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Disputa por Groenlândia acirra corrida militar e mineral no Ártico

Estados Unidos, aliados da Otan, Rússia e China intensificam em 2026 a disputa estratégica pela Groenlândia, peça central da nova corrida militar e mineral no Ártico. Em negociações sigilosas, Washington discute com a Dinamarca a ampliação de bases e garantias de segurança na ilha, enquanto Moscou fortalece sua presença militar na região polar.

Ilha gelada vira eixo da segurança entre EUA, Otan e Rússia

Uma camada de gelo de até 3 quilômetros cobre mais de 80% da Groenlândia. A paisagem inóspita, que registrou -69,6 ºC em 1991, contrasta com o calor das negociações diplomáticas que cercam a ilha de 56 mil habitantes. No ano em que o Ártico entra de vez no centro da segurança internacional, Washington e seus aliados discutem como transformar o território em escudo estratégico contra Rússia e, indiretamente, China.

O vice-presidente americano, JD Vance, admite que os Estados Unidos arrancam concessões discretas de parceiros europeus. “Definitivamente, conseguimos muito mais do que inicialmente”, afirma, sem detalhar o que foi colocado na mesa. Ele diz que a “estrutura de um futuro acordo” apresentada por Donald Trump no mês passado favorece Washington e consolida um novo arranjo de defesa no extremo norte.

Trump insiste há anos que a Groenlândia é “vital” para seu projeto de Domo de Ouro, um escudo antimísseis que ele promete concluir até o fim do mandato. Em Davos, o republicano afirma que “não usará força” para controlar a ilha, recuando do tom de 2019, quando falava em conquistar o território “de um jeito ou de outro”. Nos bastidores, porém, diplomatas confirmam que a pressão americana acelera conversas antes tratadas como tema de longo prazo na Otan.

As discussões incluem, segundo o New York Times, a possibilidade de a Dinamarca ceder soberania sobre pequenas áreas da Groenlândia para novas bases norte-americanas. Washington já opera ali uma instalação criada nos anos 1950, hoje voltada à vigilância de mísseis. Um acordo de cooperação de defesa assinado naquela década garante aos EUA o direito de construir estruturas militares na ilha para proteger o Atlântico Norte.

O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, reforça o recado de que os aliados “irão aumentar a segurança no Ártico” e diz que qualquer entendimento com Washington exigirá contrapartidas europeias. Na prática, a Groenlândia se torna ponto de encontro entre os interesses dos Estados Unidos e os temores de países escandinavos, recém-ingressos na aliança após a invasão russa da Ucrânia, em 2022.

Recursos minerais e rotas marítimas movem a corrida

O gelo que isola a Groenlândia também encobre o que pode ser um tesouro mineral. Estudos indicam reservas significativas de níquel, lítio, cobre e grafite, além de depósitos de 38 dos materiais classificados como críticos por União Europeia e Estados Unidos. Pesquisas sugerem ainda que até um quarto das reservas globais de terras-raras, essenciais para carros elétricos, turbinas eólicas e eletrônicos, pode estar sob o solo da ilha.

Trump nega qualquer interesse nesses minérios, mas especialistas veem outra história. “Essa questão toda se resume aos minerais críticos”, afirma Gabriella Gricius, pesquisadora do Instituto Ártico. Ela lembra que a dependência americana de importação de alguns desses insumos, como grafite e zinco, se aproxima de 100%. A Groenlândia surge como alternativa à dominância chinesa nas cadeias de tecnologia limpa e defesa.

O valor estratégico da ilha não se limita ao subsolo. A localização entre América do Norte, Europa e Rússia a transforma em plataforma ideal para radares e interceptores de mísseis. A poucos milhares de quilômetros da Lacuna GIUK, passagem marítima entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido, a ilha ajuda a controlar o corredor usado por submarinos que deixam o Ártico em direção ao Atlântico. A rota é vigiada desde a 2ª Guerra, quando os EUA montam ali uma base para caçar submarinos nazistas.

