Ultimas

Desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a Lula acirra crise com evangélicos

Um desfile em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, realizado pela Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí em 2026, abre uma nova frente de desgaste com setores religiosos. A ala “Neoconservadores em conserva” incomoda igrejas evangélicas, alimenta a polarização nas redes e vira munição para a direita em ano de eleição presidencial.

Carnaval vira campo de batalha política e religiosa

O enredo da escola de Niterói celebra a trajetória de Lula, mas é a ala que coloca conservadores dentro de latas de conserva, com Bíblias e cruzes estilizadas, que catalisa a reação. Imagens do desfile correm por grupos de WhatsApp de igrejas e perfis bolsonaristas desde a madrugada, transformando um número de carnaval em símbolo de suposto desrespeito à fé cristã.

A leitura de que a apresentação ultrapassa a crítica política e entra no terreno da intolerância religiosa domina os vídeos e áudios que se espalham entre fiéis. Pastores falam em “agressão” e “discriminação”, enquanto aliados de Lula tentam conter o dano, insistindo que se trata de criação independente de uma escola de samba, sem roteiro do governo ou do PT.

O deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ), um dos principais articuladores da bancada evangélica, afirma que o caso aprofunda o fosso entre o Planalto e as igrejas. “Estamos a oito meses das eleições e o outro lado está se aproveitando dessa pauta moral. A direita está fazendo um carnaval com isso e a esquerda os presenteou com uma pauta de graça”, diz. Para ele, a presença de Lula na Sapucaí “chancela” tudo o que a escola levou para a avenida.

Otoni enxerga risco concreto para a disputa presidencial de 2026. “Será uma eleição apertada e não se pode dar ao luxo de perder eleitores. Se Lula não tivesse ido à Sapucaí, ele não perderia votos, mas a ida chancela o que foi mostrado”, afirma. O deputado cobra um pedido público de desculpas ao “povo evangélico, cristão”, e não aos bolsonaristas, e sustenta que a reação parte da base conservadora, com bolsonaristas “surfando” na onda.

Na base governista, a estratégia é tentar separar arte e governo. O deputado Henrique Vieira (Psol-RJ), pastor e aliado de Lula, reforça que não se trata de um desfile oficial. “A escola de samba é livre e o governo não influenciou, criou, roteirizou ou patrocinou o desfile da escola”, diz. Ele diz desconhecer qualquer monitoramento prévio do Planalto sobre o enredo e considera “perigoso” se isso tiver ocorrido, por abrir espaço para controle político da criação artística.

Vieira interpreta a ala polêmica como crítica a um modelo único de família apresentado como superior. “Todas as outras formas de configuração familiar são vistas como erradas ou promíscuas, como mães solo, filhos criados por avós ou casais homoafetivos. Eu nunca vi um casal homossexual questionando uma família heterossexual”, afirma. O deputado estima que cerca de 70% dos evangélicos ainda devem se manter com Lula, enquanto 30% seguem com o bolsonarismo, mas admite que episódios como esse alimentam a disputa nesse eleitorado.

Evangélicos reagem e veem discriminação à fé cristã

Nas igrejas, a cena da família “tradicional” em uma lata de conserva, sorridente, cercada de símbolos cristãos, é apresentada como um ataque direto à base moral dos fiéis. O pastor Daniel de Castro, da Assembleia de Deus de Madureira em Taguatinga, sustenta que a crítica extrapola a sátira política. “Vivemos um tempo preocupante, em que a liberdade religiosa parece, muitas vezes, ter peso diferente a depender de quem a exerce”, afirma.

Para ele, manifestações de fé de pastores e fiéis sofrem tentativas recorrentes de “criminalização” e constrangimento público, enquanto ataques simbólicos à religião seriam tolerados em nome da arte. “Liberdade de expressão não pode ser utilizada como escudo para a prática de desrespeito religioso. O Estado Democrático de Direito protege tanto a livre manifestação quanto a liberdade de crença, e uma não pode anular a outra”, diz. O pastor promete recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério Público, abrindo uma frente jurídica contra o desfile em plena contagem regressiva para outubro.

