Esportes

Debate sobre boicote à Copa de 2026 expõe limite da política no esporte

A poucos meses da Copa do Mundo de 2026, parte da classe política europeia volta a falar em boicote ao torneio, que terá jogos nos Estados Unidos, Canadá e México. A reação surge após novas ameaças do então presidente Donald Trump, mas encontra resistência de federações e governos, que tratam a ideia como ingênua e inviável.

Crise diplomática reacende um velho debate

O estopim para o novo ciclo de declarações ocorre em janeiro de 2026, depois que Trump ameaça anexar a Groenlândia e amplia a tensão com governos europeus. A fala se soma a uma série de gestos que, desde o ano passado, colocam o Mundial no centro da disputa política em Washington.

Trump já ameaça retirar partidas de cidades-sede que considera inseguras, condiciona a presença de torcedores de países como Irã, Haiti, Senegal e Costa do Marfim a restrições de segurança e fala em intervir no México para combater cartéis de drogas. No discurso, chega a dizer que adoraria ver o Canadá como o 51º estado norte-americano. As declarações não encontram eco na Fifa, nem no presidente Gianni Infantino, que evita confrontos públicos com a Casa Branca.

O ruído diplomático, porém, alimenta discursos de retaliação em parte do Parlamento Europeu e em alguns legislativos nacionais. Nomes sem grande peso político passam a sugerir que seleções do continente deveriam desistir da Copa como resposta às ameaças do republicano. As ideias não avançam além das manchetes, mas bastam para recolocar o tema do boicote esportivo no centro da discussão pública.

A jornalista Marina Izidro, que vive em Londres, acompanha esse movimento com ceticismo. Com passagens por sete Olimpíadas, duas Copas do Mundo e temporadas de Champions League, ela lembra que o recurso é antigo, mas raramente eficaz. “Boicotes esportivos não acabam com o problema e só punem quem não tem nada com isso: os atletas”, afirma.

Histórico de boicotes e a realidade da Copa de 2026

Boicotes organizados acompanham o esporte desde a Antiguidade. Em 332 a.C., Atenas ameaça abandonar os Jogos Olímpicos após a acusação de que um de seus atletas participa de um esquema de apostas. Mais de dois milênios depois, o instrumento ganha escala mundial durante a Guerra Fria.

Em 1980, Estados Unidos e aliados deixam de ir aos Jogos de Moscou para protestar contra a invasão soviética no Afeganistão. Quatro anos depois, a União Soviética lidera a resposta e conduz um boicote ao evento de Los Angeles. O saldo é ambíguo: os regimes permanecem, as guerras continuam, as delegações encolhem e os atletas perdem o auge de suas carreiras em nome de decisões tomadas longe dos estádios.

O futebol vive dilemas parecidos. A Copa de 2018, na Rússia, sofre pressões após a anexação da Crimeia em 2014. Em 2022, o Catar vira alvo de campanhas internacionais por violações de direitos trabalhistas e civis, com denúncias sobre a morte de trabalhadores migrantes na construção de estádios. Para 2034, a escolha da Arábia Saudita já desperta movimentos de contestação inclusive dentro da própria Fifa.

A proposta atual de boicote à Copa de 2026 nasce em cenário distinto. Ao contrário de regimes autoritários, os Estados Unidos mantêm eleições regulares, alternância de poder e imprensa livre. “Falar em boicote a um evento sediado nos EUA é, no mínimo, ingênuo”, diz Marina Izidro. “Se o futebol é o ópio do povo, tirar um país classificado do Mundial seria a morte política de quem tomasse essa decisão.”

A leitura encontra respaldo nas posições oficiais. A Confederação de Futebol da Holanda declara que posicionamentos políticos são responsabilidade do governo, não da entidade esportiva. Na França, a ministra do Esporte descarta qualquer chance de retirada da seleção, mesmo diante da escalada verbal de Trump. No Reino Unido, que mantém laços econômicos e militares profundos com os EUA, a hipótese não entra na mesa. Inglaterra e Escócia consideram impensável abrir mão de uma Copa que deve movimentar bilhões de dólares em turismo, patrocínios e transmissões.

