Ultimas

Delcy Rodríguez rompe tom e diz estar “farta” de ordens dos EUA

A ditadora interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, declara nesta terça-feira (27) estar “farta de receber ordens dos Estados Unidos”, em Caracas. A fala marca uma guinada no tom da cooperação entre os dois países e sinaliza endurecimento imediato na relação com Washington.

Rompimento de tom em meio a pressão externa

Rodríguez fala após semanas de atrito com Washington, que volta a acusar o governo venezuelano de perseguição política e fraudes eleitorais. A resposta, agora em público e em tom pessoal, abandona a linguagem diplomática que vinha pautando encontros recentes entre emissários dos dois países.

“A Venezuela não aceita mais imposições, nem ultimatos, nem tutelas de nenhuma potência estrangeira”, afirma a dirigente diante de apoiadores e de parte da cúpula militar. O discurso ecoa a retórica de confrontação que marcou os anos mais duros do confronto com os EUA, mas ganha peso adicional porque ocorre após um período de negociações discretas em áreas como energia, sanções financeiras e cooperação humanitária.

Desde 2019, quando Washington reconhece um governo paralelo de oposição, as relações caminham entre congelamento e tentativas pontuais de aproximação. Em 2022, a busca dos EUA por alternativas de petróleo barato, em meio à guerra na Ucrânia, abre uma brecha de diálogo. Autoridades americanas vão a Caracas, discutem alívio gradual de sanções e falam em “passos verificáveis” rumo a eleições competitivas.

A fala de Rodríguez, em 27 de janeiro de 2026, representa uma inflexão nesse roteiro. Na prática, o governo venezuelano indica que não aceitará mais condicionar qualquer concessão interna a exigências específicas de Washington, como libertação de presos políticos em prazos definidos ou revisão de decisões do Conselho Nacional Eleitoral.

Impacto regional e novas linhas de alinhamento

O endurecimento público de Caracas ocorre em um momento em que a América Latina volta a se dividir em blocos de alinhamento. Governos mais próximos da Casa Branca defendem pressão coordenada sobre a Venezuela, enquanto aliados de Caracas argumentam contra sanções que atingem diretamente a população. Nesse tabuleiro, a frase “farta de receber ordens” funciona como recado interno e externo.

A economia venezuelana depende, em parte, de decisões tomadas em Washington. Sanções aplicadas desde 2017 atingem o setor de petróleo, responsável por mais de 90% das exportações do país em anos de bonança. Tentativas recentes de flexibilização parcial dessas restrições chegam a movimentar conversas sobre autorizar, por tempo limitado, contratos de companhias americanas e europeias, sob condições estritas de monitoramento.

Ao elevar o tom, Rodríguez arrisca encerrar ou retardar essas concessões. Analistas ouvidos por meios locais alertam que uma escalada verbal pode resultar em novas sanções individuais contra autoridades venezuelanas, congelamento de ativos no exterior e bloqueio de linhas de crédito já quase esgotadas. O custo potencial recai sobre um país que enfrenta inflação crônica, salários públicos muitas vezes abaixo de US$ 100 por mês e infraestrutura em colapso progressivo.

A reação de governos vizinhos tende a ser cuidadosa. Países que mantêm relação comercial relevante com a Venezuela, como Brasil e Colômbia, acompanham a movimentação porque qualquer escalada entre Caracas e Washington pode afetar cadeias de energia, rotas migratórias e negociações sobre segurança de fronteira. A região soma mais de 7 milhões de venezuelanos deslocados desde 2015, e um novo ciclo de tensão com os EUA pode agravar esse fluxo.

Organismos multilaterais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e as Nações Unidas, também são afetados. A posição mais dura de Caracas tende a se refletir em votações sobre resoluções de direitos humanos, em pedidos de observação eleitoral e em debates sobre missões de monitoramento no país.

O que pode mudar na prática e os próximos passos

A principal dúvida agora é até onde o discurso se converte em política concreta. Um caminho possível é a revisão unilateral de compromissos assumidos em mesas de diálogo patrocinadas por mediadores internacionais. Esse movimento poderia incluir o cancelamento de acordos de observação eleitoral ou a suspensão de permissões concedidas a organizações estrangeiras que atuam em programas sociais.

Outra frente de mudança está na estratégia de alianças. Ao reforçar a recusa às “ordens” americanas, Rodríguez reaproxima o país de parceiros que apostam em uma arquitetura paralela de poder global, com maior espaço para China, Rússia e Irã. Essa reconfiguração pode envolver novos contratos de petróleo, acordos militares e cooperação tecnológica em setores sensíveis, tema que desperta atenção constante em Washington.

No curto prazo, diplomatas esperam algum tipo de resposta oficial dos EUA, seja por comunicado do Departamento de Estado, seja por declarações da Casa Branca. A intensidade dessa reação ajuda a medir se a crise se limita ao campo retórico ou se inaugura uma fase de retaliações mútuas, inclusive em fóruns como o Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Dentro da Venezuela, o discurso de confronto tende a ser usado para reforçar a narrativa de resistência frente a uma potência externa. O governo explora a ideia de “soberania ameaçada” para consolidar apoios, pressionar a oposição e enquadrar críticas internas como alinhadas a interesses estrangeiros. Resta saber se, diante de uma economia fragilizada e de uma população cansada de promessas, esse roteiro ainda produz o mesmo efeito político de anos anteriores.

A frase de Delcy Rodríguez ecoa além do palácio presidencial e acende alerta em capitais de toda a região. A relação entre Caracas e Washington entra, mais uma vez, em zona de turbulência. A questão agora é se há disposição, de ambos os lados, para transformar o choque de discursos em novas regras de convivência ou em um ciclo prolongado de confronto.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *