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Discussão por licitação termina em morte de dois médicos em Alphaville

Dois médicos concorrentes em contratos de gestão hospitalar são mortos a tiros na noite de 16 de janeiro de 2026, em um restaurante de Alphaville, na Grande São Paulo. O atirador é outro médico do mesmo segmento, preso em flagrante após voltar armado ao local.

Briga em restaurante expõe disputa milionária na saúde

O crime ocorre em um dos endereços mais movimentados de Alphaville, bairro de alto padrão na Região Metropolitana de São Paulo. A discussão começa dentro do restaurante, diante de clientes e funcionários, e termina em execução na calçada, sob a mira de câmeras de segurança. Em poucos minutos, uma disputa de negócios na saúde se transforma em duplo homicídio.

As vítimas são o cardiologista Luís Roberto Pellegrini Gomes, de 43 anos, e o médico Vinicius dos Santos Oliveira, de 35. Os dois atuam em serviços públicos da região: Luís Roberto trabalha em um hospital municipal de Barueri, e Vinicius atende em unidades de saúde de Cotia. O atirador, identificado como Carlos Alberto Azevedo Silva Filho, de 44 anos, também é médico e sócio da prestadora de serviços Cirmed Brasil.

Em entrevista ao programa Brasil Urgente, da TV Band, o delegado responsável pelo caso, Andreas Schiffmann, afirma que uma disputa por contratos de licitação para gestão hospitalar está entre as principais linhas de investigação. “Todos eles são médicos e donos de duas empresas concorrentes de gestão hospitalar. Esses desentendimentos já vinham ocorrendo há algum tempo e sempre eram relacionados a contratos de licitação que eles disputavam. No fundo, tudo corria em torno do dinheiro que esses contratos podiam gerar”, diz.

O encontro entre os três não está previamente combinado, segundo a polícia. Carlos já está sentado em uma mesa na parte externa do restaurante quando Luís Roberto e Vinicius chegam e aguardam em mesas de espera. As imagens mostram o momento em que ele se levanta, cumprimenta os dois e, em seguida, inicia uma discussão acalorada.

A Guarda Civil Metropolitana faz uma revista em Carlos durante a confusão e confirma que ele está desarmado naquele momento. Funcionários e clientes tentam apartar a briga depois que o médico agride Luís Roberto e entra em luta corporal com Vinicius. As imagens registram o tumulto, mas não revelam ainda como a arma chega às mãos do atirador.

Retorno armado, tiros à queima-roupa e prisão em flagrante

Após o primeiro confronto, a situação aparenta se acalmar. Luís Roberto e Vinicius deixam o restaurante. Minutos depois, Carlos volta armado e se aproxima novamente das vítimas, que estão do lado de fora. Testemunhas relatam uma sequência rápida de disparos. Vinicius é atingido por dois tiros. Luís Roberto também é baleado e cai na calçada. Os dois morrem no local.

Agentes da Guarda Civil Metropolitana que estão nas proximidades chegam logo após os disparos, rendem Carlos e o algemam em frente ao restaurante. Ele é preso em flagrante e levado à delegacia. No dia seguinte, sábado, 17, passa por audiência de custódia e tem a prisão convertida em preventiva. A defesa não é localizada até o fechamento deste texto.

O delegado afirma que a arma é retirada de uma mala usada com frequência pelo médico. “Essa arma ele tirou de dentro de uma mala que ele sempre leva com ele. Precisamos apurar se essa mala já estava lá dentro do restaurante ou se foi trazida por alguém”, diz Schiffmann. Uma mulher apontada por testemunhas como possível responsável por levar o artefato ao local está identificada e deve ser ouvida, assim como amigos que acompanham o atirador naquela noite.

A Polícia Civil informa que Carlos Alberto possui registro de Colecionador, Atirador e Caçador, a categoria CAC, que permite comprar armas e munições, mas não tinha porte para circular armado. O uso da pistola em um desentendimento comercial reforça, para investigadores, o caráter de violência desproporcional associado à disputa por dinheiro.

Parentes relatam à polícia um histórico de rixas, ameaças e conflitos envolvendo os três médicos. Vinicius é funcionário de Luís Roberto, além de concorrente em negócios com Carlos. O delegado avalia que o atirador pode responder por duplo homicídio qualificado por motivo torpe, ligado a interesse econômico, ou motivo fútil, além do uso de recurso que impossibilita a defesa das vítimas.

A prestadora de serviços médicos Cirmed Brasil, da qual Carlos é sócio, divulga nota em que afirma que o crime não corresponde “aos valores e princípios da instituição”. A empresa diz ter tomado conhecimento de um fato “envolvendo, em âmbito estritamente pessoal, um de seus sócios” e descreve o episódio como “fatos pessoais e isolados”, que não se confundem com as atividades assistenciais ou operacionais da marca.

Violência na disputa por contratos públicos e próximos passos

O duplo assassinato repercute entre colegas de profissão, gestores públicos e moradores de Barueri, Cotia e região. A morte de dois médicos ligados diretamente à rede municipal escancara a tensão em torno de contratos de gestão hospitalar, que movimentam cifras milionárias em cidades da Grande São Paulo e de todo o País. A fronteira entre parceria e rivalidade comercial se mostra frágil quando ameaças e ofensas migram para a rua e terminam em morte.

Especialistas em políticas de saúde ouvidos por diferentes veículos destacam que a disputa por licitações na área se intensifica nos últimos anos, com maior participação de empresas privadas na administração de hospitais e unidades básicas. Cada contrato pode garantir receitas relevantes por vários anos, o que alimenta conflitos, judicializações e pressões políticas. O caso de Alphaville se torna símbolo extremo de um ambiente em que interesses financeiros se sobrepõem a qualquer código de ética.

A investigação da Polícia Civil segue em curso para mapear a origem da arma, o trajeto da mala e a eventual participação de cúmplices. A perícia analisa as imagens de segurança do restaurante, o áudio dos diálogos e laudos balísticos. Depoimentos de funcionários, clientes e familiares devem detalhar o histórico de ameaças e as conversas sobre licitações travadas nos dias anteriores ao crime.

O inquérito também mira as condições de segurança de estabelecimentos de alto fluxo em bairros como Alphaville e a responsabilidade de casas que recebem clientes armados, mesmo em regiões com forte presença de guardas municipais e vigilância privada. As conclusões podem reforçar pressões por regras mais rígidas para acesso, circulação e armazenamento de armas de fogo em espaços de lazer.

O caso chega às manchetes nacionais enquanto o setor de saúde discute transparência em contratos, controle público sobre parcerias com empresas privadas e limites na atuação de grupos econômicos na gestão de hospitais. A morte de Luís Roberto e Vinicius, em uma noite comum de sexta-feira, coloca uma pergunta incômoda para autoridades e empresários: até onde a lógica de mercado pode avançar em um setor que deveria ter a vida como prioridade?

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