Defesa Civil aciona gabinete de crise após chuvas extremas em SP
A Defesa Civil do Estado de São Paulo aciona, neste domingo (8), o gabinete de crise para enfrentar as fortes chuvas que atingem o estado. O órgão reúne equipes técnicas e concessionárias para monitorar riscos, reduzir danos e garantir resposta rápida a alagamentos, deslizamentos e quedas de barreiras previstos até segunda-feira (9).
Chuvas históricas e gabinete em alerta no Palácio
O centro da operação funciona no Palácio dos Bandeirantes, na zona sul da capital. A partir das 14h, representantes de concessionárias de energia, água, gás, telefonia, além do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), Corpo de Bombeiros, agências reguladoras e órgãos sociais passam a atuar lado a lado com a Defesa Civil. O gabinete permanece ativo ao longo desta segunda-feira (9), enquanto o alerta para chuvas intensas continua em vigor.
O reforço na estrutura de resposta vem após um fim de semana de temporais provocados por um sistema de baixa pressão no oceano associado à Zona de Convergência do Atlântico Sul, a ZCAS. Esse corredor de umidade, que leva grandes volumes de nuvens carregadas para o Sudeste, mantém as condições para novas pancadas fortes, com risco de alagamentos repentinos e deslizamentos em encostas já encharcadas.
As equipes estaduais dizem que o foco é reduzir o tempo entre o problema e a resposta. “Quando todo mundo está na mesma sala, decisões saem em minutos, não em horas”, afirma um técnico da Defesa Civil que acompanha a operação. Essa articulação direta permite, por exemplo, interromper o tráfego em rodovias logo após registro de queda de barreira, acionar reforço de viaturas do Corpo de Bombeiros ou priorizar o restabelecimento de energia em áreas críticas.
São Carlos concentra maior volume de chuva em 24 horas
São Carlos, no interior paulista, se torna o símbolo da força da chuva neste episódio. Em apenas 24 horas, o município registra 137 milímetros, o equivalente a cerca de 80% da média histórica de fevereiro, que é de 169,9 milímetros. Em termos práticos, a cidade enfrenta em um dia o volume previsto para 24 dias de chuva. Ruas alagam em poucos minutos, córregos transbordam e encostas ficam sob observação.
No litoral norte, Ubatuba anota 129 milímetros no mesmo período, o que representa 72,5% da média mensal. Bertioga soma 126 milímetros e São Sebastião, 119 milímetros, em um cenário que lembra outros episódios recentes de verão com transtornos na região. No Noroeste, São José do Rio Preto registra 105 milímetros, volume equivalente a cerca de 15 dias de chuva de fevereiro. Caraguatatuba, Elias Fausto e São Luís do Paraitinga também entram no mapa dos principais acumulados, com 103, 100 e 83 milímetros, respectivamente.
Os dados da Defesa Civil classificam esses volumes como extremamente elevados para um único dia. Entre sábado (7) e domingo (8), o estado contabiliza alagamentos em vias urbanas, deslizamentos de terra em encostas e quedas de barreiras em trechos de rodovias. Ao todo, 13 pessoas ficam desalojadas e 4 desabrigadas, precisando deixar as próprias casas. Não há registro de mortes ou feridos graves até o momento.
O órgão estadual mantém contato permanente com as defesas civis municipais para acompanhar a situação em cada cidade. A orientação é que prefeituras monitorem áreas de risco, acionem sirenes quando necessário e removam famílias de forma preventiva. “Nossa prioridade é evitar que a chuva forte se traduza em tragédia”, afirma outro integrante da equipe, que relata monitoramento ininterrupto das imagens de radar e dos níveis de rios.
Impacto para a população e riscos nas próximas horas
O cenário de solo encharcado aumenta a vulnerabilidade em morros, encostas e margens de córregos, tanto na capital como no interior e no litoral. Em bairros periféricos, onde muitas casas ocupam áreas de risco, qualquer milímetro a mais de chuva pode fazer diferença entre uma noite tensa e um deslizamento de terra. Famílias que já vivenciam enchentes recorrentes acompanham o noticiário com atenção redobrada.
No trânsito, as consequências vão além das pistas alagadas. Quedas de barreira em estradas podem isolar bairros ou cidades inteiras por horas. O DER e a Polícia Rodoviária intensificam as rondas em trechos conhecidos por escorregamentos, como serras e acessos ao litoral. A presença de equipes de concessionárias no gabinete de crise facilita o envio de máquinas e equipes de reparo logo após os primeiros relatos de bloqueio.
Os serviços de energia, água e comunicação também entram em modo de alerta. Ventos fortes e descargas elétricas derrubam árvores e atingem redes de distribuição, deixando bairros no escuro ou sem sinal de telefone e internet. A prioridade, segundo técnicos ouvidos pela reportagem, é restabelecer o fornecimento em hospitais, unidades de saúde, sistemas de bombeamento de água e áreas que concentram população mais vulnerável.
Especialistas em clima explicam que episódios de chuva intensa em curto período vêm se tornando mais frequentes na estação chuvosa. A combinação de alta temperatura, umidade abundante e sistemas de baixa pressão cria um ambiente propício a tempestades severas. A ZCAS, bem conhecida dos meteorologistas, é um desses mecanismos que, ano após ano, volta a colocar o Sudeste em estado de atenção.
Próximos passos e atenção redobrada até segunda
A Defesa Civil mantém o alerta para chuvas fortes pelo menos até a noite desta segunda-feira (9). O órgão orienta moradores de áreas de risco a não dormir em casas com rachaduras recentes, muros inclinados ou sinais de deslizamento. Quem vive próximo a rios e córregos deve observar a subida rápida da água e buscar abrigo em locais seguros ao primeiro sinal de transbordamento.
A recomendação é evitar atravessar ruas inundadas, tanto a pé quanto de carro, já que a força da enxurrada pode arrastar veículos e esconder buracos ou bocas de lobo abertas. A população é orientada a acompanhar os avisos oficiais, seja por aplicativos, redes sociais ou rádios locais, e acionar o telefone de emergência da Defesa Civil em caso de risco iminente.
O gabinete de crise segue mobilizado, com a promessa de manter o estado em regime de plantão enquanto o sistema de baixa pressão continuar ativo sobre o oceano. Passada a fase mais aguda, o balanço de danos deve alimentar novas discussões sobre ocupação urbana, drenagem e prevenção de desastres. A cada temporada de chuvas mais intensas, a pergunta volta à mesa: o quanto o estado e os municípios conseguem se antecipar ao próximo episódio extremo?
