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Díaz-Canel anuncia retomada de diálogo direto entre Cuba e EUA

O presidente cubano Miguel Díaz-Canel anuncia, em data recente, a retomada de conversas diretas entre autoridades de Cuba e dos Estados Unidos. O objetivo declarado é buscar soluções políticas e econômicas por meio do diálogo, após anos de escalada de sanções e pressão de Washington.

Reaproximação cautelosa após anos de confronto

Díaz-Canel fala em “novo momento” na relação com Washington. O anúncio ocorre em meio a negociações discretas entre diplomatas dos dois países, realizadas em Havana e em Washington nas últimas semanas. Interlocutores envolvidos nas conversas descrevem encontros em mesas pequenas, sem fotos oficiais e com participação de equipes reduzidas, focadas em pontos concretos como comércio, viagens e temas migratórios.

O governo cubano tenta aliviar o sufocamento econômico provocado por mais de seis décadas de embargo norte-americano. Desde 2017, durante a gestão Donald Trump, a Casa Branca endurece o bloqueio, adiciona mais de 200 entidades cubanas a listas de sanções e restringe voos, remessas e operações bancárias. A combinação de pandemia, queda do turismo e dificuldades para importar combustíveis aprofunda a crise na ilha, com filas constantes para comprar alimentos e energia elétrica racionada em diversas províncias.

Em discurso transmitido pela televisão estatal, Díaz-Canel apresenta o gesto como uma decisão soberana, não como concessão. “Estamos prontos para dialogar com respeito, em condições de igualdade e sem renunciar aos nossos princípios”, afirma. Do lado norte-americano, autoridades evitam detalhes, mas reconhecem que há “canais diplomáticos ativos” e disposição para discutir “questões de interesse mútuo”, expressão usada com frequência no Departamento de Estado quando se fala em temas sensíveis.

As conversas retomam uma agenda que parecia enterrada desde o fim da gestão Barack Obama, em 2017. Naquele período, os dois países reabriram embaixadas, restabeleceram voos diretos e ampliaram o envio de remessas, em um processo que rendeu, na época, mais de 600 mil visitantes norte-americanos à ilha em um único ano. O movimento foi revertido sob Trump, que recolocou Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo em 2021, medida que encarece créditos e afugenta investidores.

O que está em jogo para Havana e Washington

O anúncio de Díaz-Canel sinaliza que Cuba busca uma saída negociada para aliviar o impacto das sanções no cotidiano da população. Estimativas de economistas próximos ao governo apontam que o embargo impõe perdas acumuladas de mais de US$ 150 bilhões desde a década de 1960, valor que inclui exportações inviabilizadas, custos financeiros adicionais e menor acesso a tecnologia. Em 2023, a economia cubana cresce abaixo de 2%, bem longe da expansão necessária para recuperar padrões de consumo e abastecimento dos anos 2000.

O governo dos Estados Unidos enfrenta outro tipo de pressão. A crise econômica em Cuba impulsiona ondas migratórias em direção à fronteira sul norte-americana. Entre 2021 e 2023, mais de 300 mil cubanos chegam ao território dos EUA, por mar ou por rotas terrestres via América Central e México. O tema migração volta a ganhar peso na política interna norte-americana, em especial em estados como Flórida, onde a comunidade cubano-americana tem influência direta em eleições presidenciais e legislativas.

Assessores de Washington veem na abertura de um canal de diálogo a chance de negociar, em bloco, temas sensíveis. Entre eles estão a cooperação migratória, a repressão a redes de tráfico humano e possíveis flexibilizações pontuais nas sanções econômicas, desde que acompanhadas de gestos concretos de Havana em áreas como direitos humanos e liberdades civis. “Há espaço para avanços graduais, se houver boa-fé de ambos os lados”, resume um diplomata envolvido nas conversas.

Para Cuba, qualquer afrouxamento das medidas pode ter efeito rápido sobre o cotidiano. A liberação de mais voos e mais rotas de companhias norte-americanas, por exemplo, tende a reaquecer o turismo, setor que já representou cerca de 10% do PIB da ilha em anos anteriores. A autorização de maiores volumes de remessas familiares, hoje limitadas por tetos e por bancos intermediários, injeta dólares na economia doméstica e diminui a pressão sobre o peso cubano, que enfrenta forte desvalorização no câmbio paralelo.

Organizações de direitos civis nos dois países acompanham o processo com cautela. Grupos opositores ao regime cubano cobram que qualquer acordo inclua a libertação de presos políticos e garantias mínimas de liberdade de expressão e de manifestação. Setores mais duros da diáspora em Miami exigem que Washington mantenha, ou até amplie, o cerco econômico até que haja mudanças políticas profundas na ilha. O governo cubano, por sua vez, rejeita condicionantes explícitas e classifica as sanções como “medida unilateral e ilegítima”.

Riscos, expectativas e próximos capítulos

O histórico de desconfiança entre Havana e Washington torna o processo frágil desde a origem. Tentativas de aproximação esbarram, com frequência, em mudanças de governo nos Estados Unidos, crises internas em Cuba e episódios de confronto retórico, como discursos na ONU ou novas rodadas de sanções. Ainda assim, diplomatas que participam das conversas destacam que existem, hoje, interesses práticos convergentes, em especial em temas de segurança regional, migração e combate ao narcotráfico no Caribe.

Se as negociações avançarem, interlocutores projetam uma agenda escalonada, com resultados aos poucos. Em um primeiro momento, medidas de confiança mútua, como retomada de voos em rotas específicas, flexibilização de limites para remessas e acordos técnicos em saúde e educação. Em seguida, discussões mais complexas, que envolvem listas de sanções, acesso de empresas norte-americanas a setores estratégicos da economia cubana e eventuais compromissos públicos sobre liberdades políticas.

Os efeitos não se limitam aos dois países. Uma reaproximação consistente tende a redesenhar a geopolítica do Caribe e da América Latina. Governos da região veem na distensão a chance de reduzir tensões herdadas da Guerra Fria e de abrir espaço para projetos conjuntos em energia, turismo e integração logística. Potências como Rússia e China, que aprofundam laços econômicos com Havana nas últimas décadas, observam com atenção a movimentação de Washington, preocupadas com possível perda de influência.

Díaz-Canel aposta que o gesto de diálogo fortalece sua posição interna em um momento de descontentamento visível, com protestos isolados contra apagões e falta de produtos básicos. O governo norte-americano calcula os custos eleitorais de qualquer afrouxamento de sanções, especialmente entre eleitores de perfil conservador na Flórida. No cruzamento desses interesses, as próximas semanas mostram se o anúncio de hoje inaugura, de fato, uma nova fase ou se será lembrado apenas como mais um capítulo inconcluso da longa disputa entre Cuba e Estados Unidos.

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