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Dinamarqueses ironizam Trump com bonés ‘Make America Go Away’

Manifestantes em cidades dinamarquesas ocupam as ruas em janeiro de 2026 usando bonés vermelhos com a frase “Make America Go Away”. O trocadilho mira diretamente Donald Trump e suas recentes declarações sobre a importância estratégica da Groenlândia para os Estados Unidos.

Boné vermelho vira símbolo de recado geopolítico

O acessório é familiar ao público global: o mesmo modelo de boné vermelho que populariza o lema “Make America Great Again”, marca da campanha de Trump desde 2016. Nas ruas de Copenhague, Aarhus e Odense, porém, a sigla MAGA ganha outro significado, impresso em letras brancas: “Make America Go Away”. O alvo é explícito, mas a crítica vai além da figura do ex-presidente.

Os manifestantes reagem às falas de Trump em entrevistas e comícios recentes, nas quais ele volta a citar a Groenlândia como peça estratégica para segurança e energia dos EUA. Em discursos no fim de 2025, o republicano insiste que a ilha no Atlântico Norte tem “valor militar e ambiental incalculável” para Washington e menciona, mais de uma vez, a necessidade de “não deixar que outros ocupem esse espaço”. As declarações reacendem memórias de 2019, quando o então presidente cogita publicamente comprar a Groenlândia, provocando crise diplomática com Copenhague.

Groenlândia no centro da tensão climática e militar

A Groenlândia é território autônomo sob a coroa dinamarquesa, com cerca de 56 mil habitantes e posição-chave no Ártico. A região concentra bases militares, rotas de navegação emergentes por causa do degelo e reservas estimadas de minerais estratégicos usados em baterias e tecnologia verde. O degelo no Ártico cresce em torno de 13% por década desde o fim dos anos 1970, segundo relatórios científicos, e transforma o mapa de interesses geopolíticos.

Nos protestos dinamarqueses, o recado mistura soberania e clima. Em faixas e cartazes, frases como “A Groenlândia não está à venda” e “Clima não é negócio imobiliário” retomam o embate de sete anos atrás, mas com novas camadas. Grupos ambientalistas usam o momento para cobrar metas mais rígidas de corte de emissões até 2030 e denunciar o risco de expansão de exploração petrolífera e mineral em áreas sensíveis. O lema “Make America Go Away” funciona como síntese dessa inquietação: menos interferência externa, mais proteção ao Ártico.

Ironia como arma política e eco internacional

O humor é calculado. O boné vermelho, carregado de significado político nos Estados Unidos, vira símbolo invertido nas mãos dos dinamarqueses. Em vez de exaltar a grandeza americana, o acessório aponta para um esgotamento com o peso de Washington sobre territórios que não votam nas eleições americanas, mas sentem seus efeitos diretos. “Se Trump acha que pode transformar a Groenlândia em ativo estratégico, queremos lembrar que há gente morando lá e que o gelo não é cenário de filme”, diz um manifestante, estudante de 22 anos, que participa do ato em Copenhague.

A escolha da palavra “go away” não significa isolamento, mas limite. Pesquisadores de relações internacionais ouvidos por veículos europeus veem na mobilização um sinal de fadiga com a diplomacia de confronto e transação. Em vez de notas oficiais duras, o protesto se materializa em centenas de bonés vendidos por cerca de 20 euros em sites locais, replicados nas redes sociais e em fotos que circulam em jornais de ao menos dez países europeus. A imagem de uma multidão com o slogan irônico circula em tempo real e amplia o alcance de uma discussão que, à primeira vista, parece restrita ao norte gelado.

Pressão sobre clima, soberania e política externa dos EUA

A reação nas ruas pressiona governos em duas frentes. Para a Dinamarca e a Groenlândia, o desafio é reforçar que a ilha não é moeda em disputas entre superpotências. Para Washington, a mensagem é que planos estratégicos sobre territórios estrangeiros enfrentam hoje escrutínio público imediato, amplificado por redes sociais e por uma opinião pública europeia cada vez mais sensível a temas ambientais. A Groenlândia concentra cerca de 80% de sua superfície coberta por gelo, e qualquer avanço em projetos de mineração ou novas rotas de navegação toca diretamente em metas globais de aquecimento de até 1,5°C.

Movimentos ambientalistas veem a mobilização como oportunidade para endurecer o debate sobre a presença militar e econômica no Ártico. ONGs que atuam na região lembram que a ilha já vive efeitos concretos do aquecimento, com comunidades costeiras relatando erosão acelerada e alteração em rotas de pesca tradicionais. Nesse cenário, a insistência de Trump na importância da Groenlândia acende um alerta. “Quando um líder fala da ilha como se fosse um tabuleiro de xadrez, a vida de quem está lá vira peça descartável”, resume uma ativista dinamarquesa em entrevistas à imprensa local.

Disputa de narrativas deve crescer

A onda de bonés “Make America Go Away” tende a alimentar uma disputa de narrativas que extrapola a Dinamarca. A cada nova fala de Trump sobre fronteiras, alianças militares ou recursos naturais, cresce a chance de que símbolos associados à sua marca política sejam ressignificados em outros países. A campanha irônica serve de teste para medir o fôlego de uma oposição transnacional à agenda do republicano, num momento em que eleições, acordos climáticos e disputas por minerais críticos se entrelaçam.

Os próximos meses dirão se o recado dinamarquês fica restrito a fotos de protesto ou se se converte em pressão concreta sobre decisões de gabinete, tanto em Copenhague quanto em Washington. A pergunta que ecoa nos bonés vermelhos não é apenas se a América deve “ir embora”, mas até onde uma potência pode avançar sobre territórios estratégicos sem enfrentar resistência pública organizada, em um mundo que acompanha tudo em tempo real.

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