Impacto real, limites do boicote e o que pode mudar

O Mundial de 2026 será o maior da história, com 48 seleções e 104 jogos distribuídos ao longo de cerca de 40 dias, entre junho e julho. Estimativas internas da Fifa projetam receita superior a US$ 11 bilhões, somando direitos de TV, patrocínios globais e bilheteria. Qualquer retirada de peso, vinda de uma grande seleção europeia, afetaria diretamente essa equação financeira e a imagem do torneio.

A ameaça de boicote, porém, esbarra em cálculos políticos domésticos. Governos que cogitassem barrar uma seleção classificada precisariam enfrentar torcedores, federações e patrocinadores em ano de ciclos eleitorais curtos. Em países como França, Holanda e Reino Unido, nos quais o futebol ocupa espaço central na cultura popular, a decisão poderia custar votos, empregos e contratos estimados em dezenas de milhões de euros.

Marina Izidro vê um descompasso entre o discurso inflamado e o efeito concreto. “Normalmente, o boicote não resolve a questão geopolítica e ainda cria conflitos diplomáticos adicionais”, avalia. Em vez de pressionar diretamente governantes, a medida costuma atingir atletas e torcedores, que passam anos em ciclos de preparação física e emocional. Em esportes de alto rendimento, quatro anos entre uma Copa e outra podem significar o fim de uma geração inteira.

O debate em torno de Trump também expõe o desconforto das entidades esportivas com o discurso padrão de que “esporte e política não se misturam” ou que “o esporte tem o poder de unir o mundo”. A cada nova crise, essas frases soam mais distantes da realidade de um mercado em que estádios viram vitrines de regimes, empresas e projetos de poder.

Para a jornalista, o caminho passa por outra frente. “O que poderia acontecer é uma maior rigidez na escolha de quais países terão o privilégio de sediar Copas e Jogos”, diz. O alvo são candidaturas de governos com histórico recente de violações de direitos humanos, repressão a minorias e restrições severas à imprensa. Critérios objetivos de transparência, respeito a tratados internacionais e liberdade civil poderiam ser exigidos já no processo de candidatura, com auditorias independentes e prazos claros.

Esporte sob pressão e a disputa pelas próximas sedes

A crise atual funciona como alerta para federações internacionais, com a Fifa à frente. O ciclo até 2034, que inclui a edição de 2030 em múltiplos países e a Copa na Arábia Saudita quatro anos depois, tende a intensificar o escrutínio sobre os bastidores da escolha das sedes. Organizações de direitos humanos e torcedores organizados já prometem monitorar contratos, obras e políticas migratórias.

Nos Estados Unidos, a tensão em torno de Trump não leva governos europeus a romper com a Copa, mas pressiona entidades esportivas a abandonar o conforto das frases prontas. A cada declaração do republicano, cresce a cobrança para que a Fifa explicite quais são os limites para interferência política no torneio, desde a segurança de torcedores estrangeiros até o respeito a acordos com Canadá e México.

Ao mesmo tempo, federações e atletas pressionam por segurança jurídica mínima. Seleções que planejam a viagem com um ou dois anos de antecedência, com orçamentos na casa de dezenas de milhões de euros, não podem correr o risco de ver um Mundial ruir por causa de uma crise diplomática mal administrada. Exigências contratuais mais duras, cláusulas de proteção a delegações e protocolos claros para casos de retaliação política tendem a entrar nos próximos regulamentos.

O Mundial de 2026 se aproxima como teste decisivo. Se o torneio atravessar a turbulência sem boicotes e sem incidentes graves, entidades podem se sentir autorizadas a manter o modelo atual, que separa o discurso oficial da realidade geopolítica. Se novos conflitos surgirem, a pressão por mudanças estruturais na escolha das sedes deve crescer. A pergunta que fica é se o futebol vai seguir apenas reagindo às crises ou se terá coragem de definir, com antecedência, onde termina o jogo e onde começa a política.

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