Delegados da PF dizem estar “perplexos” com decisões de Toffoli no caso Master
Delegados da Polícia Federal afirmam estar “perplexos” com decisões do ministro Dias Toffoli que mudam o rumo da investigação do caso Banco Master. A reação é divulgada nesta segunda-feira (19/1), em entrevista do presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF), Edvandir Felix de Paiva, ao programa CB.Poder, parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília.
Pressão sobre uma investigação em curso
Edvandir Paiva chega ao estúdio com um recado alinhado à cúpula da PF. Diz que não fala apenas em nome da diretoria da ADPF, mas de uma categoria em ebulição. “Há uma comoção na Polícia Federal e os delegados estão perplexos com as decisões do ministro”, afirma, ao comentar a nota divulgada no sábado, 17 de janeiro, em que a entidade expõe publicamente o desconforto com a condução judicial do caso.
O alvo da crítica são decisões recentes de Dias Toffoli que, na avaliação dos investigadores, interferem em escolhas típicas de quem conduz um inquérito. Paiva enumera o que está em jogo: o momento da acareação, o prazo dado para o confronto de depoimentos, o acesso ao material apreendido e o destino das provas. “Decisões estratégicas e planejamento investigativo — como a escolha do momento de uma acareação e quem será acareado — são papel da PF, e não do Supremo”, sustenta.
Prazo exíguo, sigilo interno e mudança de rota
As mudanças impostas pelo ministro do STF começam pela acareação, etapa em que investigados com versões contraditórias são colocados frente a frente. Segundo Paiva, o Supremo definiu um prazo “exíguo” para a conclusão dessa fase, o que, na prática, limita o tempo da PF para preparar o confronto, checar informações e cruzar dados de documentos, mensagens e registros financeiros relacionados ao Banco Master, alvo de liquidação extrajudicial e foco de atenção de milhares de clientes desde o fim de 2025.
O maior choque, porém, vem depois das buscas. “Após as apreensões, decretaram o sigilo das apreensões para a própria equipe que estava investigando, e o material foi encaminhado para outro órgão, a PGR, que tem outro papel na persecução penal”, relata o presidente da ADPF. Na rotina de inquéritos complexos, delegados e peritos costumam ter acesso integral e contínuo às provas colhidas para planejar novas diligências, acareações e quebras de sigilo. A ausência desse acesso, ainda que temporária, é vista como um freio no ritmo da investigação.
Autonomia da PF em debate
O caso Banco Master já provoca desgaste interno na PF e abre uma frente de atrito institucional delicada com o Supremo. Paiva faz questão de dizer que a categoria respeita as decisões judiciais, mas insiste que os colegas estão “preocupados” com o desfecho do inquérito. “Posso dizer que nossos colegas estão muito preocupados de que a investigação não tenha o sucesso esperado. Nós não queremos dizer que A, B ou C está implicado; queremos saber o que aconteceu, que é o que a sociedade quer saber”, afirma.
O embate expõe um ponto sensível do sistema de Justiça brasileiro: até onde vai o poder de controle do STF sobre investigações em curso e onde começa a autonomia da Polícia Federal para definir sua estratégia. Nos bastidores, delegados e procuradores relatam incômodo com o sigilo decretado para os próprios investigadores e com a centralização das provas na Procuradoria-Geral da República, órgão responsável por denunciar ou arquivar casos no âmbito do Supremo, mas que não conduz diretamente diligências de campo.
Impacto para o caso Master e para o sistema de segurança
As decisões de Toffoli chegam em um momento em que correntistas e investidores do Banco Master cobram respostas claras. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) já inicia o pagamento a clientes afetados após a liquidação extrajudicial, mas a responsabilidade por eventuais crimes ainda depende do avanço do inquérito. Cada semana de atraso ou de limitação de acesso a provas alimenta a sensação de que a conta pode sobrar para a sociedade, não para possíveis responsáveis.
A entrevista também amplia o debate sobre o desenho institucional da segurança pública. Ao comentar a chamada “PEC da Segurança Pública”, que propõe a criação de um Sistema Único de Segurança Pública (Susp), Paiva considera a iniciativa “interessante” por prometer melhores condições de atuação aos órgãos da área. Ele ressalva, porém, que a proposta “não traz grandes novidades” e “peca” ao evitar temas como a obrigatoriedade de que o diretor-geral da PF seja delegado de carreira, uma demanda antiga da categoria.
Recursos, facções e o embate no Congresso
Outro ponto que entra no radar é o chamado “PL Antifacção”, projeto de lei aprovado pelo Congresso para endurecer o combate ao crime organizado. O texto provoca divergências entre governo e oposição e passa por ajustes no Senado. Na análise de Paiva, houve avanço em relação à versão original, mas o resultado poderia ser mais direto na destinação de dinheiro para a PF. Ele defende que parte dos recursos fosse carimbada para a corporação, em vez de seguir apenas para o Fundo Nacional de Segurança Pública, de uso amplo em estados e municípios.
Esse debate sobre dinheiro e estrutura se conecta ao desconforto com o caso Master. Delegados ouvidos reservadamente apontam que investigações financeiras complexas exigem tempo, equipe especializada e estabilidade na gestão das provas. Qualquer interferência na rotina de acesso aos dados, mesmo chancelada por decisão judicial, é lida como risco de fragilizar não só esse inquérito, mas a capacidade de o país enfrentar esquemas semelhantes no futuro.
Próximos passos e tensão monitorada
A nota divulgada pela ADPF e a entrevista desta segunda-feira marcam um raro movimento público de pressão da cúpula da PF sobre um ministro do Supremo. Por ora, a entidade evita falar em medidas formais contra as decisões de Toffoli, mas sinaliza que seguirá acompanhando cada passo do inquérito e cobrando que a equipe de investigação tenha acesso pleno ao material apreendido.
O desenrolar do caso Banco Master tende a testar, mais uma vez, o equilíbrio entre instâncias de controle e autonomia das polícias. As próximas decisões do STF, a atuação da Procuradoria-Geral da República e eventuais ajustes legislativos em discussão no Congresso vão indicar se o episódio ficará restrito a um atrito pontual ou se abrirá uma discussão mais ampla sobre até onde o Judiciário pode ir na reorganização de uma investigação em andamento. A resposta, na prática, dirá ao cidadão quem controla o caminho das grandes apurações no país.
