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Derrota de Orbán na Hungria isola ainda mais a família Bolsonaro

Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria por 16 anos, sofre derrota nas eleições parlamentares neste domingo (12/4/2026). O revés atinge em cheio um de seus aliados mais fiéis fora da Europa: a família Bolsonaro, no Brasil.

Queda em Budapeste ecoa em Brasília

A saída de Orbán do poder encerra um ciclo iniciado em 2010, marcado por confrontos com Bruxelas, aproximação com Vladimir Putin e uma agenda nacionalista que virou referência para a direita radical. No Brasil, a notícia ressoa em meio às condenações e investigações contra Jair Bolsonaro, hoje condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.

Orbán não é apenas um nome de peso no tabuleiro europeu. Ele se torna, a partir de 2019, um dos principais símbolos internacionais da cruzada conservadora que Bolsonaro tenta projetar a partir de Brasília. É um vínculo político e pessoal, alimentado por visitas oficiais, elogios públicos e gestos concretos de solidariedade em momentos de crise.

O elo se forma logo na posse de Bolsonaro, em 1º de janeiro de 2019, em Brasília. Entre poucos líderes europeus presentes, Orbán ocupa lugar de destaque na tribuna de honra. Quatro meses depois, em abril, seu governo recebe em Budapeste o então deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente e um dos principais articuladores do bolsonarismo no exterior.

A aproximação ganha corpo em 2022, quando a viagem de Bolsonaro à Hungria finalmente sai do papel, após adiamento por causa da pandemia de covid-19. Em Budapeste, os dois governos assinam memorandos de entendimento nas áreas de defesa, cooperação humanitária e gestão de recursos hídricos. Bolsonaro não esconde o entusiasmo: diz tratar Orbán “praticamente como um irmão” e resume a afinidade em quatro palavras: “Deus, pátria, família e liberdade”.

A parceria rende dividendos de campanha. Às vésperas da eleição presidencial de 2022, o premiê húngaro grava um vídeo em que exalta o colega brasileiro. Afirma que encontrou “poucos líderes tão excepcionais” quanto Bolsonaro e credita a ele redução de impostos, estabilização da economia e queda do crime. Conclui com um desejo claro: “Espero que ele possa continuar seu trabalho”.

Rede internacional sob pressão

A ligação vai além dos discursos. Em julho de 2022, em plena campanha, documentos revelados pela Folha de S.Paulo mostram que o chanceler húngaro, Péter Szijjártó, pergunta em Londres, à então ministra Cristiane Britto, “se haveria algo que o governo húngaro poderia fazer para ajudar na reeleição” de Bolsonaro. O gesto expõe a disposição de Budapeste em atuar, ao menos politicamente, na disputa brasileira.

Depois da derrota de Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva, em outubro de 2022, o laço não se rompe. Em dezembro de 2023, os dois voltam a se encontrar em Buenos Aires, durante a posse de Javier Milei. Orbán chama o brasileiro de “herói”. Bolsonaro, já sem mandato, responde em tom de brincadeira, dizendo que o húngaro é amigo, mas que ele próprio é “muito mais bonito”. Por trás do bom humor, os dois reforçam que continuam alinhados na crítica ao que chamam de perseguição política.

Essa retórica ganha novo peso em fevereiro de 2024. Alvo de uma operação da Polícia Federal, no âmbito das investigações sobre a tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro passa duas noites na embaixada da Hungria em Brasília. Reportagem do jornal The New York Times indica que ele avalia a possibilidade de pedir asilo político. A defesa nega essa intenção e fala em simples “contatos com autoridades do país amigo”.

No mesmo dia da operação, Orbán publica em suas redes uma mensagem de apoio direto ao aliado brasileiro: “Um patriota honesto. Continue lutando, senhor presidente”. A frase se soma a outra linha que ele repete em diferentes ocasiões: “caças às bruxas políticas não têm lugar na democracia”, usada para criticar o processo que, depois, leva à condenação de Bolsonaro.

O Supremo Tribunal Federal analisa o episódio da embaixada. O ministro Alexandre de Moraes conclui que não há provas de descumprimento de medidas cautelares ou de tentativa de fuga. Bolsonaro continua no país, mas o gesto de se abrigar por dois dias numa representação estrangeira escancara a confiança na proteção simbólica de um governo aliado em Budapeste.

As famílias política e biológica se misturam na construção dessa rede. Em abril de 2024, Orbán volta a receber Eduardo Bolsonaro em Budapeste, durante a Conferência de Ação Política Conservadora, vitrine global da direita radical. Os dois posam para fotos no Instagram. O premiê escreve: “Conhecendo o Bolsonaro mais novo”. Em novembro de 2025, já nos Estados Unidos, eles se reencontram na embaixada da Hungria. Orbán define os Bolsonaros como “amigos e aliados que nunca desistem”. Reforça o discurso contra “caças às bruxas políticas” e se diz “firmemente ao lado” da família.

O que muda para Bolsonaro e para a direita internacional

A derrota de Orbán, após 16 anos, altera o equilíbrio de forças dentro da União Europeia e enfraquece um dos pilares da articulação da direita radical no continente. Na prática, também reduz a visibilidade institucional de um dos defensores mais vocais de Jair Bolsonaro na arena internacional. Com a saída do premiê, o governo que assume em Budapeste passa a medir o custo de manter o alinhamento automático com um ex-presidente condenado por tentativa de golpe.

No Brasil, a mudança afeta um ativo importante do bolsonarismo: a narrativa de que existe uma frente internacional disposta a respaldar o ex-presidente em qualquer circunstância. Sem Orbán no poder, essa rede perde um dos raros chefes de governo que, até agora, demonstram disposição em interferir discursivamente em processos internos brasileiros, inclusive durante campanhas eleitorais e investigações judiciais.

A nova liderança húngara enfrenta pressão interna e externa para reaproximar o país de Bruxelas e reduzir tensões com parceiros tradicionais. O realinhamento pode atingir acordos assinados durante o governo Bolsonaro, sobretudo nas áreas de defesa e cooperação humanitária, firmados em 2022. Não se trata de rompimento automático, mas de revisão de prioridades. Um governo que busca reconstruir pontes com a União Europeia tende a ser mais cauteloso ao lado de figuras associadas a ataques às instituições democráticas.

Analistas de política externa já apontam um duplo movimento. De um lado, a Hungria sinaliza um retorno gradual a uma política mais previsível dentro do bloco europeu. De outro, a derrota de um aliado de Donald Trump e Javier Milei alimenta o debate sobre os limites do avanço da direita radical no Ocidente, num momento em que parte desses líderes enfrenta investigações, derrotas eleitorais e forte contestação social.

Próximos passos e incertezas

A transição de poder em Budapeste será acompanhada de perto em Brasília. A chancelaria brasileira atual terá de lidar com um governo húngaro possivelmente menos disposto a carregar o legado da parceria ideológica com Bolsonaro. O tratamento dado aos memorandos de 2022 e à cooperação em fóruns internacionais servirá como termômetro do novo rumo.

Para a família Bolsonaro, que desde 2019 investe na construção de pontes com Orbán, o desafio é redefinir sua presença no tabuleiro internacional em meio a processos judiciais, condenações e perda de aliados no poder. A saída do premiê húngaro, somada a mudanças em outros países-chave, pode transformar uma rede de proteção em uma lista de amizades constrangedoras para governos em busca de respeitabilidade. A próxima eleição húngara e os desdobramentos dos recursos de Bolsonaro na Justiça brasileira dirão se esse laço resiste ao teste do tempo ou ficará como um símbolo de uma fase que se encerra nos dois países.

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