O aquecimento global amplia o interesse. Com o derretimento do gelo marinho, novas rotas de navegação surgem entre o norte da Rússia e o Atlântico. “Grande parte do gelo marinho desapareceu. O Ártico está começando a se abrir para uso marítimo, tanto civil quanto, potencialmente, militar”, afirma Marc Lanteigne, professor da Universidade Ártica da Noruega. Ele alerta para “grande receio de que navios russos e, potencialmente, chineses” passem a usar esses corredores.

Mesmo assim, não há evidência de presença militar russa ou chinesa na Groenlândia, ao contrário do que a Casa Branca sugere. “A Rússia não tem interesses militares perto da Groenlândia”, diz Lanteigne. Segundo ele, navios dinamarqueses e da Otan patrulham a região de forma intensa, o que tornaria uma aproximação furtiva “extremamente difícil e pouco vantajosa”. A cooperação entre Moscou e Pequim no Ártico, por ora, se concentra em gás natural, rotas comerciais e exercícios navais de demonstração.

Militarização pressiona Moscou e reacende debate de independência

Do lado russo, a resposta vem com números. Moscou controla 53% do litoral do Oceano Ártico e mantém entre 30 e 40 bases militares na região. A Frota do Norte, maior força naval do país, está sediada em Severomorsk e concentra boa parte das ogivas nucleares embarcadas da Marinha. Em 2020, o Kremlin inaugura a base Trevo Ártico, na Terra de Alexandra, apresentada como o posto militar mais ao norte do planeta, capaz de abrigar 150 militares com defesa antiaérea.

Desde o início dos anos 2000, Vladimir Putin conduz uma revitalização militar e econômica no extremo norte. A invasão da Ucrânia, em 2022, acelera esse movimento. Em novembro passado, o senador Andrei Khapochkin resume o tom em artigo no jornal oficial Rossiyskaya Gazeta: “A Rússia não permitirá que ninguém a prive de seu futuro. Provamos isso em Donbas e provaremos no Ártico, se necessário”. A frase ecoa em capitais ocidentais como sinal de que o Kremlin está disposto a disputar, se for preciso, cada milha de gelo.

A escalada também repercute dentro da Groenlândia. A ilha, integrada oficialmente ao Reino da Dinamarca em 1953, conquista autonomia em 1979 e amplia poderes em 2009, após novo referendo. Pesquisas recentes apontam que entre 70% e 85% da população apoia a independência em algum momento. O avanço de negociações militares com os Estados Unidos reacende temores de que acordos estratégicos sejam firmados sem que a sociedade groenlandesa defina, antes, seu próprio futuro político.

Partidos pró-independência veem risco de a ilha virar plataforma de disputa entre potências sem controle local sobre bases e contratos de exploração mineral. Em Copenhague, diplomatas tentam equilibrar a pressão americana, os compromissos com a Otan e a sensibilidade interna em Nuuk, onde o governo regional quer mais voz em qualquer acordo que afete o território. Cada nova revelação sobre cessão de áreas ou ampliação de instalações militares alimenta o debate sobre soberania.

No tabuleiro global, empresas de tecnologia, fabricantes de veículos elétricos e investidores em energia limpa acompanham a disputa com atenção. A forma como EUA, Europa, Rússia e China repartirem rotas e minérios do Ártico pode mexer em preços, abastecimento e cadeias produtivas nas próximas décadas. “Se um país acredita que pode tomar qualquer coisa que beneficia sua segurança, por que não faríamos o mesmo?”, provoca Konstantin Remchukov, editor-chefe do jornal russo Nezavisimaya Gazeta, ao comentar as ambições americanas na Groenlândia.

Governos da região admitem em privado que a militarização do Ártico já é irreversível. A disputa agora é por regras, limites e garantias de que uma crise local não detonará um choque direto entre potências nucleares. Enquanto Trump fala em domos antimísseis e Putin exibe novas bases em ilhas remotas, a pequena Groenlândia precisa decidir se deseja continuar como território autônomo sob a bandeira dinamarquesa ou se arrisca a independência em meio à maior corrida geopolítica da era pós-Guerra Fria.

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