O pastor Lucas Veras, da Igreja Pentecostal da Ceilândia, ecoa a mesma leitura de ofensa. “Quem assistiu ao desfile consegue entender muito bem a mensagem, tanto no contexto político quanto religioso”, afirma. Na avaliação dele, a crítica simbólica mira a estrutura familiar e atinge em cheio a fé cristã. “O pior é mostrar dentro daquela lata famílias felizes, pai, mãe e filhos, passando uma imagem ruim de algo que é bom. Isso é discriminação religiosa”, diz, ao apontar o uso de Bíblia e cruz em “uma festa extremamente secular”.

Entre especialistas, há consenso de que o efeito imediato nas intenções de voto é limitado, mas o desgaste simbólico é real. O sociólogo Ivan Alemão, professor da Universidade Federal Fluminense, considera que a escola “exagerou” na abordagem, especialmente na crítica religiosa. “Acho que houve um certo exagero na temática, a partir do momento em que o desfile saiu atacando várias frentes. É tudo o que o Lula não precisava em ano eleitoral”, avalia.

Ele lembra que desfiles de escola de samba costumam criticar miséria, fome e desigualdade, não símbolos de fé. “Nesse caso, acabou sendo uma crítica a uma religião, o que ofende as pessoas. Dentro do próprio PT há muita gente conservadora, o partido nasceu da igreja, do sindicalismo e da esquerda militante. Mais da metade da população brasileira é conservadora. Quando se toca nessa questão, você atinge uma parte do eleitorado do próprio Lula”, afirma.

O cientista político Jorge Chaloub, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pede cautela com projeções eleitorais definitivas. “Pode gerar algum desconforto, pode circular de forma negativa, mas não é algo simples ou automático”, diz. Ele lembra que a homenagem parte de uma escola de samba, e não da campanha oficial. “Uma escola homenageou o Lula, mas não foi a campanha do Lula que fez isso. Atribuir isso diretamente à esquerda não é uma passagem simples”, afirma.

Disputa por narrativas e risco de desgaste cumulativo

O impacto do episódio, na avaliação de Chaloub, depende menos do que aconteceu na avenida e mais da guerra de versões que se segue. Em um ambiente em que fake news circulam com rapidez, a imagem de uma esquerda hostil aos evangélicos encontra terreno fértil, independentemente da intenção artística do desfile. “Você não precisa nem do fato concreto para criar a ideia de que a esquerda odeia os evangélicos”, resume o professor.

A direita já trata o carro alegórico dos “neoconservadores em conserva” como síntese de um suposto desprezo do governo por famílias tradicionais e igrejas. Vídeos com trechos do desfile editados, legendas acusatórias e sermões inflamados se multiplicam em páginas bolsonaristas, enquanto perfis ligados ao governo tentam resgatar imagens de encontros de Lula com pastores e padres para neutralizar o dano. Em um país em que mais de 30% da população se declara evangélica, qualquer ruído nesse grupo pesa na conta de uma eleição apertada.

O episódio também reacende um debate antigo sobre o limite entre liberdade artística e respeito à diversidade religiosa no carnaval. Escolas de samba tradicionais já enfrentaram processos e acusações semelhantes quando levaram orixás, imagens católicas e críticas ácidas à avenida. Desta vez, porém, a conjunção entre homenagem a um presidente em exercício, ano eleitoral e a centralidade das redes sociais amplia o alcance da polêmica.

Enquanto pastores prometem acionar o TSE e o Ministério Público, o governo mede o custo político de qualquer gesto público. Um pedido de desculpas pode acalmar parte das lideranças religiosas, mas correria o risco de ser lido como censura indireta à escola. O silêncio prolongado, por outro lado, alimenta a narrativa de que Lula avaliza a crítica aos conservadores exibida em cadeia nacional pela transmissão dos desfiles.

Os próximos meses dirão se a imagem dos “neoconservadores em conserva” será apenas mais uma cena forte do carnaval carioca ou se entrará para o repertório permanente de campanhas digitais contra o presidente. Em um tabuleiro em que cada símbolo rende milhões de visualizações em segundos, a avenida da Sapucaí volta a mostrar que, no Brasil, cultura, religião e política desfilam cada vez mais coladas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *