Dev revela gameplay inédito de remake cancelado de Prince of Persia
Um desenvolvedor que trabalhou no remake de Prince of Persia: The Sands of Time publica, em abril de 2026, um vídeo com gameplay de um jogo 99% concluído e cancelado pela Ubisoft. As imagens inéditas ressuscitam um projeto quase pronto e reacendem o debate sobre os limites de qualidade e risco na indústria dos games.
Vídeo curto, bastidores profundos
O game designer Chandra Kouns divulga, em seu site pessoal e nas redes sociais, um clipe que mostra pela primeira vez, de forma clara, trechos jogáveis do remake descartado. O vídeo circula também no perfil Prince of Persia Universe, no X (antigo Twitter), onde o material ganha alcance global e ajuda a organizar fragmentos de um projeto até então envolto em rumores e comunicados vagos.
Nas cenas, o Príncipe aparece em duas situações distintas. Em uma delas, luta lado a lado com Farah dentro de uma biblioteca, retomando a parceria central do jogo de 2003. Em outra, atravessa um trecho de plataforma que exige saltos de parede em parede, com direito a alguns segundos do clássico wall running, a corrida horizontal pelas paredes que definiu a identidade da série nos consoles do início dos anos 2000.
O clipe é curto, mas aponta para uma escolha clara de direção: preservar a estrutura do original, com combates em arenas fechadas e seções de plataforma que exigem ritmo, precisão e leitura do cenário. Nada ali sugere um recomeço radical; o que se vê é uma tentativa de atualizar um clássico de quase 20 anos mantendo o esqueleto do jogo intacto.
Remake quase pronto, decisão extrema
A dimensão do caso não está apenas nas imagens, mas no momento em que o projeto é interrompido. Relatos de bastidores apontam que o remake atinge 99% de conclusão antes de ser engavetado. Em outras palavras, não se trata de um rascunho experimental ou de um protótipo em crise, e sim de um produto praticamente pronto, fruto de anos de investimento e de sucessivos adiamentos.
Anunciado em setembro de 2020, o novo Sands of Time enfrenta rejeição imediata a cada aparição pública. Trailers divulgados entre 2020 e 2021 geram críticas à qualidade visual, à animação dos personagens e ao acabamento geral. Em fóruns e redes sociais, jogadores comparam o visual do remake a jogos da geração anterior e cobram um padrão mais alto para um nome tão importante na história da Ubisoft.
A empresa responde com sucessivos atrasos e promessas de ajustes. O projeto muda de mãos dentro do grupo, passa por revisões profundas e, ainda assim, não alcança o patamar considerado aceitável pela cúpula da companhia. A avaliação interna é dura: mesmo com a produção avançada, o jogo não atende aos padrões de qualidade definidos para remakes de grandes marcas.
O vídeo compartilhado por Kouns funciona, nesse contexto, como uma peça de evidência. Ao mostrar combates mais polidos, animações de parede a parede relativamente fluidas e cenários reconhecíveis, sugere um produto em estágio final de refinamento, não em colapso técnico. A discrepância entre a aparência de “quase pronto” e a decisão de cancelamento alimenta a sensação de desperdício entre fãs e profissionais da área.
Impacto na Ubisoft, nos fãs e no mercado de remakes
O caso atinge em cheio a relação entre Ubisoft e a comunidade de Prince of Persia, uma franquia que vive hoje mais de nostalgia do que de lançamentos regulares. The Sands of Time, lançado em 2003, consolidou a marca em consoles como PlayStation 2 e Xbox, vendeu milhões de cópias e influenciou jogos posteriores da própria Ubisoft, como Assassin’s Creed. Um remake desse porte, cancelado na reta final, simboliza o tamanho do risco que os estúdios estão dispostos a correr para preservar marcas antigas.
A divulgação do clipe reacende discussões sobre o custo de errar em remasterizações e remakes. Em um mercado em que orçamentos passam facilmente da casa das dezenas de milhões de dólares, descartar um projeto a 99% significa aceitar um prejuízo imediato para evitar um dano de imagem potencialmente maior. A mensagem implícita é clara: melhor perder dinheiro agora do que desgastar um nome histórico com um lançamento morno ou tecnicamente frágil.
Para os jogadores, o vídeo traz emoções misturadas. De um lado, há frustração ao ver, em poucos segundos, um jogo que não chegará às prateleiras, mesmo tão adiantado. De outro, o clipe serve como confirmação de que as críticas iniciais surtem efeito e forçam a Ubisoft a elevar a régua. Em comunidades especializadas, o caso vira exemplo recorrente quando se discutem padrões de qualidade, pressão do público e decisões comerciais em grandes editoras.
O episódio também afeta o modo como outros estúdios encaram suas próprias revisitações de catálogo. Remakes de títulos consagrados, de Resident Evil a Final Fantasy, mostram que há espaço para recontar histórias antigas com tecnologia atualizada. O fracasso de um projeto quase pronto lembra que não basta reembalar um clássico; é preciso justificar sua existência para uma geração que já conhece o original e cobra avanços claros em jogabilidade, gráficos e estabilidade.
O que fica de um jogo que não existe mais
O vídeo de Chandra Kouns não ressuscita o remake de The Sands of Time, mas dá forma concreta a um projeto que parecia condenado a viver apenas em relatórios financeiros e notas oficiais. Em menos de um minuto de material, jogadores veem o suficiente para imaginar trajetórias alternativas: um lançamento com recepção morna, um patch de correção posterior, ou até um adiamento maior em vez do cancelamento definitivo.
Para a Ubisoft, o episódio funciona como lembrete público de que sua biblioteca clássica é valiosa demais para ser tratada como produto de rotina. Cada remasterização ou remake de agora em diante será comparado ao que aconteceu com Sands of Time, tanto por investidores quanto por jogadores. A empresa terá de mostrar, na prática, que aprendeu com o caso, seja ao anunciar um novo projeto do Príncipe, seja ao reforçar outras franquias com o mesmo cuidado que promete, mas nem sempre entrega.
O clipe de gameplay permanece, por enquanto, como o registro mais completo do que esse remake poderia ter sido. A pergunta que ecoa, diante de um jogo 99% pronto e ainda assim descartado, é direta: até onde a indústria está disposta a ir para não trair a memória de seus próprios clássicos?
