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Delcy Rodríguez cobra fim de ordens dos EUA e convoca diálogo na Venezuela

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirma neste domingo (25) que é hora de pôr fim às “ordens de Washington” na política venezuelana e defende um diálogo amplo, interno e imediato para enfrentar a crise do país. O recado, lançado diante de trabalhadores do setor de petróleo em Puerto La Cruz e transmitido pela TV estatal, reforça a tentativa do governo interino de marcar distância das pressões dos Estados Unidos em meio a uma disputa intensa pelo rumo da transição política.

Discurso mira influência externa e oposição ligada a Washington

No ato com trabalhadores petroleros, transmitido ao vivo pela Venezolana de Televisión (VTV), Delcy Rodríguez fala em tom de advertência a setores da oposição que buscam apoio direto em Washington. Sem citar nomes, acusa políticos venezuelanos de “agradecer bombardeios” contra o próprio país e diz que esse comportamento rompe qualquer limite de lealdade nacional.

“Aqueles que se atreveram a ir aos Estados Unidos agradecer pelo bombardeio contra nosso povo não merecem a dignidade deste país nem sua nacionalidade”, afirma. A frase ecoa declarações que a presidente interina faz no sábado, quando chama de “vergonhoso” que venezuelanos celebrem o ataque militar americano que leva à captura de Nicolás Maduro no início do mês, em meio a uma escalada sem precedentes da pressão externa sobre Caracas.

O alvo implícito é a oposição liderada por María Corina Machado, que se reúne com o presidente dos EUA, Donald Trump, em 15 de janeiro, na Casa Branca. No encontro, a dirigente entrega ao republicano a medalha do Prêmio Nobel da Paz de 2025, concedida a ela pelo Comitê Norueguês, emoldurada com uma mensagem de “gratidão” do povo venezuelano pelas ações de Trump para alcançar a “liberdade” do país, segundo registros publicados pelo jornal “The New York Post”. A imagem ajuda a consolidar a associação entre parte da oposição e a estratégia de pressão militar e econômica de Washington.

As relações entre os dois governos se tornam ainda mais tensas depois que Trump admite, em entrevista à revista “The Atlantic”, em 4 de janeiro, um dia após o ataque contra a Venezuela, que a permanência de Delcy Rodríguez no poder depende de sua adesão à linha da Casa Branca. “Se ela não fizer o que é correto, pagará um preço muito alto, provavelmente mais alto que o de Maduro”, afirma. Dez dias depois, após uma conversa telefônica com a presidente interina, o tom muda. Trump passa a descrevê-la como “uma pessoa fantástica” com quem diz ter “trabalhado muito bem”.

Chamada a um “verdadeiro diálogo” testa força da transição

Ao insistir na necessidade de um processo político “venezuelano”, Delcy procura se afastar do papel de figura tutelada por Washington e tentar recuperar margem de manobra interna. No discurso em Puerto La Cruz, ela recorda que, dois dias antes, na sexta-feira, propõe a convocação de um “verdadeiro diálogo” nacional, que inclua tanto forças aliadas quanto adversárias.

Segundo a presidente interina, esse diálogo precisa ter “resultados concretos e imediatos” e não pode se limitar a gestos simbólicos. Ela entrega a missão de articular as conversas ao irmão, Jorge Rodríguez, presidente do Parlamento, um dos negociadores mais experientes do chavismo em mesas anteriores com a oposição. A escolha tenta sinalizar capacidade de organização política em um momento em que o país atravessa mais um ciclo de incerteza institucional.

Delcy afirma que a mesa de negociação deve ser “venezuelana” e que não aceitará novas tutelas. “Que não se imponham mais ordens externas, nem de Washington, nem de Bogotá, nem de Madri”, diz, ao listar capitais que, em graus distintos, participam de iniciativas de mediação ou de pressão sobre Caracas. A fala encaixa o governo interino no discurso clássico da soberania, por décadas monopolizado pelo chavismo, mas agora reconfigurado em um cenário pós-Maduro.

