Delcy Rodríguez promete eleições livres e busca acordo com EUA
A líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirma nesta quinta-feira (12) que está comprometida com a realização de eleições “livres e justas” no país ainda sob forte tensão política. Em entrevista à rede americana NBC, ela diz que o novo calendário eleitoral será definido por meio de diálogo interno com a oposição e sob as regras da Constituição venezuelana.
Compromisso público em meio à pressão interna e externa
Rodríguez assume o comando após a queda de Nicolás Maduro, preso em Nova York desde 3 de janeiro, e tenta redesenhar o cenário político em Caracas. A promessa de eleições ocorre num momento em que a Venezuela soma anos de contestação às urnas, recessão prolongada e sucessivas rodadas de sanções internacionais.
Questionada pela NBC se garante um pleito competitivo, a líder responde sem hesitar: “Absolutamente, sim”. Em seguida, emenda que o processo seguirá o texto constitucional. “Teremos eleições livres e justas neste país, é claro, conforme estabelecido pela Constituição”, afirma. Ela sustenta que o calendário “será definido e decidido por meio do diálogo político neste país”, em referência às conversas com partidos opositores e aliados do antigo chavismo.
O discurso contrasta com a fala recente de Jorge Rodríguez, irmão de Delcy e presidente da Assembleia Nacional, que na segunda-feira (9) descartou qualquer voto enquanto a “estabilização” política não estivesse garantida. A declaração dele gerou críticas da oposição e de observadores internacionais, que viram na fala um sinal de continuidade da lógica de adiamentos e controles que marcou a era Maduro.
As últimas eleições gerais, em 2024, são um ponto sensível da crise. A oposição denuncia fraude, aponta irregularidades na apuração e contesta a participação desigual no horário de TV estatal. Os resultados não são reconhecidos pelos Estados Unidos, pela União Europeia e por outros governos da região, o que aprofunda o isolamento de Caracas e bloqueia negociações de dívida e investimentos.
País tenta virar a página de fraudes, prisões e sanções
O colapso político se acelera nos últimos anos do governo Maduro, marcado por protestos massivos, inflação crônica e êxodo de milhões de venezuelanos. Em 2024, milhares de manifestantes são presos em diferentes ondas de repressão. Organizações de direitos humanos falam em centenas de presos políticos, embora o número exato seja alvo de disputa entre governo e entidades independentes.
Mesmo detido nos EUA, Maduro ainda é chamado de presidente “legítimo” por Delcy. Na entrevista, ao ser provocada sobre quem governa a Venezuela hoje, ela responde: “Eu estou no comando da presidência”. A frase busca afastar a imagem de tutela externa e reforçar que as decisões sobre o futuro do país seriam tomadas em Caracas, e não em Washington ou em outra capital.
Rodríguez tenta, ao mesmo tempo, abrir uma frente de diálogo com a Casa Branca. Segundo ela, a convocação de eleições “implica também um país livre de sanções. É justiça para a Venezuela e justiça para o povo venezuelano”, afirma. As medidas impostas pelos EUA e por aliados afetam o setor petrolífero, principal fonte de receita do país, e limitam o acesso do governo a financiamentos internacionais.
Delcy afirma manter conversas com representantes do governo americano e diz ter recebido um convite para viajar a Washington. Ela não informa datas nem nomes da comitiva, mas sinaliza disposição para a aproximação. “Estamos considerando ir para lá assim que estabelecermos essa cooperação e pudermos avançar com tudo”, declara, sugerindo que a agenda inclui sanções, eleições e possíveis garantias jurídicas para integrantes do antigo regime.
O movimento de abertura não se restringe à frente externa. Em Caracas, integrantes do governo interino trabalham na elaboração de uma lei de anistia que, segundo promessas oficiais, pretende libertar todos os presos políticos. O gesto busca reduzir a pressão nas ruas, acomodar a oposição institucional e criar um ambiente minimamente estável para uma transição eleitoral.
Eleições, anistia e sanções: o que pode mudar na prática
Se o compromisso anunciado sair do campo das declarações e se transformar em um calendário claro, o país pode assistir à primeira disputa reconhecida internacionalmente desde o início da década. Uma data para o pleito, combinada com libertações em massa de presos políticos, teria potencial para reduzir a tensão nas ruas e abrir espaço para o retorno gradual de embaixadores e investimentos suspensos desde 2019.
O cálculo político de Delcy passa por equilibrar pressões divergentes. De um lado, parte do chavismo teme perder poder, influência e eventuais proteções jurídicas caso a transição avance rápido demais. De outro, a oposição e governos estrangeiros cobram prazos definidos, presença de observadores eleitorais independentes e regras que garantam acesso equilibrado aos meios de comunicação e aos fundos partidários.
A economia, fragilizada por anos de queda do PIB e por uma inflação que chega a registrar altas anuais de três dígitos em meados da década, também entra na equação. Um acordo que leve ao alívio de sanções sobre o petróleo pode destravar bilhões de dólares em receitas e aliviar a escassez de combustíveis e medicamentos. Em troca, Washington tende a exigir garantias concretas de abertura democrática e compromissos com a integridade das urnas.
A população, que enfrenta filas, falta de serviços básicos e salários corroídos, dificilmente percebe mudanças imediatas. A reconstrução institucional exige tempo, reformas e alguma estabilidade política. Ainda assim, a simples perspectiva de uma eleição competitiva, com reconhecimento externo, já altera o humor de setores empresariais e pode frear parte da migração para países vizinhos.
Próximos passos e incertezas da transição venezuelana
Os próximos meses serão decisivos para mostrar se a promessa de Delcy Rodríguez se traduz em medidas verificáveis. A definição de uma data de eleição, a publicação de critérios para uma eventual anistia e a negociação de missões de observação eleitoral independentes são vistos por diplomatas como testes imediatos da disposição do governo interino.
O convite para Washington adiciona uma variável à equação. Uma visita oficial, se confirmada, pode acelerar conversas sobre sanções e dar ao governo interino uma foto simbólica de reconhecimento internacional. Também pode, porém, alimentar desconfiança interna sobre até que ponto a Venezuela controla, de fato, o rumo da própria transição.
A oposição, fragmentada por anos de disputas internas e frustrações eleitorais, tenta se reorganizar em torno de uma estratégia comum. Lideranças pressionam por garantias escritas, cronogramas fechados e participação direta nos debates sobre a nova legislação eleitoral. Sem isso, o risco é ver repetir-se o roteiro de decepções que marcou as tentativas anteriores de negociação com o chavismo.
O compromisso de realizar eleições “livres e justas” abre uma janela rara depois de uma década de confrontos, denúncias de fraude e prisões políticas. A pergunta que permanece, em Caracas e fora dela, é se o sistema que se consolidou ao redor de Maduro aceitará, na prática, enfrentar uma disputa em que possa, de fato, perder o poder.
