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Delcy Rodríguez diz estar “farta” de ordens dos EUA e eleva tensão

A ditadora interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, declara nesta terça-feira (27) estar “farta” de receber ordens dos Estados Unidos. A fala, em Caracas, marca o mais duro ataque público recente à influência de Washington na crise venezuelana. A declaração expõe um possível ponto de ruptura na já frágil relação entre os dois países.

Escalada verbal em meio à pressão externa

Rodríguez fala diante de apoiadores e integrantes do alto escalão do regime. Em tom inflamado, afirma que a Venezuela “não aceitará mais chantagens” e que o país “cansa de receber linhas de Washington”. A fala ocorre em 27 de janeiro de 2026, em meio a novas pressões americanas ligadas a sanções econômicas e exigências por mudanças políticas internas.

Ao repetir que está “farta das ordens dos Estados Unidos”, Rodríguez tenta reforçar a imagem de um governo sitiado por forças externas. O discurso ecoa a estratégia de Caracas desde pelo menos 2017, quando as primeiras grandes sanções financeiras de Washington atingem a estatal PDVSA e o Banco Central venezuelano. Agora, a retórica sobe mais um degrau e flerta com a possibilidade de rompimento diplomático formal.

Integrantes do governo venezuelano apontam, nos bastidores, crescente irritação com exigências americanas ligadas a negociações políticas e eleições futuras. A interlocutores estrangeiros, diplomatas de Caracas descrevem um “clima de ultimato” vindo de Washington, que condiciona qualquer alívio de sanções a passos concretos rumo a uma abertura política. A fala pública de Rodríguez funciona como uma resposta direta a esse quadro.

No discurso, transmitido pela TV estatal e por canais oficiais nas redes sociais, a ditadora interina usa linguagem dura. “Não aceitaremos que ninguém, muito menos os Estados Unidos, nos diga como governar. Estamos fartos das ordens e das ameaças”, afirma. Ao citar “ameaças”, ela se refere a sanções individuais contra membros do regime e a alertas americanos sobre novas medidas econômicas caso não haja avanços em compromissos firmados em negociações anteriores.

Impacto nas relações bilaterais e na economia

A fala de Rodríguez gera imediata preocupação entre analistas e diplomatas que acompanham o denso vaivém entre Washington e Caracas. Desde 2019, quando os EUA reconhecem um governo paralelo de oposição, a relação entra em rota de colisão e passa por sucessivas ondas de sanções. Em 2023 e 2024, alguns alívios parciais são negociados, sobretudo no setor de petróleo, em troca de promessas de eleições mais amplas. A nova postura ameaça esse frágil equilíbrio.

Setores ligados ao petróleo, ao gás e às exportações de minerais acompanham com atenção o discurso. Em 2025, estimativas de consultorias independentes apontam que cerca de 40% da receita externa venezuelana depende de operações que, de alguma forma, passam pelo crivo de sanções americanas. Qualquer endurecimento adicional tende a afetar diretamente o fluxo de caixa do regime e a oferta de dólares na economia local.

Nas últimas rodadas de negociação, técnicos dos dois países discutem prazos e metas para flexibilização de sanções, atreladas a marcos como registro de candidaturas, presença de observadores internacionais e liberação de presos políticos. Ao dizer que está “farta” de ordens externas, Rodríguez sinaliza que não aceita mais condicionar decisões internas a exigências de Washington. A mensagem atinge em cheio esse tabuleiro frágil.

Diplomatas na região avaliam que a fala pode provocar reação rápida da Casa Branca, com risco de novos bloqueios a ativos, restrições a empresas parceiras e revisão de licenças especiais de operação. Empresas europeias e asiáticas que atuam com a PDVSA ou com o setor de ouro e minerais estudam cenários de risco desde 2022, quando novas sanções secundárias são discutidas no Congresso americano. O discurso de Caracas tende a acelerar essas análises.

Aliados regionais da Venezuela, como Cuba, Nicarágua e alguns governos de perfil mais à esquerda na América Latina, encontram no novo tom de Rodríguez um reforço da narrativa de soberania. A retórica antiamericana ajuda a consolidar alianças políticas e militares, mas amplia o afastamento de governos que buscam diálogo mais pragmático com Washington, inclusive em temas como segurança de fronteiras, migração e combate ao narcotráfico.

Próximos passos e incertezas diplomáticas

Nas horas seguintes ao discurso, chancelerias latino-americanas pedem moderação pública e cautela. Avaliam que a escalada verbal pode se transformar em medidas concretas, como redução do nível de representação diplomática, cancelamento de canais de cooperação ou revisão de acordos técnicos em áreas sensíveis. Em cenário extremo, analistas consideram possível até o rompimento formal de relações, ainda que essa opção traga custo alto para os dois lados.

Interlocutores em Caracas e em Washington descrevem um ambiente de desconfiança mútua. De um lado, o governo venezuelano acusa os Estados Unidos de tentar impor “mudança de regime” por meio de sanções e condicionantes políticos. De outro, autoridades americanas afirmam, há anos, que não recuarão enquanto não enxergarem “passos verificáveis” rumo à redemocratização. Entre esses dois extremos, milhões de venezuelanos convivem com inflação crônica, salários comprimidos e sucessivas ondas migratórias.

A declaração de Rodríguez pressiona ainda mais governos da região que tentam atuar como mediadores, caso de Brasil, México e Colômbia. Qualquer rodada de diálogo, seja em formato multilateral ou bilateral, passa agora pelo desafio de acomodar a nova linha dura de Caracas. A forma como Washington responderá nos próximos dias, com declarações, sanções ou gestos de apaziguamento, deve definir o tom da crise em 2026.

Sem sinais imediatos de recuo, a frase “estamos fartos das ordens dos Estados Unidos” se torna síntese de uma fase mais agressiva da política externa venezuelana. Resta saber se o discurso se limita ao campo simbólico ou se se converte em decisões que redesenham, de maneira duradoura, a posição da Venezuela no tabuleiro regional e na relação com as grandes potências.

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