Dithered resgata clima de Alice Madness Returns em terror para PC
A desenvolvedora independente Bugged Games anuncia Dithered, sucessor espiritual de Alice Madness Returns, previsto para chegar ao PC em 2026 com foco em terror psicológico.
Um novo mergulho em traumas e distorções
Dithered coloca o jogador no controle de Penelope, uma criança presa em um limbo surreal que transforma lembranças em cenários hostis. O anúncio reacende, de imediato, a discussão sobre o vazio deixado pela série Alice, que permanece paralisada mesmo após anos de campanha dos fãs. Ao assumir explicitamente o papel de sucessor espiritual, a Bugged Games mira um público fiel e órfão, mas tenta evitar a simples imitação.
O jogo se afasta da ação acelerada de Alice Madness Returns e aposta em um ritmo mais calculado. Cada ataque, esquiva ou habilidade consome resistência e força o jogador a medir riscos. O combate depende da gestão de recursos, conceito comum em RPGs e jogos táticos, mas aqui aplicado a um universo mais intimista, centrado em trauma infantil e na forma como a mente reorganiza memórias dolorosas.
Visual “dithered” e narrativa em múltiplos caminhos
O nome Dithered nasce da proposta estética central. A equipe combina modelos tridimensionais de baixa complexidade, os chamados low-poly, com texturas granuladas e degradadas que lembram imagens antigas, comprimidas demais. Esse ruído visual cria a sensação de memória falha, como se cada cenário fosse uma lembrança prestes a se desfazer. A escolha não é apenas estilística: o mundo parece literalmente em decomposição, em sintonia com a psique fragmentada de Penelope.
Essa abordagem aproxima o projeto de produções independentes que usam limitação gráfica como linguagem, não como obstáculo técnico. Ao invés de perseguir realismo, Dithered assume um visual imperfeito e o transforma em comentário sobre percepção e instabilidade emocional. Em um mercado em que grandes estúdios competem por resoluções em 4K e traçado de raios, a aposta em ruído, falhas e baixa definição funciona como contraste deliberado.
Na história, Penelope recebe conselhos de duas aves, Coco e Molly, que atuam como guias e disputam a confiança da protagonista. As escolhas do jogador sobre qual voz seguir, em cada trecho da jornada, definem o rumo da narrativa. A Bugged Games promete finais diferentes e mudanças significativas de percurso, algo que aproxima o jogo de aventuras narrativas, mas sem sistemas complexos de atributos ou tabelas de experiência típicas de RPGs tradicionais.
Herança de Alice e impasse com a franquia original
O anúncio de Dithered chega após mais de uma década de frustração para quem acompanha o universo de Alice. O último jogo da série, Alice Madness Returns, sai em 2011 e se torna referência em estética sombria e releitura violenta de um clássico infantil. Desde então, o criador American McGee tenta tirar do papel Alice: Asylum, projeto que chega a ser detalhado em documentos de dezenas de páginas, mas não recebe sinal verde.
A Electronic Arts continua detendo os direitos da franquia, herdados da extinta Spicy Horse, estúdio que desenvolve a série desde o ano 2000. A combinação de controle corporativo e fechamento de estúdio trava qualquer avanço concreto. Campanhas de financiamento coletivo surgem, esboços de roteiro circulam, mas o jogo nunca entra em produção oficial. Nesse vácuo, a expectativa migra para obras que dialogam com o mesmo imaginário, mesmo sem usar o nome Alice.
Dithered ocupa exatamente esse espaço. A Bugged Games não tem a marca, nem o orçamento de um grande publisher, mas aposta em liberdade criativa. A promessa é entregar um mundo menos colorido e mais próximo do terror psicológico, sem as concessões de aventura de ação que marcam a franquia original. A infância distorcida continua no centro, agora filtrada por um limbo que reflete traumas específicos de Penelope, e não de uma personagem consagrada na literatura.
Impacto para o mercado indie e para os fãs de terror psicológico
A decisão de lançar Dithered exclusivamente para PC, pelo menos neste primeiro momento, revela um recorte claro de público. O foco está em jogadores acostumados a produções independentes mais experimentais, que consomem demos em plataformas digitais e acompanham projetos por anos antes do lançamento. O calendário aponta 2026, prazo que dá à Bugged Games cerca de dois anos para refinar combate, narrativa ramificada e a direção de arte baseada em ruído e degradação.
A aposta conversa com uma fase em que jogos independentes de terror psicológico ganham visibilidade em festivais digitais e listas de mais vendidos. Títulos pequenos, muitas vezes feitos por equipes de menos de dez pessoas, atingem milhões de downloads com orçamentos bem abaixo do padrão das grandes editoras. Dithered tenta se inserir nesse circuito com uma vantagem simbólica: o vínculo afetivo com quem acompanha Alice desde os anos 2000.
Para esses jogadores, o anúncio funciona quase como um gesto de reparação. Sem acesso a um novo capítulo oficial, recebem a perspectiva de uma experiência que resgata temas e sensações do passado, mas com linguagem própria. Para o mercado, o movimento reforça a tendência de sucessores espirituais, em que pequenas equipes retomam ideias abandonadas pela indústria tradicional e as reembalam em formatos mais enxutos, porém autorais.
O que esperar até 2026
A Bugged Games ainda não detalha preço, janela de lançamento dentro de 2026 ou eventuais versões para consoles. A expectativa é que um primeiro trailer de jogabilidade apareça nos próximos meses, acompanhado de testes limitados com uma fatia do público. Um período de acesso antecipado, em plataformas como Steam, surge como possibilidade concreta em um cenário em que estúdios menores precisam financiar o desenvolvimento passo a passo.
Até lá, a principal dúvida recai sobre o equilíbrio entre ambição estética e recursos disponíveis. O sistema de combate baseado em gestão de resistência, a narrativa de múltiplos caminhos e o visual dithered exigem polimento para evitar frustração. Se conseguir transformar essas promessas em experiência consistente, Dithered pode não apenas preencher o vazio deixado por Alice Madness Returns, mas abrir espaço para uma nova leva de jogos que tratam trauma e infância com a mesma seriedade que epopeias de ficção científica tratam planetas e guerras intergalácticas.
