recursos e figuras políticas que orbitam o mercado de capitais.
A defesa sabe que, diante da prisão mantida pelo STF e do estrago já consolidado no grupo Master, a delação pode ser o último trunfo para reduzir penas e preservar parte do patrimônio. O custo político de um acordo desse porte, no entanto, é alto. Cada nova revelação tem potencial de aprofundar a crise de confiança no sistema bancário, justamente em um momento em que milhões de investidores acompanham, com apreensão, o pagamento das garantias do FGC.
Para o Banco Central e o próprio governo, o avanço das investigações se equilibra em uma linha delicada. Um mapeamento completo das fraudes ajuda a fechar brechas regulatórias e punir responsáveis, mas também expõe falhas de supervisão e pressiona por mudanças na regulação de produtos de alto rendimento, como CDBs turbinados para investidores de varejo.
No curto prazo, a prioridade é concluir o processo de liquidação, acelerar o ressarcimento a correntistas e investidores e evitar um efeito dominó sobre outras instituições. No médio prazo, o caso tende a alimentar debates no Congresso sobre limites de alavancagem, transparência de balanços e poder de intervenção do Banco Central em bancos de porte médio.
Próximos passos no STF e nas negociações de delação
Com a maioria já formada na Segunda Turma, o STF deve apenas formalizar a manutenção da prisão de Vorcaro. O voto pendente de Gilmar Mendes não altera o resultado, mas pode sinalizar o tom que o tribunal pretende adotar em relação a casos de risco sistêmico no sistema financeiro. A Corte acompanha de perto a evolução da Operação Compliance Zero e o desdobramento da liquidação do Master.
No campo criminal, o primeiro movimento da nova defesa será retomar, de forma estruturada, as conversas com PGR e PF sobre um acordo de colaboração. A assinatura de um termo de confidencialidade marcará o ponto de não retorno dessa estratégia. A partir daí, cada anexo da delação pode abrir uma nova frente de investigação, com impacto direto em reguladores, mercado e classe política.
O desfecho das tratativas com Vorcaro ajuda a definir não só o futuro do banqueiro, mas também a resposta institucional a uma das maiores quebras bancárias do país. A questão, agora, é até onde ele está disposto a ir para trocar anos de prisão por uma redução de pena, e quanto o sistema financeiro aguenta ouvir sem abalar de vez a confiança de quem guarda seu dinheiro nos bancos.
