Delegados da PF veem interferência de Toffoli e temem fracasso no caso Master
Delegados da Polícia Federal dizem estar perplexos com decisões do ministro Dias Toffoli no caso Banco Master e temem que a investigação não chegue a resultados sólidos. Em entrevista nesta segunda-feira (19/1), o presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF), Edvandir Felix de Paiva, afirma que as medidas do Supremo alteram o planejamento do inquérito e podem comprometer o sucesso das apurações.
Pressão inédita sobre o ritmo da investigação
A tensão cresce desde que Dias Toffoli, ministro do Supremo Tribunal Federal, impõe prazos exíguos, determina sigilo sobre apreensões e redefine etapas sensíveis da apuração. Na avaliação de delegados, essas intervenções mexem no coração da estratégia policial, construída ao longo de meses para entender a quebra do Banco Master e eventuais responsabilidades criminais.
O desconforto, que vinha sendo discutido em conversas reservadas dentro da PF, ganha voz pública com a entrevista de Edvandir Paiva ao programa CB.Poder, parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília. “Há uma comoção na Polícia Federal e os delegados estão perplexos com as decisões do ministro”, diz o presidente da ADPF, ao comentar a nota divulgada pela entidade no sábado (17), em nome da categoria.
O caso envolve a atuação do Banco Master, que entra em liquidação extrajudicial em meio a suspeitas que ainda não vêm totalmente a público. Enquanto o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) inicia a restituição a clientes, a PF tenta montar o quebra-cabeça financeiro e identificar eventuais crimes. Nesse cenário, o controle sobre o tempo e a ordem dos atos investigativos torna-se peça central.
O ponto mais sensível, na visão dos delegados, é a ingerência do Supremo em decisões que, tradicionalmente, cabem ao delegado responsável pelo inquérito. Paiva cita como exemplo a escolha do momento de uma acareação, quando pessoas com depoimentos contraditórios são ouvidas frente a frente. “Decisões estratégicas e planejamentos investigativos, como a escolha do momento de uma acareação e quem será acareado, são papel da PF, e não do Supremo”, afirma.
Segundo o presidente da ADPF, após uma dessas acareações o STF fixa um prazo considerado irrealista para a continuidade das diligências. Ao mesmo tempo, decreta sigilo sobre o material apreendido, inclusive para a própria equipe responsável pela investigação, e encaminha o conteúdo diretamente à Procuradoria-Geral da República (PGR). “Pior que isso: após as apreensões, decretaram o sigilo das apreensões para a própria equipe que estava investigando, e o material foi encaminhado para outro órgão, a PGR, que tem outro papel na persecução penal”, afirma.
Autonomia da PF em xeque e impacto sobre o caso Master
Na prática, delegados relatam que a combinação de prazo curto e falta de acesso ao material apreendido trava o avanço das linhas de investigação. Sem poder analisar documentos e registros, a equipe perde a chance de cruzar informações, planejar novas oitivas e mapear eventuais provas complementares. O temor é que erros de timing, num caso complexo como o do Banco Master, fechem portas que dificilmente se reabrem.
Paiva descreve um ambiente de frustração. “Posso dizer que nossos colegas estão muito preocupados de que a investigação não tenha o sucesso esperado. Nós não queremos dizer que A, B ou C está implicado; queremos saber o que aconteceu, que é o que a sociedade quer saber”, afirma. O recado é direto: mais do que o desfecho específico do caso, está em jogo a capacidade da PF de entregar respostas consistentes em investigações financeiras de alto impacto.
As decisões de Toffoli também reacendem um debate antigo sobre a fronteira entre controle judicial e condução de inquéritos. O Supremo tem a palavra final sobre medidas como quebras de sigilo, buscas e apreensões, e eventuais nulidades de provas. Delegados, porém, enxergam risco quando esse controle passa a interferir no desenho da estratégia e no encadeamento dos atos, algo visto como atribuição típica de polícia judiciária.
Bastidores da PF e da Procuradoria-Geral da República já registram críticas reservadas à atuação do ministro no caso Master, descrita por integrantes das duas instituições como incomum. Em off, delegados relatam nunca ter visto sigilo imposto à própria equipe responsável pelo inquérito por decisão monocrática do Supremo. Paiva, em público, resume essa percepção ao dizer que a categoria está “perplexa”.
O desconforto transborda para o campo político. Parlamentares que defendem o fortalecimento das forças de segurança citam o episódio como exemplo de que a autonomia operacional da PF precisa ser protegida por lei. Outros, mais alinhados ao Supremo, afirmam que o Tribunal age para evitar abusos e garantir a legalidade dos procedimentos em casos sensíveis.
Disputa institucional, novas leis e o que pode mudar
O debate sobre o caso Master ocorre em paralelo à tramitação de propostas que redesenham a política de segurança pública. A chamada PEC da Segurança Pública, que busca criar um Sistema Único de Segurança Pública, o Susp, é vista por Paiva como “interessante” por prometer melhores condições estruturais para os órgãos da área. O delegado, porém, considera que o texto avança menos do que poderia e “peca” por não trazer inovações decisivas, como a exigência de que o diretor-geral da PF seja, obrigatoriamente, delegado de carreira.
Outro ponto sensível é o PL Antifacção, aprovado pelo Congresso para endurecer o combate ao crime organizado. Na avaliação do presidente da ADPF, o Senado melhora o texto, mas perde a oportunidade de vincular diretamente recursos à Polícia Federal. Pelas regras atuais, o dinheiro vai para o Fundo Nacional de Segurança Pública, que atende diversos órgãos e dilui o impacto sobre a PF.
As críticas de Paiva às decisões de Toffoli e às brechas da legislação recente compõem um mesmo pano de fundo: a disputa por espaço e autoridade na definição de prioridades da segurança pública. O caso Banco Master se torna, assim, um laboratório de tensão entre Supremo, PF, PGR e Congresso, cada qual reivindicando seu papel na persecução penal.
Os próximos passos da investigação devem indicar se os temores dos delegados se confirmam. Se o sigilo imposto pelo Supremo for mantido por muito tempo e o material permanecer concentrado na PGR, a PF tende a atuar com alcance limitado. Se houver reequilíbrio, com maior compartilhamento de informações e prazos mais compatíveis com a complexidade do caso, o inquérito pode recuperar fôlego.
Enquanto isso, milhares de clientes afetados pela liquidação do Banco Master acompanham a restituição conduzida pelo FGC e esperam respostas claras sobre o que levou a instituição à crise. A pergunta que ecoa fora dos gabinetes é a mesma que preocupa os delegados: se a engrenagem institucional trabalha em sentidos opostos, quem consegue, de fato, explicar o que aconteceu.
