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Diretor da base do Palmeiras cobra elenco após queda na Copinha

O diretor da base do Palmeiras, João Paulo Sampaio, reage com rara franqueza à eliminação do clube na Copinha 2026, nesta segunda-feira (19), na Arena Barueri. Após derrota nos pênaltis para o Ibrachina, ele critica o desempenho do time, recusa “desculpinhas” e transforma o revés em cobrança pública por evolução.

Eliminação dura em noite de pênaltis e sinceridade

O Palmeiras chega às quartas de final da Copa São Paulo de Futebol Júnior como bicampeão e um dos favoritos ao título. Sai de cena na noite de 19 de janeiro, depois de empatar por 2 a 2 no tempo normal e perder nos pênaltis para o Ibrachina, sensação do torneio. Na marca da cal, Eduardo Conceição erra a quinta cobrança, e João Paulo desperdiça nas alternadas, sacramentando a queda.

Em vez de buscar explicações em arbitragem, regulamento ou desgaste físico, a cúpula da base escolhe outro caminho. Poucas horas depois do apito final na Arena Barueri, João Paulo Sampaio publica uma mensagem direta nas redes sociais, direcionada a torcedores e ao vestiário. “Agradecer à torcida e nossa entrega e luta na competição, pois futebol de verdade não jogamos p… nenhuma. Chorar e sentir faz parte para a formação”, escreve.

O dirigente assume o incômodo com a atuação e faz do discurso um recado pedagógico, mais do que um desabafo emocional. “Bom que sentimos e amanhã já tem trabalho e mais trabalho, sem desculpinhas”, completa. A escolha das palavras expõe a leitura interna: o resultado machuca, mas a forma como o time joga pesa ainda mais na avaliação de quem cuida do processo de formação.

A mensagem chega a um ambiente acostumado a conquistas recentes. O Palmeiras vence a Copinha em 2022 e 2023, quebra tabu histórico e consolida a base como uma das mais produtivas do país. Em 2026, porém, o torneio coloca o clube diante de um cenário diferente: queda nas quartas de final, em casa, diante de um projeto emergente como o Ibrachina, que já elimina Atlético-MG e Internacional nesta edição.

Pressão por evolução e ascensão do Ibrachina

O revés em Barueri funciona como freio em uma trajetória recente de domínio. O desempenho na Copinha é vitrine e termômetro para torcedores, dirigentes e mercado. Ao admitir que o time “não joga futebol de verdade”, Sampaio sinaliza que a preocupação vai além do placar desta segunda-feira. A crítica pública sugere que o nível de competitividade e de tomada de decisão dos garotos não acompanha a expectativa criada pelos títulos anteriores.

O recado impacta diretamente os atletas que falham nas penalidades, mas também quem acompanha todo o percurso do time no torneio. Erros em jogos eliminatórios costumam marcar carreiras ainda em construção. Quando o responsável pela base afirma que é preciso “chorar e sentir” para formar jogadores, ele legitima a dor como parte do processo, mas exige resposta rápida. “Amanhã já tem trabalho e mais trabalho” aponta para treinos imediatos, revisão de conceitos e possível reavaliação de métodos.

O discurso também joga luz sobre o outro lado da história. Ao final da postagem, Sampaio faz questão de parabenizar o rival: “Lindo o trabalho de vocês!!”, escreve sobre o Ibrachina. O clube de bairro da zona leste de São Paulo, fundado em 2011, chega às semifinais depois de eliminar três gigantes do futebol brasileiro na mesma edição. Ganhar de Atlético-MG, Internacional e Palmeiras em mata-mata da Copinha reposiciona o Ibrachina no mapa das categorias de base.

O avanço para a semifinal, em duelo ainda sem data definida contra o São Paulo, confirma a força de um projeto que investe em estrutura, captação e parcerias. Ibrachina e São Paulo brigam por uma vaga na final, enquanto Grêmio e Cruzeiro se enfrentam na outra chave, nesta quarta-feira (21). O equilíbrio entre tradicionais clubes de massa e novos centros de formação revela um cenário mais fragmentado e competitivo na base brasileira.

Para o Palmeiras, a eliminação custa mais do que a chance de levantar o troféu pela terceira vez em cinco anos. O clube perde vitrine em jogos decisivos de janeiro, período em que empresários, olheiros e clubes europeus observam potencial de investimento. A queda nas quartas reduz a exposição de parte do elenco, adia possíveis negociações e endurece a disputa interna por espaço no time profissional ao longo de 2026.

Reajustes na formação e próximos capítulos

O tom adotado por João Paulo Sampaio tende a ecoar no cotidiano da Academia de Futebol. A cobrança pública pode acelerar debates sobre metodologia de treino, perfil de atletas recrutados e relação entre base e profissional. A fala coincide com um momento em que o elenco principal também enfrenta questionamentos, após goleada sofrida no Paulistão e críticas de líderes como Piquerez, que fala em “vergonha” pela atuação recente.

A soma de sinais negativos em base e profissional alimenta discussões sobre planejamento integrado do clube para 2026. A direção precisa decidir quanto espaço dará aos jovens em meio à pressão por resultados imediatos e à exigência de manter o padrão competitivo dos últimos anos. Uma Copinha menos brilhante não apaga o histórico recente, mas funciona como alerta de que o fluxo de talentos não garante, por si só, desempenho coletivo consistente.

Nos bastidores, o discurso de “sem desculpinhas” tende a reforçar uma cultura de responsabilização e meritocracia. Jogadores que suportam a frustração e respondem bem ao baque podem ganhar pontos na fila por oportunidades. Outros podem perder terreno em relação a uma geração mais jovem, sempre à espreita, ou ao mercado externo, que segue oferecendo alternativas prontas para o time principal.

O curto prazo reserva pouco tempo para luto. Enquanto o Ibrachina se prepara para enfrentar o São Paulo por uma vaga na final, o Palmeiras volta o foco para a temporada cheia de 2026, com calendário que inclui estaduais, Brasileirão, Copa do Brasil e competições continentais. O desempenho dos garotos nos próximos meses, seja no sub-20 ou incorporados ao elenco profissional, dirá se a eliminação em Barueri foi só um tropeço pontual ou o início de um ajuste mais profundo na base alviverde.

A mensagem de João Paulo Sampaio delimita o ponto de partida: reconhecer que “não jogou futebol de verdade” é admitir que a régua interna segue alta. A resposta, agora, depende de como elenco, comissão técnica e direção transformam a dor da Copinha em combustível para a próxima geração que sonha em sair da Arena Barueri direto para a primeira página do futebol profissional.

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