O chamado ao diálogo surge depois de anos de impasse, sanções econômicas e intervenções diplomáticas que aprofundam a recessão e o isolamento da Venezuela. A captura de Maduro, consequência direta do ataque americano, não encerra o conflito político, mas abre uma disputa nova sobre quem controla a transição, com Washington e setores da oposição tentando moldar o desenho institucional e as próximas eleições nacionais, previstas para ocorrer em até 18 meses, segundo acordos preliminares discutidos em organismos multilaterais.

Soberania em disputa e efeitos na região

A defesa enfática da soberania, feita por Delcy Rodríguez diante dos trabalhadores do petróleo, toca um nervo sensível da sociedade venezuelana. O setor petrolífero, que responde historicamente por mais de 90% das receitas de exportação do país, sofre com bloqueios financeiros e embargos técnicos impostos por sucessivas rodadas de sanções dos Estados Unidos desde 2017. A promessa de que decisões sobre o futuro da estatal PDVSA e sobre contratos com companhias estrangeiras serão tomadas em Caracas, e não em Washington, fala diretamente aos empregos e à renda de milhares de famílias.

Para aliados da presidente interina, a convocação de um diálogo amplo busca reduzir a polarização e reconstruir algum consenso mínimo sobre regras políticas básicas, como calendário eleitoral, anistias seletivas e reformas econômicas. Um entendimento interno, dizem, pode fortalecer a posição venezuelana em eventuais renegociações de sanções e dívidas externas, hoje estimadas em mais de US$ 150 bilhões somando compromissos públicos e privados.

O gesto, no entanto, tende a aprofundar o choque com a ala da oposição mais identificada com a Casa Branca e com governos ideologicamente alinhados na região. A crítica direta à celebração do bombardeio americano isola figuras que apostam em novas ações militares ou em sanções ainda mais duras para acelerar mudanças de regime. Ao mesmo tempo, pressiona partidos que tentam combinar apoio externo com preservação de espaço de negociação interna.

Na América Latina, a movimentação de Delcy é observada de perto por governos que, nos últimos anos, se dividem entre reconhecer líderes opositores como autoridades legítimas e defender a não intervenção. Uma agenda de diálogo que avance pode reposicionar a Venezuela em instâncias como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), e influenciar debates sobre o uso de sanções e ações militares como instrumentos de política externa no continente.

Pressão por resultados rápidos e incertezas no horizonte

Ao amarrar o discurso de soberania a prazos curtos, com a exigência de “resultados concretos e imediatos”, Delcy Rodríguez assume um compromisso que será testado nas próximas semanas. A expectativa é que Jorge Rodríguez comece a contatar partidos opositores, líderes regionais e organizações sociais já no início de fevereiro para construir uma agenda mínima, que inclua desde garantias de segurança para opositores até medidas econômicas emergenciais para conter a inflação que permanece em níveis de dois dígitos mensais em algumas regiões.

O sucesso desse esforço depende não apenas da disposição das forças internas, mas também do comportamento de Washington. Caso a Casa Branca mantenha a lógica de condicionar o reconhecimento e o alívio de sanções a concessões unilaterais de Caracas, o espaço para um diálogo genuinamente “venezuelano”, nos termos de Delcy, se reduz. Se houver flexibilização, cresce a chance de que o processo seja apresentado como um laboratório de transição negociada em uma das crises mais longas da região.

O discurso em Puerto La Cruz deixa clara a encruzilhada em que a presidente interina se encontra. Romper com a imagem de dependência em relação aos EUA é vital para consolidar legitimidade interna, mas pode custar apoio internacional decisivo em organismos financeiros e diplomáticos. Apostar em um diálogo nacional sem garantias concretas de adesão da oposição é um risco calculado em um país exausto por mais de uma década de conflito político e colapso econômico.

Se as conversas avançarem, Delcy poderá apresentar à comunidade internacional um roteiro de transição ancorado em negociações internas, com potencial para aliviar sanções e atrair investimentos em setores estratégicos como petróleo, gás e energia elétrica. Se fracassarem, a Venezuela pode voltar ao ciclo conhecido de bloqueios, isolamento e dependência reforçada de potências extra-regionais, como Rússia e China. A pergunta que se abre, diante do apelo para que cessem as “ordens de Washington”, é até onde o país conseguirá ditar os próprios termos sem perder, de novo, o controle de seu destino.

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